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SEDE DE CULTURA

05 outubro 2006 - 13h22

A multidão se aglomerava na areia da praia... O menino circulava agilmente entre o povo, com sua geladeira de isopor: "- Olha a água geladinha! Mulher bonita não paga, mas também não leva!", erao seu canto de pregoeiro. Fazia calor e ele já pensava nos bons trocados que levaria para casa, no subúrbio. Era pouca coisa, mas indispensável para quem não tinha quase nada! Ele mal sabia o que iria acontecer ali, mas não importava! Em sua cabecinha, ainda ingênua, a praia e a escola eram dos poucos lugares onde não se sentia pobre. Eram seus refúgios e paraísos! Como não era muito alto, mal conseguia vislumbrar o palco. Ouvia alguns sons, desconhecidos e abafados pelo alarido do povo. Não parecia com nada que já tivesse ouvido, antes. Ninguém cantava e nem dava para dançar.  "Esse pessoal deve ser muito ruim, pois já começaram a tocar e ninguém está prestando atenção.", pensou. De repente, os sons pararam e a multidão ficou em silêncio... Parecia que alguém havia gritado: "Estátua!"; mas como ele não estava ali para brincar, continuou o seu pregão: "- Olha a água...". O olhar de desaprovação e vários dedos indicadores cruzados em lábios fechados o deixaram ressabiado... "Se eu calar a boca como é que eu vou vender?", falou, baixinho. Então, começaram a bater palmas... "Mas ninguém tocou nada!", estranhou, em pensamento. Ele entendia cada vez menos, mas como todos olhavam na direção do palco ele resolveu avançar até lá.  Uma das vantagens de ser criança é não ocupar muito espaço, mas no caso dele havia um agravante: a geladeira de isopor; mas sua mãe o havia ensinado a pedir licença, e, assim, ele foi abrindo sua "picada" por entre o povo, até que não havia mais ninguém à sua frente. Surpresa: Havia um monte de gente no palco, quase todos sentados, segurando instrumentos estranhos, mas muito bonitos. Na frente deles havia um homem, com "roupa de casamento"... O menino sorriu ao pensar: "Isso é jeito de vir para a praia? Esse cara deve ser de fora...".  O sujeito estava em cima de um caixote, parecido com a cama onde ele dormia, junto com um irmão; e, mal-educado, estava de costas para o público! Foi quando soaram os primeiros acordes da orquestra sinfônica... O concerto ao ar livre começara!  Ele nunca tinha ouvido nada parecido no rádio, televisão ou sonho! O homem com roupa de festa tinha uma varinha numa das mãos, que quando apontada numa direção fazia o som de um instrumento diferente aparecer... "Será uma varinha mágica ou o pessoal tem medo de levar uma surra com ela?", imaginou. Sem perceber, a geladeira de isopor, que lhe arqueava o corpo, virou um banquinho. Ele parou de piscar e seu coração começou a bater mais forte, no ritmo da música. Seus braços, quase que instintivamente, começaram a imitar os gestos do regente. As pessoas passaram a observá-lo, mas ele não notou, pois estava numa outra "praia", onde só havia ele e a orquestra. Não sentia fome nem sede... "O céu deve ser assim!", pensou.  Quem o olhava, duplamente entretido e tocado, poderia jurar que via um brilho emanar de seu corpo, tal era o deslumbramento de seu rosto. Ele ouviu, aplaudiu e pediu bis junto com a multidão embevecida. Seus olhos também marejaram com o solo de violino...  Terminado o concerto, ele ainda levou algum tempo para sair daqueleêxtase, mas quando acordou, os que haviam apreciado os dois espetáculos trataram de comprar todos os copos de água que restavam, com direito a "caixinha". Estoque encerrado, o garoto partiu, feliz da vida, para pegar carona no ônibus e voltar para sua casa humilde. Levava os trocados, no bolso, e uma riqueza incalculável, na alma! Ele havia saciado a sede de muitos, mas também havia saciado uma fome e sede que ele ainda não conhecia: a decultura! Saciou, mas logo depois já queria mais... Senhores governantes e empresários: O povo tem sede de cultura, como tem fome de alimento! Não lhe neguem nem essa "água" nem o pão nosso de cada dia! * Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, Engenheiro e Professor Universitário (UniSantos e Unisanta)Cursando Mestrado em Educação (UniSantos) Autor do livro: "Sobre Almas e Pilhas"http://www.algbr.hpg.com.br algbr@ig.com.br

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