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O poder de uma denúncia de racismo na UEMS

22 outubro 2004 - 08h07

Gleice Jane Barbosa(*)
A polêmica gerada sobre a denúncia de racismo na UEMS demonstra que a opressão é real, que o racismo existe, que a mulher continua sendo discriminada, que não é fácil admitir não ser heterossexual, que ser gordinho é ser diferente, que ser estudante é ser oprimido, e o mais grave é que uma parcela das pessoas que estão na universidade, não são inteligentes o bastante para perceber isto. Sendo a universidade responsável pela produção de conhecimento é ridículo que este debate fique em torno de duas pessoas. Que o fato se torne uma guerra entre um professor e um aluno, e que o restante da comunidade acadêmica se manifeste em favor de um ou do outro. O mínimo que se deveria fazer é uma reflexão sociológica e ideológica sobre a denúncia. Até o presente momento percebe-se pelos boatos de corredores que não foi possível fazer uma leitura aprofundada sobre o ocorrido. É comum ouvir frases como: “o que vai acontecer com o professor?”; “o professor acabou de se casar e tem uma vida pela frente, não é justo colocar em risco a carreira acadêmica dele”; “mas ele é um ótimo professor, tem formação na USP e a universidade não pode perdê-lo”. Estas frases provem de professores e também de estudantes da UEMS. Por último, um artigo de um professor da UFMS neste site questionando os antecedentes do aluno. Percebe-se que parte da comunidade acadêmica tem considerado uma única pessoa mais importante que a história do negro no Brasil. Que diferença faz o passado de duas pessoas perante uma denúncia de opressão ao negro dentro da Universidade? Se o caso partir em busca da identificação da “mocinha e o bandido”, há estatísticas comprovando que o maior número de presidiários são negros. É comum percebermos na universidade a reprodução do conhecimento ao invés de produção, é muito mais fácil reproduzir a história do negro no país neste momento do que encarar os fatos e produzir saberes.   Se a preocupação dos colegas professores é a carreira acadêmica do professor, não é difícil imaginar o futuro. A sindicância foi estabelecida pela administração da universidade. A administração é estabelecida por um processo político, onde o professor significa 70% de peso num processo eleitoral, estudantes, 15% e técnicos, outros 15%. Os Conselhos Universitários adotam esta mesma porcentagem de representação. Por mais que a sindicância não esteja composta por professores e alunos é muito simples entender este processo. Ela foi composta apenas por dois técnicos de nível superior e um assessor jurídico. Não teve um antropólogo ou sociólogo ou um especialista em direitos humanos para fazer uma análise científica sobre os dados. Há alguns dias os dados coletados estão sob poder do Reitor que pode estabelecer uma nova comissão ou ele mesmo julgar o processo. As normas da Universidade sempre privilegiam o PODER ao professor. Além do processo eleitoral, o sistema presencial é uma forma de obrigar o estudante a ficar em sala de aula por pelo menos 75% da carga horária, mesmo que o professor seja extremamente incompetente e a aula não tenha nenhum estímulo, o professor só precisa passar uma lista de presença ou fazer a chamada. Este exemplo é muito comum na Universidade. A avaliação no sistema educacional é extremamente autoritária, não considera a capacidade de nenhum indivíduo, apenas classifica por número, exclui por uma nota, menospreza outros conhecimentos, e obriga o aluno a ter que saber exatamente aquilo que o professor quer que ele aprenda. O atual modelo de avaliação privilegia o professor desconsiderando outras capacidades dos estudantes. Completamente contraditória com os princípios de produção de conhecimento e transformação através do mesmo. Se as pessoas conseguissem libertar de si mesmas, admitissem que preconceitos existem e todos nós estamos sujeitos a cometê-los, seria mais fácil combater o preconceito. Quem nunca se divertiu com piadas? Mas quantos tiveram a capacidade de perceber o que estava por trás de uma piada que parecia ser inocente. Não precisa fazer grandes estudos para entender o que está implícito nas piadinhas populares. Fazer sátiras com uma diferença, estabelecida pela sociedade, de um outro indivíduo, é simplesmente uma grande falta de respeito.  As piadas são meras reproduções de preconceitos. Quando de loiras, a reprodução do machismo. Pra quem não acredita que ele existe, basta assistir TV por menos de uma hora e perceber que a mídia compara a mulher ao prazer de tomar uma cerveja. A sociedade considera diferente quem opta por não ser heterossexual, é comum ouvirmos piadinhas satirizando os homossexuais. E quantos homossexuais existem no meio social sem coragem de se manifestar por medo de ser rejeitado?  E o que fazer com as piadinhas de português, alemão, gaúcho, etc? Talvez refletir sobre o que elas significam antes de contá-las é um grande ato de cidadania e respeito ao próximo. Pensar que o Brasil é democrático, que todos têm direitos iguais, que a diversidade cultural não permite que haja racismo nem preconceitos, é fechar os olhos e não querer enxergar o que está em todas as cores. Não querer produzir saberes sobre a opressão, principalmente dentro da universidade, é uma grande burrice a serviço da formação de pessoas homofóbicas e oprimidas. Enfim, tem grande sabedoria o ditado popular que diz “errar é humano, permanecer no erro é burrice”. Uma simples denúncia ocorrida em uma cidade do interior do estado pode revelar como pensa a massa crítica da sociedade.A universidade por ser um reflexo da sociedade tem a grande oportunidade de publicar seu conhecimento com poucas palavras e ações. (*)Gleice Jane BarbosaMulher, descendente indígena e estudante da UEMS

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