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Sobre malandros e manés

25 janeiro 2010 - 10h54

“Malandro é o cara / Que sabe das coisas / Malandro é aquele / Que sabe o que quer / Malandro é o cara / Que tá com dinheiro / E não se compara / Com um Zé Mané / Malandro de fato / É um cara maneiro / Que não se amarra / Em uma só mulher...”
(Bezerra da Silva e Neguinho da Beija-Flor)
O trecho transcrito aí acima é parte de um sucesso bastante popular, escrito e interpretado por duas das mais ilustres figuras do samba no Brasil: Bezerra da Silva e Neguinho da Beija-flor. Não por acaso, faço questão de começar o meu artigo de hoje com essa citação. Ao fazer críticas descabidas em uma solenidade pública, o prefeito recorreu à expressão “mané”, usando-a de forma preconceituosa, para desmerecer o trabalho dos outros.
Mais do que ficar com raiva ou perder a linha, como seria comum num caso desses, passei a refletir sobre o significado desse xingamento. E a reflexão me levou a fazer algumas associações importantes. A primeira delas é que ao descontrolar-se e partir para a baixaria, o prefeito na verdade agrediu a população inteira de Dourados.
Dizem os analistas que aquilo que sai espontaneamente da nossa boca costuma ser revelador da nossa personalidade. Nesse caso, devo considerar que a revelação traz uma dose de frustração e muito de tristeza em relação ao autor da provocação. Frustração ao perceber que o comportamento de figuras que ocupam cargos públicos deveria prezar minimamente pelo simbolismo e pela liturgia do cargo.
Ao homem público que representa a instância máxima de uma comunidade espera-se sempre caber uma dose certa de equilíbrio. Porque aos olhos da população, o representante público funciona como um modelo a ser seguido. Quando o modelo carrega desvios de origem, a população se sente perdida, desprotegida.
A tristeza que completa o meu raciocínio se justifica na medida em que o líder da comunidade local se dedica a provocar com artimanhas e baixezas os seus adversários políticos, dá demonstrações claras de que perdeu a noção da medida e do bom senso.
Por irônico que seja, o “mané” a que ele se refere pode ser traduzido como o cidadão comum, que não goza de privilégios, que não tem recursos sobrando e que sua a camisa para dar sustento a sua mulher e seus filhos, com alguma dignidade.
O “mané” do simbolismo público é o cara que não tem luxo mas que não se cansa de batalhar para ter conforto e segurança. Do jeito dele, o “mané” vai fazendo o que sabe e como sabe para vencer as dificuldades que a vida lhe impõem. E que é persistente e não desiste nunca de lutar. Diferente do malandro. Então, eu me pergunto: Será que lá, nas alcovas do poder, cedendo à tentação da malandragem, ele não estaria se divertindo zombando de toda uma população que acreditou nele e que, na sua concepção, estaria agora fazendo papel de “mané”?
O malandro é o cara que gosta de levar vantagem em tudo, como se dizia numa antiga propaganda de cigarros, conhecida como “A Lei de Gerson”. O malandro é um ilusionista juramentado. Não tem pudor de prometer, mesmo sabendo que dificilmente vai conseguir cumprir a promessa. É um enganador contumaz.
Em pouco tempo de reflexão, cheguei à conclusão de que o xingamento que ele usou resume o quadro de dor que se vive em nossa cidade. Com malandros públicos tentando se aproveitar de quem, “mané”, acreditou em promessas falsas.
Partindo desse princípio, não é errado dizer que uma imensa multidão de douradenses esteja sendo tratada como “mané” e sentindo-se ludibriada por quem aproveitou o jogo fácil da eleição para prometer o paraíso e agora administra o caos. Sem conseguir cumprir o mínimo que prometeu em campanha - já que a cidade sofre na saúde, na educação, na falta de limpeza pública, na falta de infraestrutura urbana, no trânsito e com a desordem administrativa - a “malandragem” se segura e ri à toa, enquanto a “manezada” (no ponto de vista dos ‘malandros’) passa aperto sem ter pra quem reclamar.
Eu não posso admitir que a estreiteza de visão que caracteriza a atual administração continue a destratar e desrespeitar toda a cidade. Estamos no início de um novo século, em um país democrático e numa sociedade que preza pelos seus valores e pela sua dignidade. Em lugar de malandros e manés, defendo uma sociedade onde haja cidadãos. Na plenitude da acepção do termo. Como a nossa Dourados merece.


 
Geraldo Resende*
*Médico e deputado federal pelo PMDB-MS.


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