Menu
Busca domingo, 17 de janeiro de 2021
(67) 99659-5905
ADAUTO DE OLIVEIRA SOUZA

“O trânsito tem priorizado veículos e não pessoas”, diz doutor em planejamento urbano

03 março 2016 - 06h37

“O que há de equivocado hoje que traz problemas para a cidade [de Dourados], é a prioridade no transporte motorizado, ou seja, todas as ações, em geral, ações sem planejamento, de curto prazo, priorizando o veículo e não as pessoas”, afirma o professor da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e doutor em planejamento urbano regional, Adauto de Oliveira Souza, sobre o trânsito da segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul.

Entrevistado da Semana do Dourados News, o professor analisa toda a questão que envolve os principais problemas relacionados ao trânsito da cidade. Para ele, este foi historicamente “muito mal planejado ou até efetivamente sofrido pela ausência de planejamento. As soluções são muito aleatórias e momentâneas”, além de não terem qualquer embasamento científico.

Souza acredita que não é preciso tirar o veículo motorizado das ruas, mas é preciso implantar medidas na área do transporte que priorizem as pessoas e facilitem o acesso à cidade de outras formas. “Em geral, a concepção é assim: eu compro um veículo e parece que eu estou comprando um direito a mais velocidade, e não é essa a questão. Teria que ter acesso de outras formas, com segurança, com inclusão, com sustentabilidade ambiental”, explica ele.

Entre estas soluções está buscar um planejamento que contemple toda a cidade, com melhor acesso por pedestres, transporte coletivo de qualidade e ciclovias, por exemplo. “É absurdo uma cidade como Dourados, plana, arborizada, que facilita o transporte por ciclovias, não ter um plano cicloviário para a cidade”, relata. Ele lembra que é possível fazer ciclovia na área central e também nos bairros mais populosos, porém é necessário que isso seja feito com estudo e planejamento adequados.

O professor ainda é contra a retirada de canteiros para transformá-los em estacionamento nas avenidas como a Weimar Torres e Joaquim Teixeira Alves, que hoje estão “sufocadas” com a quantidade de veículos. Para ele, é necessário olhar para outras cidades do país, ver o que está funcionando e adaptar para que soluções sejam implantadas aqui.

Ele ainda comentou a quantidade de loteamentos que sendo construídos e as implicações da cidade estar crescendo além das rodovias ao entorno. O traçado do Anel Viário, por exemplo, ele considera um “equívoco” e um problema para a cidade, pois já está dentro da área urbana e dessa forma, não cumpre sua função.

Souza é douradense, tem 53 anos de idade, graduação em Estudos Sociais (1983) e Geografia (1986), ambos cursados na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). É mestre pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) – Presidente Prudente, com a dissertação “Distrito Industrial de Dourados: intenções, resultados e perspectivas”. Ele é também doutor em Geografia Humana/Planejamento urbano-regional na USP (Universidade de São Paulo), com doutorado concluído em 2003.

Professor e orientador na graduação e pós-graduação em Geografia da UFGD (mestrado e doutorado). Atualmente vinculado ao Laplan/UFGD (Laboratório de Planejamento Regional) tem orientando diversos trabalhos (dissertações e teses) na área de políticas públicas; planejamento urbano e regional; incluindo análises sobre o processo de concessão da rodovia BR 163, em Mato Grosso do Sul; e também sobre o transporte coletivo e mobilidade urbana em Dourados.

Dourados News – Como avalia o trânsito em Dourados?

Adauto de Oliveira Souza - Historicamente o trânsito de Dourados tem sido muito mal planejado ou até efetivamente sofrido pela ausência de planejamento. As soluções são muito aleatórias e momentâneas. Por exemplo, se há o atropelamento de alguém num bairro, os moradores se reúnem, se revoltam, exigem alguma providência. O poder público sem nenhum estudo, sem nenhum embasamento científico, vai lá e faz um quebra molas de repente e, normalmente, fora dos padrões técnicos também. Então um dos principais problemas é efetivamente esse: a ausência de um planejamento do transporte, pensando no transporte como um componente importante do processo de urbanização, pensar a cidade como um todo e o transporte, a circulação das pessoas, inserido nesse processo.

D.N. – A gente vê, até mesmo por fotografias mais antigas, que Dourados teve um planejamento inicial para ser toda, digamos assim, “quadradinha”. Essa forma como foi pensada na época, era adequada?

A.O.S. - Ela foi pensada adequadamente, eu diria, no ponto de vista do planejamento urbano. Principalmente nos anos 70, ela atendia naquele momento. O problema é que a cidade, pela condição de polo de desenvolvimento regional que ela assume a partir da segunda metade dos anos 70, do segundo PND, que é o Plano Nacional do Desenvolvimento, Dourados passa a ser a cidade polo do desenvolvimento do sul do então Mato Grosso, ou seja, a cidade que vai puxar todo o desenvolvimento do sul do Estado. Passa a ser prioridade para receber os investimentos e, a partir daí, ela vai então polarizar todo o sul do Estado. Evidentemente que isso traz implicações no espaço urbano. Essa condição de polo, ela foi consolidada e hoje nós recebemos, certamente, diariamente um conjunto considerável de pessoas, de veículos, principalmente, dos municípios vizinhos e isso acaba trazendo um conjunto maior de problemas para o transporte, que para o porte da cidade é muito complicado.

D.N. – A cidade então, não comporta mais o estilo de planejamento pensado inicialmente? O que aconteceu desse período inicial para hoje?

A.O.S. - O que há de equivocado hoje que traz problemas para a cidade, é a prioridade no transporte motorizado, ou seja, todas as ações, em geral, ações sem planejamento, de curto prazo, priorizando o veículo e não as pessoas. Eu creio que o principal ponto de inflexão, de mudança nesse processo, é priorizar as pessoas, para que as pessoas tenham acesso, não só à mobilidade, mas o acesso à cidade. Por exemplo, o transporte de pedestre é fundamental para uma cidade. Nós aqui, por exemplo, se você pensar no ponto de vista da acessibilidade, é um problema seríssimo da nossa cidade. As lojas, em geral, colocam cadeiras, exposição de produtos na calçada, que praticamente impossibilitam o tráfego de pessoas ali. A questão das ciclovias, por exemplo, é absurdo uma cidade como Dourados, plana, arborizada, que facilita o transporte por ciclovias, não ter um plano cicloviário para a cidade. Então esses aspectos de priorizar o carro, o transporte motorizado, é que está o problema.

D.N – Quais as alternativas poderiam ser adotadas para reduzir o uso do transporte motorizado e garantir mais fluidez do trânsito?

A.O.S. - Precisa um planejamento de médio e longo prazo, priorizando as pessoas em detrimento ao veículo. Não quer dizer que vai tirar o veículo motorizado, mas priorizar as pessoas. E aí nós precisamos em Dourados, é urgente e parece que está sendo feito, um Plano de Mobilidade Urbana que contemple esses princípios, que já estão estabelecidos na Política Nacional de Mobilidade Urbana. Então, existem alguns projetos de lei, por exemplo, em Brasília, que caminham nesse sentido. Um deles de transformar o transporte como um direito do cidadão e não como uma simples mercadoria; como um direito social, ou seja, priorizar o transporte coletivo. Outro que haja uma determinação de maior transparência no estabelecimento das tarifas do transporte público. E o terceiro que haja um incentivo específico para o transporte público, para as empresas, para adquirir ônibus, para um conjunto de coisas para priorizar o transporte público. Que esse transporte público aliado à ciclovia, aliado à questão da acessibilidade aos pedestres, possa então confluir no sentido de se ter uma cidade mais humana. Porque, em geral, a concepção é assim: eu compro um veículo e parece que eu estou comprando um direito a mais velocidade, e não é essa a questão. Teria que ter acesso de outras formas, com segurança, com inclusão, com sustentabilidade ambiental. Porque, por exemplo, esse transporte motorizado, normalmente, traz uma série de implicações econômicas, materiais e ambientais também.

D.N. - O senhor mencionou as ciclovias e esse assunto veio mais à tona recentemente com a morte uma ciclista atropelada por um caminhão na avenida Marcelino Pires - [relembre aqui]( http://www.douradosnews.com.br/dourados/ciclista-morta-em-acidente-com-caminhao-cacamba-na-marcelino-e-identificada). Muitos ciclistas trafegam pela Marcelino, que é uma rua bastante movimentada. É possível implantar ciclofaixa ali para atender aquela região central da cidade? Ou teria que desviar os ciclistas dali?

A.O.S. - Na verdade precisa fazer um levantamento do percurso dessas pessoas, da quantidade. Que é possível, sempre é e quando há uma mudança nesse sentido, sempre há uma reação, por exemplo, dos motoristas, uma reação contrária. Isso a gente percebe no país como um todo e em outros países também, isso é normal. Porque assim, o trânsito é uma disputa permanente de espaço. Então se há mais espaço para o ciclista e para o pedestre, normalmente em detrimento, vai haver menos para o carro. A não ser que haja, por exemplo, demolição de prédio histórico, aí as pessoas em geral são contra, eu particularmente sou contra demolir algum prédio, alguma coisa, para fazer estrada. Agora, é possível sim, as experiências no Brasil tem demostrado alguns lugares com avenidas muito mais estreitas que Dourados. Dourados tem essa facilidade, o fato de ter sido planejado no passado, nós temos avenidas bastante largas, que permitem sim implantar, não só na área central, mas nos bairros também, que é onde você tem alguns bairros de trabalhadores, com maior adensamento populacional, que aí necessita sim de transporte cicloviário. O grande problema da ciclovia não é nem a implantação, é o cruzamento delas. Nós temos espaço para fazer a implantação, [o problema] são os cruzamentos delas. Normalmente os acidentes, os atropelamentos, não ocorrem na ciclovia, mas nos cruzamentos. Precisa planejar por onde vai passar, conscientizar o motorista e conscientizar o próprio ciclista, porque da mesma forma que existe o mau motorista, existe o mau ciclista também. É uma questão também de comportamento e de respeitar o outro.

D.N. – A avenida Marcelino Pires passou por algumas mudanças nos últimos anos, entre estas a delimitação mais clara das faixas, implantação de mais semáforos, ente outros. Essas mudanças funcionam se considerado o grande fluxo de veículos que a avenida possui?

A.O.S. - Normalmente funcionam em curto prazo e funcionam no sentido de dar mais velocidade para o carro. Para o pedestre já é diferente, para o ciclista é completamente diferente. Porque, por exemplo, onde tinha as rotatórias, instala um semáforo, lógico que dá mais fluidez. Instala a onda verde, dá mais fluidez. Mas, por outro lado, aumenta mais a velocidade e aumentando a velocidade, aumenta a ameaça. Hoje na Marcelino você pode andar a 50 km/h, isso certamente vai ter impacto em algum tipo de acidente. Então, essas mudanças, em geral, elas produzem algum resultado de curto prazo, em seguida já passa a ter problemas.

D.N. - Já as avenidas Weimar Torres e a Joaquim Teixeira Alves vivem problemas diferentes. Elas são vias mais estreitas e, em horários de pico, parecem ter um volume até um pouco mais “sufocante” de veículos. Qual o problema dessas ruas e o que precisa ser feito nessas?

A.O.S. - Uma coisa que eu já sou contra é, por exemplo, tirar os canteiros centrais para arrumar mais espaço para carro. Isso eu sou contra, porque isso interfere no próprio sistema de escoamento de águas pluviais da cidade, inundações que tem. Dourados até pouco tempo não tinha inundações, hoje com o que se chama de urbanização de algumas áreas, de alguns canteiros da cidade que se tornaram estacionamento, tem causado alagamentos até no centro da cidade mesmo, na Weimar é um exemplo. Então, eu penso que a gente tem que olhar para fora, para outras cidades, para ver o que é que está sendo feito, o que pode ser feito aqui e que está dando certo lá. A princípio eu não sou favorável ao pedágio urbano, mas tem cidades que tem feito isso. Vai ao centro? Tem que pagar o pedágio e esse recurso é passado para melhorias no transporte coletivo. Ele já é direcionado. Então, é uma forma de tirar esse trânsito dali. Porque concretamente com isenção de impostos e com facilidade para aquisição de automóveis, qualquer mudança que você fizer, continuar priorizando o auto, vai sempre gerar o problema, vai sempre congestionar, vai sempre gerar lentidão e gerar, enfim, insatisfação do usuário.

D.N. – Aquelas ruas mais estreitas da região central que estão em volta das principais avenidas (Weimar Torres, Marcelino Pires e Joaquim Teixeira Alves), esbarram nessa mesma questão?

A.O.S. - Perfeitamente porque ali nessa área mais central da cidade, era uma área de moradores e foi toda “refuncionalizada”. Ela é uma área toda de prestação de serviços hoje. Mesmo aqui próximo ao Dourados News, com o hospital e outros órgãos de prestação de serviços, vai congestionando. E lá no centro muito mais. Você tem um ou outro prédio, mas no geral é tudo prestação de serviços. E as pessoas vêm somente no transporte individualizado, motorizado, não tem jeito, congestiona mesmo.

D.N. - É preciso pensar então esse “centrão” como um todo?

A.O.S. - Na verdade, pensar na cidade como um todo, no processo de urbanização. Porque o próprio transporte coletivo, a qualidade dele, se insere ali também. Então quando se instala um conjunto habitacional afastado, lá na periferia, isso está interferindo no processo de urbanização da cidade, na forma como as pessoas se deslocam até lá, o ônibus que tem que chegar, o trabalhador que tem que sair para trabalhar, um posto de saúde. Pensar a cidade como um todo.

D.N – Dourados passou recentemente, inclusive, pela ampliação do perímetro urbano e com isso vem surgindo loteamentos em áreas que antes estavam praticamente inabitadas ou tinham apenas propriedades rurais. É preciso pensar o trânsito para essas áreas já agora? O que pode acarretar uma falta de planejamento para isso?

A.O.S - Normalmente a implantação desses bairros já teria que vir com esses equipamentos urbanos pensados, planejados. Escola, centro de educação infantil, postos de saúde, transporte, iluminação. A gente percebe que às vezes esses loteamentos, inclusive alguns loteamentos chamados loteamentos sociais, do próprio governo, nem iluminação pública tem. Então é um equívoco, tem que planejar todos esses aspectos. No Brasil, em geral, as cidades tem 40%, por exemplo, de espaços vazios, chamados de especulação imobiliária. Então tem que combater essas especulações. Você vê que está tudo, de certa maneira, interligado à política de uma forma geral. Porque levar um bairro lá próximo do Distrito Industrial, se tem áreas aqui? Se têm espaços “vazios”? Teria que preencher esses espaços, adensar mais o urbano para não ter esse alargamento do perímetro urbano. Você alargou o perímetro urbano, você vai criar demanda de todo o tipo, em todas as áreas.

D.N. – As rodovias próximas à cidade, como a Perimetral Norte, a BR-163 e a própria avenida Guaicurus, estão ficando com suas margens cada vez mais populosas. Em alguns pontos já tem muita gente que atravessam as estradas para ir ao trabalho todos os dias e em outros pontos os loteamentos vêm sendo implantados. O que isso pode implicar no futuro?

A.O.S. - Os grandes equipamentos em geral e aí, por exemplo, no caso de Dourados, um estádio de futebol, um Distrito Industrial ou um Anel Viário, tem essa capacidade de indução da expansão territorial da cidade, de puxar a cidade para lá. Então, por exemplo, o Distrito Industrial quando veio para Dourados, foi inaugurado no início dos anos 80, o Jaime Lerner esteve aqui fazendo um planejamento. E por aquele planejamento inicial, a cidade não ia passar da BR, o crescimento não passava. A cidade hoje já está chegando lá no Distrito Industrial. O [bairro Jardim] Guaicurus, Esplanada, Dioclécio [Artuzi] I,II e II; o Harrison [de Figueiredo] I,II e III. Deve ter, mais ou menos, com tudo ocupado, quase 10 mil pessoas naquela região. Então, eles atraem. O Anel Viário, a mesma coisa. Eu penso que foi um grande erro o traçado desse anel viário aqui para Dourados, porque qual que é a função principal de um Anel Viário? Tirar o trânsito pesado da cidade, evitar problemas de atropelamentos, acidentes, vidas, danos materiais. O Anel Viário ali já está dentro da cidade praticamente, principalmente na porção oeste aqui, o Novo Parque Alvorada, o Santa Fé, já estão do lado e há notícias de loteamentos já prontos aguardando “timing” certo para serem lançados. Então, aquela função principal de tirar o trânsito pesado da cidade, ela já se perdeu porque já está dentro da cidade. Então, houve um erro de planejamento ali. Lógico que isso tem uma série de outras implicações, mas é um problema seríssimo para Dourados porque ele acabou de ser feito e ele já está, principalmente na porção oeste, defasado. Então, como é que você pensa no ponto de vista do planejamento para isso?

D.N – Esses desvios rodoviários existentes hoje, já não estão mais suficientes para desviar o tráfego pesado de dentro da cidade?

A.O.S. - De certa maneira, eles contemplam todos os quadrantes da cidade, sul, norte, leste e oeste. Mas, em função do aumento do perímetro urbano, eles já estão praticamente dentro da cidade. Então se você pensar daqui uma década o que é que vai ser, eles já estão completamente dentro da cidade, já estão defasados.

D.N. – O que precisaria ser pensado, quais medidas adotadas, para evitar acidentes, tragédias, nesses pontos às margens das que estão visivelmente sendo mais urbanizados?

A.O.S. - Algumas ações podem ser, assim, paliativos, como construir passarelas nesses trechos porque são rodovias, de difícil locomoção. Mas, não resolve. Na verdade, o perímetro urbano não poderia estar ali, porque ele perde o sentido de ser um Anel Viário e desviar o trânsito da cidade. Tem que ter os Anéis, mas tem que ter uma legislação forte também no sentido de proibir [caminhões de acessar o centro]. Porque existem leis que estabelecem os horários para esses caminhões entrarem na cidade, para descarga, enfim, então tem que ter a fiscalização. O caso do Anel Viário, esse é um problema para acidade.

D.N – Como o senhor mencionou, existe hoje a medida de limitação de horário para que os caminhões entrem em Dourados. Esse tipo de medida funciona na prática?

A.O.S - A medida funciona porque isso é mais ou menos padrão em todo o país. Se o trânsito já é complicado, o caminhão vai exigir mais espaço para a manobra, espaço para estacionamento. Às vezes até pode ficar em fila dupla, porque ele chega até uma loja no centro da cidade para descarregar. A legislação é necessária, mas ela precisa ser respeitada. Até o processo de fazer uma manobra exige muito mais espaço, às vezes de dois ou três carros.

D.N. – Além da implantação de novos loteamentos de casas, Dourados também passa por um processo de verticalização. Vemos desde prédios menores na área central, quanto os conjuntos de apartamentos surgindo em bairros antes predominantemente cheios de casas. Qual impacto isso tem no tráfego desses locais?

A.O.S. - Mais aglomeração de pessoas, mais aglomeração de carros, mais congestionamentos, mais imprudência. Uma disputa intensa por áreas para estacionamento. Porque hoje com as facilidades de financiamento principalmente, e o fato da cidade ser uma cidade universitária, houve uma política muito forte de construção desses “mini prédios”, que são prédios de até três andares normalmente, porque aí não se exige obrigatoriamente o elevador. Então, normalmente o empreendedor imobiliário constrói esses prédios para alugar para estudantes, para as pessoas que buscam a cidade. E aí, as vezes, constrói uma vaga na garagem para cada apartamento. Aí vem famílias, de casal com dois filhos e, por exemplo, mais três carros aí. Então onde ficam os outros carros? Além dos conflitos que tem do próprio condomínio de usar a vaga do outro às vezes, [os carros “extras”] vão para a cidade. Aí aumenta roubo, aumenta tudo, as implicações sociais, ambientais. Tem que pensar no estacionamento. Existe lei pra isso, mas se constrói o prédio, com uma vaga por garagem, é problema. Você pode ver perto os prédios ao redor à noite, como ficam? Sempre cheios. Então mudou muito. Eu ia sempre para a universidade na região do Hospital Santa Rita nos anos 80. Ali eram chácaras, com animais, chácaras literalmente, uma área quase rural. Hoje aquilo ali se transformou em consultório médico, prestação de serviços e restaurantes. Durante o dia, você vai da Marcelino até pra lá do Ceud [Unidade 1 da UFGD], da Rádio Grande FM, você não acha uma vaga pra estacionar.

D.N. – Diante de tudo isso que conversamos, o que o senhor acha que precisa ser pensado prioritariamente e urgente para a gente conseguir enxergar melhor e solucionar essas questões do trânsito de Dourados?

A.O.S - Acho que precisa de duas coisas. Vontade política dos governantes, do político, não cito A ou B, é dos políticos em geral. Essa vontade política implica em liderança e institucionalidade. O que é institucionalidade? Nós temos, por exemplo, uma Agência Municipal de Transporte e Trânsito [Agetran] em Dourados e essa Agência têm que pensar a cidade a médio e longo prazo, pensar com autonomia, com conhecimento técnico científico e com recursos. Independente do prefeito, se ele é de partido A, partido B ou partido C, a Agência tem que ter um corpo qualificado de técnicos, de agentes do trânsito, de fiscalização, de conscientização para punir os infratores. Mas, também um corpo para pensar políticas para a cidade, independente do governo. Você vê, Dourados é uma cidade polo desde os anos 70, agora em 2011 que foi criada essa Agência, olha quanto tempo nós perdemos. E, ainda assim, essa agência hoje, não tem um corpo técnico qualificado suficiente para pensar a cidade. Ela tem que pensar a cidade, independente do prefeito. Pensar a cidade e propor soluções para que essas ações vão se antecipando aos problemas e que tenha recursos para isso. Essa é uma questão a se pensar. E o outro ponto é o próprio cidadão também. Não só o político, o cidadão também, ele entender esses desafios e a partir desse processo, ele não buscar só o conforto individual, de comprar o carro, de comprar a moto. Isso exige uma mudança de concepção em relação à cidade, de priorizar as pessoas, e não o veículo.

Deixe seu Comentário

Leia Também

TERENOS
Homem é encontrado morto em varanda de residência
MS terá "pacote" de obras de R$ 376 milhões para pavimentação e restauração de estradas
INVESTIMENTO
MS terá "pacote" de obras de R$ 376 milhões para pavimentação e restauração de estradas
DEFINIÇÃO
Inep abre novo prazo para candidatos com Covid pedirem reaplicação do Enem 2020
MINISTRO DA SAÚDE
Pazuello diz que começa a distribuir vacinas às 7h de segunda-feira para todos os estados
CORONAVÍRUS
Distribuição de vacina será acompanhada pelas forças de segurança federais e estadual
MEDIDA
Proibição de corte no fornecimento de água segue até o fim de janeiro na capital
SEU BOLSO
Órgãos de proteção alertam consumidor sobre compra de material escolar
DOURADOS
Morto por descarga elétrica pode ter tentado consertar portão
PANDEMIA
Permanece alta taxa de ocupação de leitos UTI Covid-19 em Dourados
ACIDENTE
Homem morre após sofrer descarga elétrica em Dourados

Mais Lidas

DOURADOS 
Jovem cai de moto e pede ajuda após levar facada
PANDEMIA 
Dourados tem oito mortes por Covid em 24 horas  
OPERAÇÃO
Polícia fecha "boca de fumo" comandada por família no Canaã IV
DOURADOS 
Prefeitura anula 75 das exonerações anunciadas no meio da semana