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Prevenção pode reduzir casos de deficiência física

09 maio 2006 - 16h20

A prevenção adequada pode evitar que milhares de pessoas tornem-se portadoras de deficiência física. Analisada sob este aspecto, a questão deveria merecer mais atenção por parte das famílias, escolas, autoridades, comunidade e cada cidadão. Estudos e estatísticas da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) são conclusivos quanto à necessidade de se ampliarem e aperfeiçoarem no Brasil  as medidas de caráter preventivo.A entidade, fundada em 1950, pelo médico Renato da Costa Bomfim, mantém amplo serviço de assistência médica, pedagógica e social. Em 2005, realizou cerca 1,1 milhão de atendimentos (mais de cinco mil por dia), fabricou aproximadamente 55 mil aparelhos ortopédicos, realizou quase seis mil cirurgias e 120 mil consultas. Foi mais um ano de intenso trabalho dedicado à reabilitação e reintegração social de pessoas, em especial crianças e adolescentes. Hoje, 96% de seus pacientes nada pagam pelos tratamentos em suas sete unidades: Central (Vila Clementino), Mooca e Osasco, em São Paulo; Pernambuco; Minas Gerais; Rio Grande do Sul; e Rio de Janeiro. Os pacientes recebem assistência de médicos, fisioterapeutas, terapeutas-ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos, arte-terapeutas, musicoterapeutas, hidroterapeutas e fisioterapeutas, além das escolas da entidade, com turmas do ensino fundamental, de primeira à quarta série, cujo objetivo é preparar as crianças para o ingresso no ensino convencional. Destaque humanitário deve ser conferido ao seu corpo de voluntários, cujo trabalho é muito importante.A despeito de toda essa estrutura e do imenso esforço para prover o atendimento, a entidade ainda tem filas, numa evidência de que o País não vem conseguindo avançar adequadamente no campo da prevenção. E esta é uma das principais bandeiras da AACD. As medidas necessárias, como será possível observar neste artigo, são perfeitamente factíveis. Um exemplo é a paralisia cerebral, causa de numerosos casos de deficiência física, a maioria deles bastante grave. Numa amostra de 6.007 pacientes, cerca de 2.100 (35%) são paraplégicos e 1.700 (28%), tetraplégicos. Há, ainda, hemiplégicos, portadores de retardo psicomotor, atetóides (pessoas que não controlam certos movimentos) e atáxicos (aqueles que não têm coordenação dos movimentos musculares voluntários).A prevenção da paralisia cerebral deve começar antes do nascimento da criança, com a observância de nutrição adequada por parte da mãe, controle do fator Rh (para verificar a compatibilidade), verificação de eventual incompatibilidade ístimo-cervical e exames para diagnosticar diabetes e hipertensão. Também é fundamental a abstinência de álcool e drogas. Os cuidados devem continuar no nascimento, com o estímulo ao parto normal, boas condições hospitalares e presença de pediatra na sala do parto. Esta, aliás, sempre foi uma bandeira da AACD, felizmente vitoriosa em 1988, no Congresso Brasileiro de Paralisia Cerebral. Sugestão foi aceita pela Sociedade Brasileira de Pediatria e encampada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A prevenção contra o problema deve prosseguir na infância, combatendo-se o baixo peso, os riscos de asfixia, distúrbios metabólicos e as causas das convulsões. Estas multiplicam por três as chances de aparecimento de paralisia cerebral. Tal problema manifesta-se em 10,1% das crianças que têm convulsões. Os cuidados preventivos devem ser ainda maiores nos bebês prematuros. Para todos os recém-nascidos, é muito importante o aleitamento materno, puericultura adequada, vacinações e o combate às infecções, lembrando que 33% dos casos de paralisa cerebral ocorrem após o nascimento.Outra causa grave de deficiência física é a lesão medular. Num universo de 358 pacientes da AACD, com idade média de 33,4 anos, sendo 83,2% do sexo masculino, 65,8% tornaram-se paraplégicos em decorrência desse tipo de traumatismo. As armas de fogo, num reflexo da violência e da criminalidade no Brasil, são as maiores vilãs desta estatística, representando 40,5% dos casos. Os acidentes de trânsito também são expressivos, com 34,2%. Em ambos os segmentos, são necessárias políticas públicas mais adequadas, a começar pela educação, inclusão social e combate mais eficaz ao problema agudo.No primeiro caso, exige-se ação eficiente de segurança pública. No tocante ao trânsito, é preciso prover socorro mais ágil e profissional aos acidentados, estimular o uso do cinto de segurança, combater com veemência o consumo de álcool e drogas pelos motoristas e agregar equipamentos de segurança à frota nacional. É o caso da presença, em todos os veículos novos, do air bag e de freios de alta performance, que poderia ser viabilizada com a isenção de impostos para estes opcionais, que passariam a ser itens de série.A lesão encefálica adquirida infantil também é causa grave e recorrente de deficiência física, conforme indica estudo realizado com 232 pacientes da AACD, sendo 56,5% deles do sexo masculino. Verificou-se que 60% das lesões ocorrem na faixa etária de até seis anos. Quase 45% dos casos são provocados por traumatismo crânio-encefálico. Aqui, os acidentes automobilísticos aparecem outra vez de maneira muito preocupante: respondem por 35,8% dos traumatismos crânio-encefálicos. Este índice poderia ser significativamente reduzido por providências simples, como o transporte adequado das crianças. Lembramos que elas devem sentar-se no centro do banco traseiro. As maiores de oito anos devem utilizar cinto de segurança. Entre cinco e oito anos, deve ser utilizado o booster e para os bebês, as cadeirinhas certificadas pela ABNT. Os atropelamentos são causadores de 31,7% dos casos de traumatismo crânio-encefálico. Nestes casos, a prevenção inclui medidas educativas, mais atenção de motoristas e pedestres e adequação tecnológica dos veículos. Um dado preocupante: em 30% dos atropelamentos ocorre o óbito. Outros 22,5% dos casos são provocados por quedas de altura. A desatenção com as crianças e brincadeiras em lages, como a prática de esportes e empinar pipas, são os fatores mais recorrentes dessas quedas. Além do traumatismo crânio-encefálico, outra causa recorrente de lesão encefálica adquirida infantil é a anoxia (falta de oxigênio no cérebro). Dentre estes casos, 34,7% são provocados por afogamento em praias, piscinas e locais inadequados para natação. A mielomeningocele é outra causa de deficiência física. Neste aspecto, deve ser citada a luta vitoriosa da AACD pela adição de ácido fólico (vitamina B9) às farinhas, essencial à prevenção. A medida, defendida no plano científico e em intensa mobilização cívica, é hoje uma realidade em nosso país. A prevenção a esta grave paralisa, contudo, também inclui os cuidados com a condição materna. É particularmente importante tratar crises convulsivas, diarréias e infecções, bem como evitar radicalmente o uso de drogas. A Clínica de Amputados da AACD, num estudo com grupo de 247 pacientes, com idade média de 48 anos, sendo 68% do sexo masculino, demonstra que a maioria dos casos (34,01%) decorre da diabetes melito. Também são causas recorrentes os traumas (31,17%) e problemas com artérias e vasos sangüíneos (25,10%), além de tumores (6.07%) e infecções (3,64%). Nos Estados Unidos, há 18,2 milhões de habitantes diabéticos, ocorrendo 200 mil mortes por ano. Do total, 5,2 milhões de portadores não têm o diagnóstico. Os norte-americanos gastam US$ 132 bilhões por ano no tratamento da doença. No Brasil, estudo realizado entre 1986 e 1989, pelo Ministério da Saúde e o CnPq, mostrou que a doença ocorre em 7,6% da população entre 30 e 69 anos. Um dado importante foi de que 50% das pessoas não conheciam o diagnóstico. Ou seja, a prevenção passa, necessariamente, pelo controle periódico, que pode ser feito com simples exame de sangue e/ou testes na urina. Deve-se ressaltar, ainda, que o fumo representa parcela expressiva como causa de vários problemas que podem levar à amputação. O Brasil, maior exportador mundial de tabaco, recolhe R$ 6,5 bilhões anuais de impostos da indústria do cigarro. Porém, gasta R$ 17 bilhões por ano no tratamento das doenças causadas pelo hábito de fumar. Combatê-lo é providência essencial em termos de saúde pública. Analisando todas as causas das deficiências físicas, conclui-se que não podemos mais nos resignar diante da prevenção incipiente em nosso país. Políticas públicas articuladas, com a participação da sociedade, entidades de classe e organizações não governamentais, são imprescindíveis para reduzir a incidência do problema. Devemos trabalhar muito pela saúde, harmonia e inclusão social, redução da violência e de outros fatores, da negligência à miséria, que atentam contra a sanidade física e psicológica das pessoas. *Antônio Carlos Fernandes, médico, é diretor clínico da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente)

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