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Presidenta enfrentará sensíveis desafios na política externa

18 janeiro 2011 - 16h20

Rubens Ricupero, diplomata de carreira e autor do artigo, compara o estilo da política externa do governo Lula àquela do ex-presidente da França Charles de Gaulle (que governou o país de 1959 a 1969). Segundo o especialista, assim como acontecia com a diplomacia francesa, aquela feita nos oito anos de governo Lula se caracterizou por caráter fortemente pessoal e carismático; nacionalismo intenso, “buscando aproveitar oportunidades de acumular prestígio internacional mediante o reconhecimento externo da grandeza do Brasil e de sua aspiração de igualdade com as maiores potências”; “contestação ao padrão de hegemonia do sistema internacional simbolizado pelos Estados Unidos e demais membros permanentes do Conselho de Segurança (da Organização das Nações Unidas [ONU])”, o que ficava visível também em alianças e arranjos que se opunham ao sistema de poder preponderante, sendo a aproximação com o Irã exemplo mais contundente. O autor destaca ainda como características: a tentativa de criar uma “zona de influência exclusiva no perímetro mais próximo da América do Sul”, sem interferência dos EUA; estilo crítico e não-consensual; pouca atenção ao resultado econômico e comercial de suas ações, visto na disposição “a sacrificar interesses e direitos materiais a objetivos políticos no relacionamento com vizinhos e terceiros em geral”; e, finalmente, pouca afinidade com “temas clássicos do idealismo e dos valores morais nas relações internacionais”, como direitos humanos, defesa da democracia, entre outros.

Segundo o artigo, é inegável o efeito positivo da diplomacia de Lula, principalmente em relação ao aumento do prestígio internacional do país. Ainda assim, na visão do diplomata, a elevação de nossa importância no cenário mundial foi conquistada como um “objetivo narcisista em si mesmo”, e somente poderia ser qualificada como verdadeiramente valiosa caso tivesse sido posta “a serviço de projeto de nação que maximize a segurança, a paz, o bem-estar dos cidadãos, não metas nebulosas como a ‘grandeza’ desacompanhada de benefícios concretos e valores morais”.

Sendo assim, um dos maiores desafios deste novo governo será o estabelecimento de vínculos que não sejam vistos no cenário internacional como “afrontas”, sentimento potencializado, por exemplo, quando da assinatura de acordo nuclear com o governo iraniano, em maio passado, onde “a própria atmosfera de triunfo desportivo que cercou a assinatura na capital do Irã, com os patrocinadores erguendo os braços em sinal de vitória, realçou no gesto os aspectos de desafio, não de conciliação, não contribuindo naturalmente para fazer apreciar o acordo pelos destinatários da manobra”, considera Rubens no artigo. O diplomata acredita que, para aumentar seu capital internacional, vale mais a pena “sempre avaliar o balanço de custos e benefícios potenciais, esforçando-se a agir de maneira cooperativa com outros atores, de modo discreto, sem excessos ou jactâncias geradoras de resistências e reações hostis”.

O Brasil também terá que se esforçar para tornar mais clara a influência e importância de novas potências, grupo que inclui a China, Rússia e a Índia. Até o momento, afirma no artigo, as relações entre tais países, cuja junção das iniciais forma a sigla BRICS, “não se mostraram capazes de ir além de documentos declaratórios genéricos, sem impacto perceptível naquilo que seria sua finalidade natural: conseguir que os quatro Brics atuem em uníssono, com uma plataforma de ação comum, no aprimoramento da governança global”. Ao mesmo tempo, nesta reconfiguração o país tem grandes chances de exercer seu potencial de transformar-se em potência ambiental, tornando-se “símbolo de uma política pró-ativa como primeiro grande país em desenvolvimento a aceitar metas de redução”, potencial este que não foi aproveitado nos últimos anos.

O autor destaca os maiores desafios do país em relação à América Latina, onde é possível se configurar como um grande ator internacional. O Brasil deve priorizar, afirma o diplomata, a resolução de conflitos com a Argentina em matéria comercial; a diminuição da “passividade e a falta de iniciativa corretiva diante do descrédito do Mercosul (Mercado Comum do Sul, bloco econômico da região)”; o acionamento de “meios pacíficos do direito internacional em defesa de direitos brasileiros atropelados em incidentes internacionais", coisa que não foi feita quando da “violação boliviana de tratados e contratos sobre o gás”, em 2006; e evitar que “justificativas ideológicas” pautem as relações quando de questões envolvendo países vizinhos, como o golpe de Estado realizado em Honduras (2009) ou os acordos militares Colômbia-Estados Unidos (2009).

Por fim, Rubens sugere que, em termos econômicos, o país diversifique mais suas alianças, focando-se em acordos bilaterais que podem ser mais benéficos a curto prazo do que longos acordos pautados pela Organização Mundial do Comércio (OMC). O diplomata em nenhum momento aconselha que a interação com tal instituição seja ignorada, mas afirma que, paralelamente aos esforços para alianças multilaterais, “conviria devotar tempo e esforços comparáveis a iniciativas menos ambiciosas, nas quais é possível alcançar resultados mais imediatos e tangíveis”.

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