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MEMÓRIA VIVA

Contra credores, velhacos passavam longe da Marcelino

15 dezembro 2015 - 07h46

Até existe aquele famoso “cara de pau” que deve, não nega e só paga quando puder, sem sentir a menor vergonha. É claro que nem todo mundo deixa de pagar contas porque quer e tem gente se envergonha da situação. Mas, fugir da fama de “velhaco” é difícil. Em Dourados, uma das principais avenidas já foi popularmente conhecida como “Rua dos Velhacos”. Por qual motivo? Vamos explicar nessa matéria sobre o comércio das avenidas, parte série “Memória Viva” que o Dourados News publica neste mês de dezembro em homenagem aos 80 anos da cidade comemorados no dia 20.

Já no comecinho de Dourados, o comércio foi fomentado a partir da principal avenida da cidade, Marcelino Pires. Era um local de referência para compras, não só por quem vivia próximo à área central, mas também por aqueles que vinham do entorno, já que havia a Cand (Colônia Agrícola Nacional de Dourados) com muitas propriedades.

O economista Jericó Vieira de Matos, 64, nasceu na avenida Marcelino Pires e desde esse período lembra “de cor e salteado” o nome de cada empreendimento instalado, onde ficavam, quem eram os proprietários e o que era vendido nesses locais. Ele morou com a família no número 748, onde seu pai tinha um armazém, que na época costumavam chamar de “bolicho” ou “secos e molhados”.

Era um empreendimento muito comum à avenida, onde se vendia de tudo, desde cachaça, botão, linha até arroz e feijão, por exemplo. Ao longo de sua extensão, vários locais como esses eram encontrados, de proprietários diferentes.

Ao lado do armazém do pai de Jericó, havia uma barbearia e é lá que ele começou a trabalhar aos sete anos de idade como engraxate. Era comum naquela época começar num ofício bem cedo. Aos nove anos, se tornou vendedor ambulante de roupas de criança confeccionadas pela mãe que era costureira. Essa renda com as roupas era dela, então ele vendia frutas também para fazer seu próprio dinheiro.

Jericó percorria toda a Marcelino Pires para fazer as vendas usando uma bicicleta, que naquela época precisava ter certificado e estar emplacada. Era como se fosse um carro mesmo. Desse jeito, conheceu muita gente e aprendeu cada canto da principal avenida.

Poucos tinham carro na cidade, então o que se via era uma Marcelino Pires com charretes, alguns Jipes, taxis e a maioria andava mesmo a pé. Quem vinha da colônia usufruir do comércio, sempre era de caminhão, carroça ou carro de boi para poder levar toda a compra.

Jericó acredita que naquela época era mais barato para comprar produtos, pois tudo era mais artesanal. “Haviam máquinas de moer arroz ou café, por exemplo. Então tudo era feito aqui”, lembra ele. Esses eram empreendimentos que existiam na Cabeceira Alegre.

Matos se lembra que o comércio na Marcelino iniciava pelas imediações da esquina da avenida com a rua Eulália Pires, indo intensamente - em meio a algumas casas de famílias tradicionais – até a rua Mato Grosso.

Nesse trecho havia além dos Armazéns, borracharias, bares como os famosos Lucheze e Pinguim, papelaria, barbearia, salão de beleza, pensões, hotéis, farmácias como a Central e a Popular, e até o Cine Ouro Verde que passava filmes diferentes todos os dias. Após a rua Mato Grosso, o comércio “parava” um pouco, e só retomava na região da Cabeceira Alegre que já era bastante habitada.

RUA DOS VELHACOS

As compras no comércio sempre eram feitas com cheque ou dinheiro e assim como hoje, também tinha muita gente que comprava fiado e não pagava (ou até dava o famoso cheque sem fundo). Como a vocação da Marcelino era o comércio e praticamente todos os empreendimentos nela se concentravam, quem ficava devendo – por qualquer motivo que seja - e precisava vir à cidade, buscava uma rota alternativa para não ser visto pelos comerciantes.

“O pessoal comprava na Marcelino Pires e ficava sem condições de pagar. Para desviar dos credores, passava pela então rua Rio Grande do Sul, que hoje chama avenida Weimar Torres. Por isso, a Weimar ganhou o apelido de Rua dos Velhacos”, lembra Matos. Essa alcunha já era dada à avenida desde os anos 40 e só foi se perdendo a partir do momento que a Weimar também começou a ganhar seu comércio, hoje sendo também bastante movimentada nesse sentido.

NOSTALGIA

Ao olhar a Marcelino Pires de hoje do passado, Jericó sente nostalgia. “Era uma rua sem asfalto, toda de chão, depois que cascalharam e fizeram o asfalto. Você saia na rua e conhecia todo mundo, todo mundo era amigo”, lembra ele. Relata que já viu entreveros e tiroteios, mas que na maior parte do tempo era possível andar despreocupado e ver famílias tomando tereré e chimarrão pela avenida em frente às residências até tarde da noite.

Ele diz que sente muitas saudades, mas que é preciso reconhecer que a cidade cresceu e que o desenvolvimento chegou. “Eu sou um douradense e tenho orgulho da minha cidade e como douradense espero que quem administre a cidade a abrace como uma filha muito querida”, encerra o economista.

Avenida Marcelino Pires, a principal de Dourados (Foto: Divulgação)

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