Em tempos de internet na palma da mão, qualquer rumor, boato, polêmica ou mobilização se espalha em questão de segundos. É bem diferente daquela época em que celular “malemal” mandava um SMS. Pois os douradenses conseguiram num período deste transformar a vinda de um shopping da cidade, numa polêmica daquelas, regadas à boataria que envolveu uma das mais conhecidas videntes do Brasil, presença de minas d’água no terreno e até medo de que o empreendimento acabasse com o comércio de rua. É essa história que o Dourados News conta nesta reportagem da série “Memória Viva”, divulgada em homenagem aos 80 anos de Dourados.
Hoje, ninguém duvida que o shopping vingou, não caiu (pelo menos até a presente data de publicação dessa reportagem), e nem quebrou o comércio de rua. Mas, nem sempre essas questões foram assim sacramentadas.
O shopping foi inaugurado em 2006, com toda pompa e circunstância. Mas, o debate sobre ele começou alguns anos antes, quando era ainda uma ideia a ser debatida. O prefeito na época era José Laerte Cecílio Tetila, 67, ou só Laerte Tetila. Ele conta que quando assumiu o cargo, veio da Associação Comercial e Empresarial uma solicitação, argumentando que a cidade necessitava de um empreendimento desse porte.
Dessa forma, ele conta que foi atrás de vários grupos de São Paulo e Curitiba (PR) para consultar aqueles que tinham interesse em construir um shopping em Dourados. Depois de muito debate, deu certo a conversa com o grupo Ingá Empreendimentos, que é de Maringá (PR). “Todos os anos nós trabalhamos em cima de planejamento, então tínhamos certeza absoluta de que o shopping ia atrair mais empresas e grandes redes e franquias para a cidade, e com isso muito público consumidor de toda a região”, ressaltou.
Nem todos os comerciantes concordavam com isso. Muitos estavam com medo de que a instalação do shopping atraísse tantos consumidores, que eles parariam de comprar no comércio de rua levando lojas a reduziram a receita ou iriem à falência. Muita gente procurou o então prefeito para apresentar a reivindicação. “Isso chegava, mas a gente tratava isso com absoluta normalidade, pois tinha certeza de que não aconteceria. Até porque oposição sempre vai existir. A ideia em si já estava consolidada”, relata o ex-prefeito.
O vereador de oposição ao gestor, Nelso Gabiatti, 58, também recebeu comerciantes com essas reivindicações em seu gabinete. No entanto, ele lembra que sua reivindicação na tribuna girava em torno de outra questão ainda mais polêmica do que essa.
MINAS D’ÁGUA
O então legislador defendia, levando consigo o apoio de ambientalistas, que naquele terreno em que está o shopping havia uma mina d’água e por isso, seria uma área de preservação ambiental. “Na época eu tirei fotos para mostrar, tinha até peixes lá”, contou. [Relembre aqui](http://www.douradosnews.com.br/arquivo/nelso-gabiatti-quer-interditar-obras-do-shopping-57632f591e18a49a8aa6055c80cf9d86).
Isso lhe rendeu o estigma de que estava contra a construção do empreendimento na cidade. “Muita gente ainda pensa isso, mas eu nunca fui contra a construção do shopping, não havia dúvida de que iria ser bom e gerar emprego. O que eu era contra é a construção do shopping onde ele está, porque é área de preservação”, relata o ex-vereador, que defende de forma ferrenha seu posicionamento até hoje.
Terreno do shopping ao final da década de 80, olhado a partir da Marcelino Pires, que é esta rua na imagem (Foto: CDR/FCH/UFGD)De acordo com o prefeito, não havia minas no local e a água que empossava no terreno era a da chuva. “Ali não tinha minas d’água, tanto que a licença ambiental foi emitida e tivemos o aval do Ministério Público. Se tivesse mesmo algo, jamais teria sido aprovado”, conta ele, dizendo que a água chegou a ser analisada na época. Imbróglios judiciais dessa e de outra natureza também deixaram a obra parada por um ano antes de ser finalizada, [relembre aqui]( http://www.douradosnews.com.br/arquivo/obra-do-shopping-deve-recomecar-sob-polemica-9273c4a46dc9831f0789aa3066e52d3d).
Gabiatti ainda conta que o empresário Adão Parizotto teria doado uma área para que o shopping fosse construído em outra localidade, mas que isso não foi considerado. Seriam 50 mil m² na saída para Ponta Porã, próximo à Campina Verde. “Ele podia muito bem ter sido feito numa área que não era de preservação”, conta ele, alegando que levou isso à tribuna.
Tetila conta que ficou sabendo da disponibilidade de doações de terrenos à época, mas que isso não chegou oficialmente até a prefeitura. Lembrou também que o grupo que topou fazer o shopping gostaria de fazer a construção se fosse onde está, já que se trata do coração da cidade.
Em meio aos debates e polêmicas, com o estigma de que era contra o shopping (algo esperado pela população), Gabiatti no fim votou a favor da destinação do terreno para que o empreendimento estivesse onde está. Foi uma decisão mais política, pois ficou sozinho quando seus colegas da oposição haviam decidido ficar a favor da edificação ali.
Empresário Nelso Gabiatti, ex-vereador (Foto: Fabiane Dorta)MÃE DINÁH
Pois além das minas d’água que até hoje dividem opiniões e do receio dos comerciantes das lojas de rua, a conversa mais pitoresca sobre o shopping que surgiu na época em que era debatido e construído foi certamente a previsão da famosa vidente brasileira Benedicta Finazza, popularmente conhecida como Mãe Dináh (aquela que previu a morte dos Mamonas Assassinas). Ela morreu no ano passado, [relembre aqui]( http://www.douradosnews.com.br/brasil-mundo/vidente-mae-dinah-morre-em-sao-paulo-aos-83-anos), mas ficou também para a história do boca a boca de Dourados.
Era difícil encontrar naquela época pessoa de qual idade fosse, que não tivesse ouvido que falar da previsão da Mãe Dináh para Dourados. Ela teria dito para todos tomarem cuidado, pois ela previu que o shopping da cidade iria cair. Houve até quem dissesse que um grupo de pessoas iria pagar para a vidente vir à cidade, contar sobre a previsão. Isso nunca aconteceu e nem há qualquer registro de que ela tenha dito tal coisa, mas o boato foi forte e longe.
EXPANSÃO
Acreditar que um dia o shopping vai cair ou não, isso vai da crença de cada um. Como até hoje não aconteceu, o que se pode destacar é que com o empreendimento, houve mesmo uma expansão da área comercial da cidade com direcionamento para a região da Cabeceira Alegre, onde está implantado.
Shopping está instalado na avenida Marcelino Pires (Foto: Divulgação)“Nós tínhamos uma realidade de mil portas fechadas no comércio naquela época, então o empreendimento foi um divisor de águas para a cidade. Trouxe emprego e contribuiu para Dourados se consolidar como um polo de desenvolvimento regional, trazendo mais pessoas de toda a região para consumir aqui, além de ser um fomento ainda para o lazer e a cultura”, relata Tetila. Ele ainda argumenta que o shopping gerou milhares de empregos, atraiu mais lojas de grandes redes para a cidade e até mais movimentação na cidade que gerou consumidores para o comércio de rua.
Com a polêmica ficando para a história e passados quase 10 anos da construção, para o douradense ficou até comum ter shopping na cidade. O local está sempre movimentado com gente para fazer compras, passeios em família, ver eventos culturais, comer e até fazer declaração de amor com pedido de casamento que noticiamos no Dourados News, [relembre aqui](http://www.douradosnews.com.br/dourados/pedido-de-casamento-para-shopping-e-mobiliza-40-pessoas).
Gabrielli Sante, 19, e Alexandre Tomaz Gaiofato,21, ficaram noivos no shopping (Foto: Humberto Lorensini)Deixe seu Comentário
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Ex-prefeito de Dourados, Laerte Tetila (Foto: Arquivo/Ademir Almeida)