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SAÚDE & BEM - ESTAR

Transtorno de estresse pós-traumático as consequências psicológicas de um evento traumático

07 novembro 2020 - 06h10Por Uisney Gomes Portella

"A única imagem que a gente tem é como se você estivesse dentro de um liquidificador gigante, sendo girada de um lado e para o outro, e sendo esmagada por pedra, pau, ônibus, veículo, porta, tudo que estava vindo para baixo, esmagando as pessoas, quebrando tudo". (Alessandra Thalyta)

"Meu celular tocou e me avisaram para tomar cuidado, pois a barragem tinha rompido. Me avisaram: 'Sai daí, sai daí". Quando passei atrás do Parque da Cachoeira, eu vi aquela lama descendo... Tentei voltar pra socorrer as famílias, mas não tive êxito. Tentei avisar a todos os meus funcionários que estavam lá, meus amigos" (Alisson Matos, 43 anos)

“Não tive tempo de fugir. Minha casa foi tragada pela avalanche de rejeitos. Depois que eu estava presa que eu fui raciocinar que era a barragem". (Adriane Alves)

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Era 25 de janeiro de 2019, por volta das 12:20, horário do almoço para o querido povo de Minas Gerais, quando a barragem de rejeitos de minério da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), se rompeu. O trágico acontecimento foi um dos maiores desastres ambientais no Brasil. A tragédia provocou a morte de 252 pessoas. Algumas famílias permanecem, até hoje, sem poder sepultar seus entes queridos, perdidos sob toneladas e toneladas de lama e escombros do que antes fora uma bela e bucólica paisagem.

Alessandra, Alisson e Adriane são alguns dos sobreviventes que jamais esquecerão daquele fatídico dia. Além deles, outras milhares de pessoas foram direta ou indiretamente atingidas. Refiro-me não só às pessoas que foram atingidas pela onda de rejeitos, mas a familiares, que perderam seus filhos, esposos, esposas... e aos milhares de bombeiros que participaram dos resgates e foram testemunhas oculares da força destrutiva do evento. Afinal, o envolvimento emocional em retirar homens, mulheres e, principalmente crianças, dos escombros pode estremecer até o mais preparado membro das equipes de busca.

O que essas pessoas têm em comum, além de, obviamente, estarem envolvidas no acontecimento traumático? A resposta é a possibilidade de desenvolverem o chamado Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Vamos entender um pouco mais sobre esse transtorno? Faço o convite para que você leia esta matéria, afinal, estamos sujeitos a acontecimentos que podem, de uma hora para outra, virar nossas vidas “de pernas para o ar”, o que pode trazer extremo sofrimento psicológico. Vamos lá?

O que é o transtorno de estresse pós-traumático (tept)?

Primeiramente temos que entender o que é um trauma. A medicina o define como “qualquer lesão ou perturbação produzida no organismo por um agente exterior acionado por uma força”. Vamos ampliar esse conceito. Para a psicologia, trauma é toda experiência emocional intensamente desagradável que pode causar distúrbios psíquicos, deixando uma marca duradoura na mente do indivíduo, ou seja, um trauma psicológico. A partir dessa definição podemos entender como a tragédia de Brumadinho, um acidente de trânsito, a perda de uma pessoa querida, a violência urbana, abuso sexual, dentre outros tantos fatores, podem se constituir em estressores que ocasionam o TEPT.

Entendido o trauma psicológico, podemos partir para a característica principal que embasa o diagnóstico do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Trata-se do desenvolvimento dos sintomas após a exposição a um ou mais eventos traumáticos. Ou seja, a pessoa passa a experimentar intensa mudança em seu funcionamento psicológico e interações sociais, que podem se manifestar através de medo e evitações conscientes de se aproximar de locais, pessoas, objetos, que despertem a lembrança do fator estressor. Por exemplo, uma pessoa assaltada dentro de um ônibus, tende a se tornar sobressaltada, evitando ao máximo fazer novo uso do referido transporte. Além disso, o indivíduo exposto a eventos traumáticos é “atormentado” por flashbacks do evento. O rosto do assaltante, o som da freada do veículo antes de uma colisão, enfim, as lembranças do momento traumático.

Quanto aos sintomas do TEPT, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), da Associação Americana de Psiquiatria, é bastante enfático em diferenciá-los dos pensamentos característicos da depressão. No TEPT, as lembranças se manifestam de forma invasiva e involuntária, diferentemente da depressão, cujos pensamentos dependem de ação voluntária do indivíduo. O quadro abaixo traz alguns dos sintomas clássicos do TEPT.

 

Não é fácil conviver com as consequências de um evento traumático. O desenvolvimento do TEPT pode trazer muitos prejuízos funcionais à pessoa. A seguir, veremos os prejuízos funcionais derivados desse transtorno. Vamos conhecê-los?

Os prejuízos funcionais causados pelo transtorno de estresse pós-traumático

Ainda não podemos prever eventos como acidentes. Podemos entender como um raio que não sabemos onde cairá. A surpresa, e as terríveis consequências, aniquilam quaisquer preparações prévias. Afinal, ninguém embarca em um avião esperando que cairá ou, ainda, carrega seu veículo para uma viagem esperando não chegar no destino. Por isso, os eventos traumáticos são tão poderosos. Eles nos “pegam desprevenidos”! 

Quem não lembra do trágico voo da Chapecoense em novembro de 2016? O time de futebol que estava encantando o Brasil foi praticamente dizimado no acidente. Infelizmente 71 pessoas perderam suas vidas. Apenas três jogadores, um jornalista e dois tripulantes sobreviveram. Dentre os jogadores sobreviventes estava o zagueiro Neto, último a ser resgatado com vida. Sobre a tragédia e o sofrimento psicológico o zagueiro disse o seguinte:

“Tive uma dificuldade grande de andar de avião novamente. Eu não ando de forma confortável como sempre andei. Minha família também ficou com trauma, principalmente meus filhos. Tenho um casal de gêmeos. Eles sofreram muito com a tragédia. Eles têm medo de avião. Isso não alcançou só o Neto, mas também minha família. É algo que ainda fica impregnado nas nossas vidas. Quando você toca no assunto, meus filhos começam a chorar. Além da parte física, que não é a mesma, claro. Não posso nem reclamar disso. Depois de todos os traumas que tive, estou muito bem, sobrevivi. Algumas coisas ainda pesam para um atleta profissional. Tenho de me adaptar, mas já estou conseguindo fazer isso. As dores pelo corpo ainda ficaram”. (Jogador Neto em entrevista ao Jornal Hoje em Dia).

Outra história que movimentou o cenário nacional foi o ataque de tubarão sofrido pelo turista potiguar Pablo Diego Inácio de Melo, em 2018. Com 34 anos na época, Pablo conta que lembra dos momentos de luta com o tubarão. Infelizmente, após o ataque teve uma perna e um braço amputados. Em entrevista ao site G1, o sobrevivente afirmou:

“Eu me acordei no outro dia pensando 'Meu Deus, que pesadelo foi esse?'. E quando eu abri os olhos, eu estava na UTI. Olhei para a minha perna, e eu estava sem a perna. Ainda estava com os dois braços, mas esse aqui [o braço direito] não ia resistir não”, diz. Coincidência ou ironia da vida, Pablo carrega no braço direito, a tatuagem de um tubarão. "Eu gostava muito [de tubarão], não vou mentir. Agora não quero mais não."

Duas tragédias que proporcionaram muita dor física e psicológica aos sobreviventes. A similaridade entre os casos é que as pessoas envolvidas apresentaram extremo sofrimento psicológico após os eventos traumáticos. Neto e Pablo tiveram suas vidas transformadas num piscar de olhos. Ambos convivem com seus “fantasmas”, desde a data do trauma sofrido. Isso demonstra que o TEPT provoca intensos prejuízos funcionais.

O DSM 5, literatura de referência para psiquiatras e psicólogos clínicos, afirma que o TEPT está associado a níveis elevados de incapacidades sociais, profissionais e físicas. Junte-se a isso o elevado custo econômico e grande mobilização de serviços médicos, para atender casos desse transtorno em decorrência de uma tragédia de grandes proporções, como Mariana e Brumadinho, por exemplo. Uma pessoa diagnosticada com TEPT experimenta grande prejuízo em seu funcionamento social, interpessoal, na saúde física e no rendimento profissional. 

Imaginem um motorista de ônibus que tem uma arma apontada para sua cabeça durante um assalto. No dia seguinte, lá está o mesmo motorista tendo que passar pelos mesmos lugares, embarcando e desembarcando passageiros, sem saber se, ou quando, passará pelo mesmo trauma. Dentro de algum tempo, inevitavelmente, aquele profissional manifestará os sintomas do TEPT. A consequência mais previsível é que desenvolva extrema ansiedade ao se sentar no banco do motorista para trabalhar, até o ponto em que não conseguirá mais lidar com o estresse da profissão. 

Aquele motorista do exemplo, que dirigiu por vários anos de sua vida, em determinado momento, poderá se encontrar em tamanho grau de sofrimento que não conseguirá mais desempenhar sua profissão. O que fazer para prover o sustento da família? Vemos, com casos práticos, como o TEPT pode desestruturar uma família inteira. Fica ressaltada a importância de buscar ajuda e tratamento para esse transtorno, antes que se agrave a ponto de incapacitar o indivíduo. A seguir, falarei sobre a importância da terapia no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Vamos conferir?

A psicoterapia é fundamental para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático

Vimos que não temos controle sobre muitos fatores estressores que podem causar o TEPT. A vida nos leva por labirintos onde não sabemos o que nos aguarda. Essa é uma das maravilhas de estarmos vivos: “as descobertas do dia seguinte”. Por outro lado, em determinados momentos somos confrontados pela careta da realidade. E ela não é bonita! É quando nos falta o chão. Acontece algo que nos faz desejar nunca termos vivido aquele dia. Não vivemos em ambientes controlados como em pesquisas científicas e algo sempre insiste em nos retirar da “CNTP”. Essa é a possibilidade, sempre aberta, para o TEPT.

Felizmente o TEPT pode ser tratado e controlado. Em alguns casos, os psiquiatras prescrevem medicamentos que ajudam a controlar as crises de ansiedade e pânico, que se instalam sempre que a pessoa com TEPT tem contato com “gatilhos” que lembram a situação estressora. A complementação do tratamento com psicoterapia é fundamental EM TODOS OS CASOS. A pessoa tem a oportunidade de trabalhar seus medos e traumas no consultório, desenvolvendo repertório psicológico para lidar com eles de forma proativa.

Quanto mais se investe na recuperação psicológica após o trauma, maiores as chances de reduzir os efeitos do TEPT, contribuindo para elevar as chances de sucesso no tratamento. Reflita sobre isso! Busque ajuda profissional. Não há nada perdido! Lute por você. Lute por quem você ama. Viver é um dom! Viver bem é uma possibilidade mais próxima do que se imagina! Agende sua sessão de terapia. Aguardo seu contato.

Telefone: (67) 99660-8147

Facebook: Uisney G. Portella Psicólogo

https://uisneypsico.com.br

Rua Toshinobu Katayama 1350, Sala 7, Galeria Planalto, Vila Planalto, Dourados - MS

 

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