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FENÔMENO

Última superlua do ano aparece hoje; veja melhor hora de observar

08 setembro 2014 - 11h53

Como previam os cientistas, o asteroide 2014 RC veio e foi sem causar estragos. E agora podemos deixar o medo de lado e voltar a olhar para o céu com a devida reverência. Anote aí: hoje à noite pinta nos céus a “superlua”. E aproveite, porque é a terceira e última vez neste ano que o fenômeno ocorre.

A superlua acontece quando duas coisas distintas coincidem: a Lua atinge seu estágio mais iluminado (a famosa Lua cheia) aproximadamente ao mesmo tempo em que chega ao ponto mais próximo da Terra em sua trajetória ligeiramente oval em torno de nosso planeta.

Essa aproximação é chamada de perigeu, e por isso o fenômeno é conhecido entre os astrônomos simplesmente como “Lua cheia no perigeu”. Eis que os astrólogos, sempre com aquele charme sedutor, deram a ela o nome popular que hoje está na boca do povo: superlua.

E o que ela tem de super? Bem, como está um pouco mais próxima de nós, ela aparece no céu proporcionalmente maior. Não é muita coisa. Entre uma Lua cheia no apogeu (cerca de 405 mil km de distância) e uma no perigeu (aproximadamente 360 mil km de distância), o aumento de tamanho é de 14% (com aumento de brilho de 30%).

Ainda assim, é uma coisa bonita de se ver. Sem saber de nada, você poderia olhar e simplesmente notar como a Lua está de algum modo um pouco diferente, mais formosa que o usual. Sabendo do que se trata, adiciona-se uma nova camada ao prazer da observação.

###PISTAS DE UM ENIGMA
Fato: a superlua jamais aconteceria se a órbita lunar fosse um círculo perfeito — como a humanidade imaginou durante milênios, erradamente. Desde os gregos antigos, cultivou-se a noção de que a circunferência era a mais bela e perfeita das formas geométricas. E que outra forma poderia ter a perfeição do mundo celeste? Até o século 17, tanto os planetas quanto a Lua eram instados, na teoria, a obedecer a trajetórias circulares. Isso valia para o modelo cósmico geocêntrico de Aristóteles e Ptolomeu, que presumia a Terra no centro do Universo, e permaneceu intocado por Nicolau Copérnico, no século 16, ao deslocar o Sol para o centro do sistema e apresentar a Terra como apenas mais um planeta.

Naturalmente, a despeito de nossas convicções ancestrais, tanto os planetas quanto a Lua se recusaram terminantemente a obedecer ao nosso senso estético. Resultado: era impossível prever com exatidão as posições celestes futuras desses astros usando os modelos astronômicos antigos. No caso da Lua em particular, era uma pequena discrepância, quase imperceptível diante do tamanho significativo que nosso satélite natural apresenta no céu. Mas para os planetas — sobretudo Marte — a margem de erro era grande demais para ser ignorada.

O problema só foi resolvido em 1609, quando um audaz astrônomo alemão, Johannes Kepler, teve a coragem para fazer o óbvio: deixar a realidade da observação guiar a teoria. Para isso, ele contou com os mais precisos registros no céu feitos na era da astronomia a olho nu (ainda não havia telescópios!), produzidos sob a batuta de seu mentor, o dinamarquês Tycho Brahe.

Ao analisar a trajetória de Marte, Kepler finalmente percebeu: as órbitas dos planetas são elípticas, e o Sol fica num dos focos. Eis que, com esse arranjo, o astrônomo produziu as correções necessárias ao sistema copernicano e enfim concluiu a decifração dos movimentos celestes, um desafio que se impunha à humanidade desde seus primórdios.

A contribuição do alemão se faz sentir ainda hoje. As leis de movimento que ele descobriu com base nos dados de Tycho Brahe são aplicadas atualmente pelos cientistas que estudam planetas em torno de outras estrelas — e não por acaso o mais bem-sucedido satélite caçador de mundos fora do Sistema Solar recebeu da Nasa o nome de Kepler. Justa homenagem.

Eis, meu caro leitor, que a superlua pode ser mais que um simples momento encantador — ainda que não seja raro, acontecendo todos os anos — na observação celeste. Ela é um lembrete sutil de como a humanidade persiste na busca pelo conhecimento, a despeito de nossos próprios preconceitos sobre como o Universo deveria ser. E, eventualmente, triunfa. Aproveite.

###COMO OBSERVAR
Não tem segredo. Basta procurar a Lua no céu, e a vista desarmada basta para vê-la de forma esplendorosa. (Binóculos, claro, agregam valor ao camarote.) Recomenda-se que se faça isso entre as 18h e as 20h, quando ela está mais baixa no céu, na direção do leste. Isso, apenas por uma questão de deleite: ao ser observada em proximidade a objetos de tamanho conhecido no horizonte, ela parece maior — por uma ilusão de óptica ainda não totalmente compreendida, que se soma ao efeito de refração atmosférica para aumentar seu tamanho aparente. Caso lhe falte o horizonte leste, não se preocupe. Ela atravessará o céu durante a madrugada e só se esconderá no oeste por volta das 6h da manhã.

Para os aficcionados por horários e datas exatos, a Lua atingiu o perigeu exatamente aos 30 minutos desta segunda-feira (8), chegando a uma distância mínima de 358.387 km da Terra (na média, ela fica a cerca de 384 mil km). E o momento exato da Lua cheia acontece às 22h39 desta segunda.

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