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ENTREVISTA COM BIAL

Mandetta diz que alertou Bolsonaro sobre morte de milhares: 'Reação foi raivosa'

25 setembro 2020 - 19h50Por G 1

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou em entrevista ao programa "Conversa com Bial" que, enquanto estava no governo, mostrou ao presidente Jair Bolsonaro a possibilidade de que o novo coronavírus matasse centenas de milhares de pessoas no Brasil.

A entrevista foi ao ar nesta quinta-feira, dia 24 de setembro, véspera do lançamento do livro "Um paciente chamado Brasil: os bastidores da luta contra o coronavírus". No livro, Mandetta apresenta relatos do período em que, como ministro da Saúde, lidou com a pandemia da Covid-19.

Segundo Mandetta, a reação de Bolsonaro ao alerta foi "bem negacionista e bem raivosa".

"Eu nunca falei em público que eu trabalhava com 180 mil óbitos se nós não interviéssemos, mas para ele eu mostrei. Entreguei por escrito, para que ele pudesse saber a responsabilidade dos caminhos que ele fosse optar. Então, foi realmente uma reação bem negacionista e bem raivosa”, disse Mandetta.

Médico ortopedista e ex-deputado federal, Mandetta foi o primeiro ministro da Saúde do governo Bolsonaro. Foi empossado no cargo em janeiro de 2019 e permaneceu ministro até 16 de abril deste ano, quando foi demitido em razão das divergências com Bolsonaro sobre o enfrentamento da pandemia.

Até as 13 horas desta sexta-feira (25), o Brasil já contabilizava 140.040 mortes pela Covid-19, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.

Posições em conflito

Ao jornalista Pedro Bial, Mandetta afirmou que a defesa de Bolsonaro do uso da hidroxicloroquina – medicamento que não tem eficácia comprovada contra a Covid-19 – ajuda a explicar a posição "negacionista" do presidente.

Segundo o ex-ministro, pessoas próximas ao presidente começaram a falar para Bolsonaro versões sobre a pandemia que ele gostaria de ouvir.

"Veio a história da cloroquina. Aquilo criou para ele uma válvula de escape, tipo assim: 'Eu tiro e coloco isso no lugar'”, afirmou o ex-ministro.

De acordo com Mandetta, Bolsonaro ficou com "raiva" do Ministério da Saúde porque o então titular da pasta "simbolizava" as notícias sobre os riscos da pandemia.

"Eu simbolizava a notícia. Ele ficou com raiva do 'carteiro', ele ficou com raiva do Ministério da Saúde", disse.

Mandetta, que registrou popularidade superior a de Bolsonaro nos primeiros meses da pandemia, teve atritos com o presidente em temas como distanciamento social.

Bolsonaro defende a reabertura da economia e o que chama de "isolamento vertical" – ou seja, isolar somente idosos e pessoas com doenças graves, que estão no grupo de risco.

Após a saída de Mandetta, o oncologista e empresário Nelson Teich ficou um mês à frente do ministério e também saiu por divergir do presidente, em especial sobre o uso da hidroxicloroquina.

Com a saída de Teich, o general Eduardo Pazuello, sem experiência prévia na área, comandou o ministério de forma interina por quatro meses, até ser efetivado no cargo na semana passada.

Bolsonaro e a 'arma chinesa'

Na entrevista, Mandetta relatou que Bolsonaro estava convencido de que o coronavírus era uma arma biológica chinesa para que a esquerda voltasse ao poder na América Latina. Questionado sobre como reagiu, Mandetta disse que não contestou o que chamou de teoria conspiratória.

“Tem coisas que você não rebate. Você olha e fala assim: 'Até que se prove isso daí, vamos tratar dos fatos, vamos tratar da vida como ela é, vamos tratar o problema e depois a gente vê as teorias conspiratórias'”, disse.

Perguntado sobre seu maior erro como ministro, Mandetta disse que deveria ter sido capaz de demonstrar a Bolsonaro, “de uma maneira mais convincente”, a consequência da política adotada pelo presidente contra a Covid-19.

O ex-ministro ainda criticou a atuação da China e da Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate à pandemia. Ele voltou a criticar a lentidão da OMS em declarar pandemia.

Segundo Mandetta, o Brasil só mudou a abordagem em relação ao vírus e começou a preparar o próprio sistema de saúde quando os sistemas europeus entraram em colapso.

Relação com Doria e ministros

O ex-ministro Mandetta também deu entrevista nesta sexta ao "Estúdio i", da GloboNews. O médico disse que chegou a ser confrontado por Bolsonaro ao participar de uma coletiva com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) – ex-aliado e atual desafeto do presidente.

"Uma das decisões óbvias do Ministério da Saúde é que a saúde é suprapartidária. [...] É natural que eu tivesse esse relacionamento com São Paulo. Eu estive lá. Um belo dia teve uma coletiva e eu fui participar. Aquilo irritou demais, pelo fato de eu estar em uma coletiva, enquanto ministro, dentro de São Paulo e com a presença do governador", disse Mandetta.

"E em algum momento [Bolsonaro] me perguntou: 'você vai elogiar o trabalho do Doria?'. Eu disse 'do Doria, não. Do estado de São Paulo, da cidade de São Paulo'", prosseguiu.

O ex-ministro também afirmou que a relação com o Ministério da Economia era bem distante, com pouca participação da equipe do ministro Paulo Guedes nas conversas e decisões sobre a pandemia.

"Foi colocado na mesa um dilema de que era saúde ou economia. Era natural, e eu tentei essa aproximação, para que nós tivéssemos posição comum em dois ministérios. A Saúde afetando a Economia e a Economia afetando a Saúde para que a gente pudesse falar a mesma língua. O que eu senti era um distanciamento muito grande. [...] No caso da Economia, era uma coisa praticamente nula. Não houve um enfrentamento conjunto de Saúde e Economia naquele momento", contou.

Mandetta elogiou a postura do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

"Ele [Moro] tinha muita preocupação não só nessa parte de quarentena, mas com o sistema prisional. Possibilidade de rebeliões, epidemias. Ele se aproximou muito, se interessou muito. Foi extremamente parceiro dessa solução de vacinarmos a população prisional contra a gripe comum, de comprar equipamentos", afirmou.

"Roberto Campos Neto era extremamente ligado, ligava todo dia, mandava os gráficos, mandava perguntas. Teve algumas informações de alguns artigos científicos que ele mandou antes do pessoal do ministério. Sempre preocupado se isso ia impactar a taxa de juros, se não ia, qual era o impacto econômico. Havia esse diálogo", disse Mandetta.

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