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ARTIGO

Leia "A situação política está muito difícil", por Waldir Guerra *

21 dezembro 2015 - 10h08

Caramba! A questão política está mesmo difícil, preciso reconhecer, mas comparando a situação de hoje com as duas anteriores – que aconteceram quando já era um político ativo – esta crise me parece a mais grave. E sabe por quê? Nesta está faltando lideranças políticas para nos levar a uma solução.

A primeira crise política que vivi foi a revolução de 31 de março de 1964, quando os militares tomaram conta do Brasil. Como vereador de um município paranaense (Pato Branco), eleito em 1960, acompanhei as crises que foram surgindo depois da renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961.

Naquela crise havia, sim, boas lideranças políticas. Juscelino Kubitschek, por exemplo, que cobiçava voltar à Presidência da República, mas pecou por não querer se envolver achando que voltaria a se eleger Presidente sem fazer força. Outro era o governador do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, líder político inconteste. Magalhães Pinto, outra grande liderança política. Sem esquecer, claro, do próprio presidente Jango Goulart e seu aguerrido cunhado Leonel Brizola.

Todos eles empenhados na disputa para ganhar a Presidência da República e em função disso promoveram tanta confusão que acabaram todos afastados da política pelos militares.

Na segunda crise também estive presente. Era deputado federal e votei por cassar o mandato do presidente Collor. Foi em 1992. Ali também havia boas lideranças políticas que, além de promover um impeachment, ainda foi montado um bom governo e o Brasil voltou a progredir.

Itamar Franco, que substituiu Fernando Collor, não era uma liderança política nacional, mas os que o colocaram lá eram. Ulisses Guimarães era um líder inconteste e atuou naquele momento. Fernando Henrique Cardoso, como ministro da Fazenda montou a equipe que derrotou a amaldiçoada inflação com o Plano Real.

Agora, nesta crise, cadê os líderes políticos que o Brasil anda precisando? Onde estão?

Domingo passado o povo deveria ter ido pra rua para apoiar o impeachment da presidente Dilma, mas não foi. Por quê?

O povo não foi pra rua porque não vê uma liderança confiável para substituir a presidente Dilma – ela tem hoje mais de 70% dos brasileiros, segundo pesquisas, contrários à sua forma de administrar. E o povo tem razão, afinal, o vice que a substituiria é presidente do maior partido brasileiro e nem consegue coordenar os poucos integrantes do seu PMDB. Como esperar dele competência para corrigir os rumos de um país em frangalhos? O povo não foi pra rua porque sabia que estaria fazendo papel de bobo.

Enquanto isso, milhares de manifestantes – a maioria provavelmente de “chapas-brancas” e “ongueiros” bancados com recursos governamentais ou de sindicatos – promoveram, dias depois uma passeata contra o impeachment e se esforçaram em demonstrar publicamente o apoio à continuidade do governo da presidente Dilma. (Pensando bem, esse esforço todo faz sentido para os que defendem o direito à sua “boquinha”).

Se não bastasse dizer que esta crise é a mais grave de todas, pois faltam bons líderes para abrir um novo caminho para sairmos dela, ainda vem o STF e diminui o poder dos representantes do povo (deputados) no contexto dos três poderes da República.

Simplifico meu pensamento apenas repetindo aqui parte do que disse o jornalista Demetrio Magnoli na Folha de São Paulo: “... constituiu-se na sessão do STF uma maioria disposta a elaborar novas leis e, ainda, a produzir normas infralegais sobre os trabalhos parlamentares. Os juízes trataram os deputados como infantes barulhentos no recreio escolar. No fim da operação, cassaram os poderes da Câmara, transferindo-os para o Senado”.

Caramba! A situação política está difícil mesmo.




Waldir Guerra *

* Membro da Academia Douradense de Letras; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal. (wguerra@terra.com.br)


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