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Trabalhadores gaúchos são alfabetizados em dois anos

13 setembro 2003 - 16h38

“José veio do interior. Não arrumava trabalho na cidade grande porque era analfabeto e não conseguia preencher uma ficha. Quando finalmente conseguiu um emprego, mesmo ganhando vale transporte, ia a pé para casa, por não saber ler o nome do bairro no ônibus. Ele sentia inveja dos colegas que liam jornal.” Essa é uma das histórias contadas na obra “Um Grupo Criativo Construindo seu Primeiro Livro”. O livro foi escrito por operários da construção civil em Porto Alegre, alfabetizados na empresa onde trabalham. Os ex-analfabetos que viraram autores são 13 trabalhadores de 31 a 57 anos. Carpinteiros, pedreiros, azulejistas, guincheiros, contramestres, mestres-de-obras, pastilheiros e marceneiros agora se tornaram também escritores. Eles foram alfabetizados pela empresa Ediba, por meio de convênio com o Serviço Social da Indústria (Sesi) do Rio Grande do Sul. A entidade também organizou o livro, lançado com sessão de autógrafos na última sexta-feira (12). A obra, de 28 páginas, traz 13 histórias e crônicas do cotidiano. A experiência, incluída agora no Programa Brasil Alfabetizado, lançado esta semana pelo governo federal, mostra como é possível vencer o desafio do analfabetismo. Os operários da Ediba começaram seu aprendizado em março de 2002. Estudaram matemática, português, história, geografia e ciências, de segunda a quarta-feira, das18h às 20h30, em uma sala da empresa. Hoje, a maioria já concluiu a 4ª série do ensino fundamental. Treze deles aceitaram o desafio da publicação, proposto pela coordenadora do Sesi/Educação de Porto Alegre, Letícia Bastos Nunes. Ela explica que o objetivo era ajudar os alunos a vencer o medo de errar, um dos problemas do adulto em processo de alfabetização. “Da decisão ao texto final, foram três meses de trabalho. A elevação da auto-estima dos alunos foi a principal conquista”. Histórias de vidaEntre os 13 textos publicados, o do guincheiro Jolcei Machado, 39 anos, conta a história da vida do autor. Da infância em Rio Pardo, no interior do estado, à morte do pai, que, ocorrida quando ele só tinha nove anos, fez com que interrompesse os estudos para ajudar a família. Jolcei levanta antes das cinco horas. Leva uma hora para chegar à empresa, onde trabalha até as seis horas da tarde. Ele diz que sua esposa, Maria Deusa Ramos Machado, não reclama por ele chegar em casa às nove da noite, nas segundas, terças e quartas, por causa do estudo. “Ela me incentivou muito”, diz o operário. “Hoje eu sei muito mais sobre a vida”, completa, orgulhoso. Na crônica “A vida é assim”, o carpinteiro Antônio Carlos dos Santos, 39 anos, fala em datas comemorativas, como o Dia da Criança e o Dia das Mães. Admite que o principal “desconforto” dos pais é não ter o dinheiro para dar um presente aos filhos. Carlos Fernandes, 52 anos, pedreiro, publica “A realidade do Brasil”. Ele descreve as dificuldades que tem um operário para educar os filhos, fala sobre a fome e o trabalho escravo e lembra que “a maioria das famílias não tem condições de educar um filho, mas tem sete deles para criar”. A redação de Manoel dos Santos, 57 anos, marceneiro, chama-se “Brasil, a terra do medo” e aborda os contrastes sociais entre os que não têm o que comer e os que, tendo, reclamam “que o arroz está duro, que o café está frio”. O jardineiro Marcos Antônio da Silva Machado, de 36 anos, conta sua história profissional na Ediba, onde começou como servente, foi carpinteiro e aprendeu o ofício de jardineiro. “Quando comecei a estudar eu estava na primeira etapa e agora já fui promovido, já estou escrevendo e lendo muitas palavras e aprendendo a fazer frases. Devagar eu chego lá”, explica no livro. Ele trabalha das seis da manhã às seis da tarde e demora mais de meia hora entre o serviço e sua casa. “Eu parei de estudar desde os 13 anos e hoje sei que valeu a pena voltar”, afirma Marcos, orgulhoso do sucesso alcançado. E como termina a história de José, aquele personagem do início da reportagem? “Hoje em dia, sabendo ler e escrever, José percebe o quanto é triste uma pessoa olhar um jornal e não saber o que está escrito. E, se conhece alguém que não é alfabetizado, incentiva-o a estudar, porque o estudo é muito importante na vida de um ser humano”, conclui o carpinteiro Ari Hipler, no conto “Alfabetização”.Auto-estima “Todos os funcionários que freqüentam ou passaram pela Escola são unânimes ao afirmar seu orgulho em assinar o próprio nome e preencher um formulário”, garante Elisa Medeiros, Gerente de Relações Humanas da Ediba SA. “Coisas simples, como identificar o ônibus que devem pegar, ler um jornal ou deixar um bilhete para o filho, impossíveis antes da escola, passaram a fazer parte de sua realidade”. Segundo ela, esse é o motivo por que, ao contar sua história, os alunos dividem a vida entre antes e depois da escola. Eles passaram a se sentir integrados na sociedade. Sua auto-estima e autoconfiança aumentaram significativamente após a alfabetização. Hoje, eles reconhecem a importância de aprender, não importa a idade, bastando ter vontade e perseverança para voltar a estudar. Elisa explica que a idéia de criar uma escola de 1ª a 4ª série surgiu no ano de 2001, em função da necessidade de preparar os colaboradores para a implantação do Programa de Qualidade Total e da vontade de desenvolver uma ação social, proporcionando melhor qualidade de vida, independência e cidadania aos colaboradores que não eram alfabetizados. Para viabilizar a idéia, a Ediba fez uma parceria com o Sesi para implantar um sistema de aprendizado reconhecido pelo Ministério da Educação. A entidade fornece professor e a metodologia de ensino. A empresa adaptou uma sala em sua sede exclusivamente para este fim. A escola é totalmente subsidiada pela empresa, que faz o contrato com o Sesi, serve o lanche aos alunos (bolo ou sanduíche com café e refrigerante antes de iniciar a aula), dá o transporte e o material didático, num investimento mensal em torno de R$ 2.000. A Escola Ediba iniciou em julho de 2001, com 29 alunos. Em maio de 2002, realizou a primeira formatura de quinze alunos, que hoje auxiliam os iniciantes. Atualmente, vinte alunos estudam na Escola, todos funcionários das obras. Desde o início da escola, 40 funcionários já participaram e foram alfabetizados. O Sesi de Porto Alegre tem hoje sete turmas de educação de jovens e adultos, quatro em parceria com empresas e três formadas por pessoas da comunidade, num total de 130 alunos. Segundo Leticia Bastos Nunes, a proposta do livro levou entusiasmo aos alunos. Eles buscaram inspiração para suas histórias na leitura das crônicas do escritor Antônio Proença Filho, estudadas em sala de aula. “Para os alunos foi uma motivação muito importante. Eles se interessaram pelos contos, e já combinamos que o escritor estará presente no dia do lançamento do livro”. A produção, edição e montagem foi feita pelo Sesi. Os próprios alunos fizeram a ilustração da capa do livro, que será distribuído gratuitamente na festa de 25 anos da Ediba entre alunos e funcionários da empresa. A obra também ganhará lugar nas estantes da Biblioteca do Sesi.

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