Menu
Busca quinta, 05 de agosto de 2021
(67) 99257-3397

Urbanus erectus

01 dezembro 2004 - 18h36

Ricardo Minella* Não bastasse o sol escaldante, o peso nas costas, a labuta desde as primeiras horas do dia, ainda era manco. A natureza lhe pregou uma peça: tinha uma perna maior que a outra. Às tribulações físicas se somavam as pilhérias dos “compañeros” de labuta, boa parte deles índios, mestiços, paraguaios: lá vem o perneta - o que, percebe-se agora, não era. A empresa para a qual trabalhava era uma potência. Tinha concessão do governo para explorar milhões de hectares no sul do então Mato Grosso com a atividade. Além de aproveitar terras até então improdutivas, dava ocupação para muitas pessoas que não tinham outra aptidão a não ser o uso da força física. A concessão, na verdade, era uma recompensa imperial a “serviços prestados” na guerra do Paraguai. Além dos companheiros, nosso herói dividia espaço com cerca de 800 carretas e 20 mil bois. A planta razão de seu trabalho, era típica da América do Sul, ocupava extensões nativas em Ivinhema, Amambai, Ponta Porã e Bela Vista. Inicialmente parte da dieta alimentar dos indígenas, seu consumo posteriormente foi incorporado pelos Jesuítas e colonos, em função de suas propriedades diuréticas, medicinais e nutritivas. Os anos, início do século XIX. A empresa praticamente ocupou toda a área tradicional da nação Guarani, nas quais os indígenas eram mão-de-obra escrava, trabalhando em troca de ferramentas, tecidos e sal. De nosso personagem, não se deveria esperar tratamento muito melhor. Esperava-se, no entanto, que o futuro lhe fizesse justiça. Não o fez. Apenas foi condescendente, pois não o representou corcunda, como de fato deveria ser, devido ao peso dos anos, dos fardos e do aleijume natural. Num ponto foi coerente: nascido e criado naquele ambiente hostil, não saberia virar-se na cidade grande, inclusive escolhendo local mais inconveniente onde postar-se. É o nosso urbanus erectus. Nesse novo habitat, de início causou alguma curiosidade. Mas o corre-corre diário não permitiu uma dúvida mais consistente a ponto de provocar um debate. Hoje, ele está lá. Não houve consultas para saber se deveria ser melhor ambientado. Não se sabe quem foi consultado sobre o local, as características do personagem. Quem quiser morrer mais cedo, que se arrisque a ficar de frente para decifrá-lo. Alguma consulta popular? Pesquisa? Para que, se eles têm mais quatro anos. Agora é deitar e rolar. O autor é Jornalista

Deixe seu Comentário

Leia Também

Licenciaturas terão mais um ano para atualizar os currículos
EDUCAÇÃO
Licenciaturas terão mais um ano para atualizar os currículos
FRONTEIRA
Com medo de "justiceiros", assaltantes abandonam carro e motos roubados
SISTEMA ELEITORAL
Empresários divulgam manifesto em defesa da urna eletrônica e da democracia
Homem armado com faca invade posto de saúde e acaba preso
NÚMEROS DA PANDEMIA
Média móvel de mortes por Covid fica abaixo de 900 após mais de 200 dias
REGIÃO
Por ajuda com comida, avós deixavam menina de 13 anos ser estuprada
BRASIL
Bolsonaro escolhe Bruno Bianco para o lugar de Mendonça na AGU
SONORA
Homem suspeito de matar a esposa e enterrar corpo tem preventiva decretada
COMÉRCIO EXTERIOR
Exportações de MS sobem 16,5% com destaque para soja, celulose e açúcar
VIOLÊNCIA
Motociclista morre ao ser atingido por caminhão em avenida da Capital

Mais Lidas

DOURADOS
Assessora vai à polícia e diz que foi ameaçada de morte por vereadora
DOURADOS
Flagrado com pistola, jovem é preso no Parque do Lago II
AMEAÇA
Mulher não aceita relacionamento do ex e ameaça a atual companheira dele de morte
DOURADOS
Casal é preso após transformar casa de homem que morreu por overdose em 'boca de fumo'