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Por que as “democracias” africanas apresentam fragilidades tão visíveis? O caso do Egito

16 fevereiro 2011 - 11h21

Diferente do ocorrido na América Latina em que os Estados Nacionais foram formados a partir de uma vontade das elites crioulas (no caso da Espanha) e luso-brasileiras (no caso de Portugal) aliado a um contexto político favorável de desequilíbrio devido às invasões napoleônicas, no continente africano a história se procedeu de maneira diferente. Naquela época, as potências imperialistas europeias (França, Inglaterra e outras) dividiram este continente em várias colônias sob sua influência, passagem conhecida na história por Partilha da África.
Pouco tempo mais tarde, já no século XX, tais impérios coloniais se enfraqueceram, iniciando um período conturbado que impulsionou os movimentos de independência e deram origem a novas nações no continente. Entretanto, estes Estados Nacionais já nasceram sobre o “estigma” de terem sido uma imposição, juntando no mesmo território povos antagônicos, ao formar um caldeirão étnico difícil de “controlar” em alguns momentos, senão sob governos autoritários apoiado pelos Estados Unidos. No caso egípcio isto é ainda mais patente.
O nacionalismo impregnado por tais nações encontra solo fértil para derrubadas de regimes e não encontra um contexto muito favorável para instituir democracias no sentido defendido pelos ocidentais e suas organizações internacionais simbolizadas pelo sistema ONU.
Quando ocorreu a derrubada do poder do Rei Faruk em 1952 o então oficial nacionalista Gamal Abdel Nasser tornou-se presidente, governando o país até a morte dele em 1970. O sucessor de Nasser, Anwar Al Sadat governou o Egito até ser assassinado em 1981, dando seu lugar ao vice o general Hosni Mubarak que havia se destacado nas batalhas de Yom Kippur anos antes. Mubarak governou o país até feveriro de 2011, somando trinta anos de exercício da presidência, apoiado pelos Estados Unidos e utilizando “métodos próprios” para se perpetuar no poder.
O interessante a observar é que no caso egípcio a saída de Mubarak causa um vácuo institucional neste país e abre ensejo a um caminho perigoso, caso as Forças Armadas fracassem ao implantar sua política de referendar emendas a Constituição. O nacionalismo árabe, muito em voga nas décadas de 1950 do século XX, passa a encontrar sólo fértil para brotar neste contexto de vácuo institucioal podendo criar uma situação ruim para o ocidente. Caso os grupos nacionalistas árabes alcancem o governo corre-se o risco de ser instalada uma teocracia no continente aos moldes iranianos.
Sem dúvida, um outro país com a postura idêntica ao do Iran, por exemplo, causaria ainda mais instabilidade política em um mundo altamente convulcionado pelas disputas envolvendo interesses estratégicos de várias potências, principalmente dos Estados Unidos. Uma saída eficaz para o sistema ocidental seria apoiar Mohamed El Baradei, prêmio nóbel da paz, para que o mesmo possa ocupar o lugar que foi de Mubarak e conduza as imprecindíveis reformas do Estado que a nação teoricamente necessitaria.
Todavia, El Baradei não é uma figura popular e de inserção nas massas egípcias em um país altamente fragmentado e multiétinico. Em se tratando de um clima de forte nacionalismo isto é um ponto negativo e aquilo que poderia ser o caminho mais fácil pode acabar se tornando a solução mais ineficiente. Ao trata-se de uma nação que apresenta uma considerável parcela da população de origem árabe considera-se um agravante. Daí retornamos ao questionamento do título deste artigo, por que as “democracias” africanas apresentam fragilidades tão visíveis? Neste aspectos é possível apontar dois pontos principais.
O primeiro deles é que angariar consenso neste países (e no Egito não é diferente) é uma tarefa quase hercúlea, pois estes Estados-nação foram formados sob o signo da imposição das potências coloniais europeias e juntaram sob o mesmo governo forças muito antagônicas que utilizam de táticas, as vezes, extremistas para se sobreporem. A segunda é que embora os países africanos (e também o Egito) tenha uma trajetória de Estados autoritários isto não quer dizer que estes Estados sejam fortes. Ao contrário, um Estado forte é aquele que consegue promover um nível de bem-estar a seu povo e fazê-lo consumir a um patamar aceitável, garantindo as liberdades individuais. Já os governos autoritários somente apresentam a aparência de serem fortes, porém são assentados em sua maioria por bases frágeis. O autoriatismo, comum no Egito e em seus vizinhos de continente, enfraquece o Estado e garante benefícios apenas as minorias, deixando grande parte da população a margem.
Se os egípcios vão ou não conseguir implantar uma democracia aos moldes ocidentais não há como prever com exatidão, entretanto experiências pretéritas demonstram que tentar “impor” figuras com baixa inserção nas classes populares em países com tendências nacionalistas não é a estratégia mais correta e está fadada ao fracasso. Por isso, as organizações internacionais devem ter muita cautela antes de colocar El Baradei (ou algém com o perfil parecido ao dele) na presidência com a disposição de pagar qualquer preço, na qual as consequências e os riscos desta empreitada seria inaturável ao mundo atual.


 
 
 
Anatólio Medeiros Arce (*)
(*) Sociólogo e Mestrando em História pela Universidade Federal da Grande Dourados.

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