Uma onda de implantação de indústrias de processamento de cana invade o Mato Grosso do Sul, da mesma forma a discussão que começa a tomar corpo junto à sociedade organizada. Em Dourados, dia primeiro de dezembro o vereador Elias Ishy provocou este debate propondo que a área planta da município não ultrapassasse 10% do seu território. A Radio Coração 95,7 FM promoveu um importante debate sobre o tema dia nove de dezembro, com diversos representantes da sociedade.
Alguém deve se perguntar o que faz um padre escrever sobre o plantio e processamento de cana-de-açúcar, quando deveria estar celebrando missa. Ninguém deve esquecer das “lutas” da Igreja Católica para concretizar o Reino de Deus e que este passa pelo desenvolvimento humano em todos os âmbitos. Não seria justo pensar nos nossos fiéis só como seres espirituais, alheios às realidades sociais. Então como não opinar numa questão específica? O fato é que na história do Brasil sempre que uma região optou pela monocultura o povo ficou mais pobre. Com a Cana, na Zona da Mata – Nordeste, foi assim (ainda hoje, a riqueza produzido por tão longo período de cultivo da cana não chegou às massas, o povo de lá continua pobre), com o café como monocultura não foi diferente, gerou riquezas para poucos, com o cacau na Bahia da mesma forma, etc.
Um amigo, padre, residente em São Carlos, SP, recentemente contava-me o que acontece naquela região. No passado aquela localidade fora muito próspera, com grande diversidade produtiva. Com a implantação de diversas usinas de álcool e açúcar a situação se inverteu drasticamente. O povo ficou mais pobre e migrou para as cidades, abandonando o campo, inchando a área urbana e como conseqüência veio o desemprego, a violência, gravidez precoce..., “apesar” do aumento da arrecadação dos municípios, (mas temos que admitir que a violência cresce também onde não tem usinas de álcool), enfim, houve concentração de bens.
Temos que nos perguntar sobre as condições dos trabalhadores que são expostos à radiação solar, umidade provocada pela chuva ou sereno; ruído e vibrações provocadas pelo movimento das máquinas, iluminação deficiente no turno noturno; fuligem da cana queimada, resíduos de produtos químicos utilizados nos tratos da cana, acidentes de trajeto e acidentes em geral provocados pelo manuseio de máquinas de pequeno e de grande porte e pelos diversos tipos de equipamentos, posturas incorretas, movimentos repetitivos, supervisão com pressão, consciência da periculosidade e ausência de controle do trabalho, ritmos intensificados, ausência de pausas regulares, subordinação aos movimentos das máquinas, monotonia, ausência de treinamento adequado, entre outras.
Existem outros aspectos éticos a serem considerados e que foram levantados pelo Promotor do Meio Ambiente, José Antônio Alencar. A questão das bebidas isotônicas, a produtividade exigida por indivíduo que são quase sub-humanas é outro problema social grave. Um aspecto não foi veiculado na imprensa: são inúmeras as pessoas que se deslocam para trabalhar no corte da cana, na sua maioria homens vindos de longe, deixando para trás suas esposas e filhos. Nestas localidades se envolvem com garotas, muitas delas engravidam, eles retornam e surge uma leva de filhos que não conhecem os pais, além da própria prostituição das nossas jovens.
Os economistas Leonardo Mussury e Carlos Vitoratti, citaram Nova Alvorada do Sul, por exemplo, e o inchaço das áreas urbanas, respectivamente, como problemas a serem pensados. Por isso, a questão não é ser contra a implantação de usinas, somos a favor, mas não somos contra discutir e verificar cada caso, para que a população seja beneficiada como um todo. Que a geração de riquezas traga benefícios através de escolas, remuneração adequada à carga horária, saúde de melhor qualidade, condições de trabalho decentes, para cada município onde se instale uma (duas, três...) usina.
Uma região é cada vez mais próspera quando há a diversificação produtiva. Se a cana vem para somar, que bom! Se vier para ser monocultura, é bom discutir com todos os seguimentos da sociedade, para que todos estejam cientes das benesses e prejuízos.
Pe. Crispim Guimarães
Assessor de Comunicação da Diocese de Dourados
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