Quando a noite era de lua cheia, uma onça costumava esturrar lá no fundo da canhada, e a cachorrada na porta do rancho, grunia baixo, incomodada, só o Piloro, mais valente, respondia com uns latidos fortes e desafiadores, que iam buscar eco naquele fundão, onde o felino, hipnotizado pela lua, ficava imóvel por longo tempo. Era bicho insultando bicho!
Deitado, encolhia-me no jirau forrado de varas (cama-de-varas), com quase dois metros de altura, onde instalara o meu ninho solitário e seguro. Ninho de caboclo que vive no meio do nada, rodeado pela bicharada esquiva e embalado pelo canto da passarada, nas madrugadas que se sucedem. Madrugadas sempre iguais quando havia sol.
Nos dias em que o tempo fechava e os trovões repetiam-se como o rufar de tambores distantes, eu não saia do rancho. Tratava os cachorros, as galinhas, o porquinho na encerra e os gatos, não fazia mais nada além da comida que ia comer. Tratados os bichos da “família”, com um cigarro de palha preso nos beiços, começava a fazer o almoço. O almoço do caboclo sempre é feito de madrugada, para ser comido ali mesmo nos dias de chuva ou levado para o serviço, invariavelmente, distante uma légua do rancho de morada.
O fogo crepitava no fogão perto da porta, onde a claridade é melhor, o feijão fervia numa panela de ferro e eu ficava sentado num tôco na porta do rancho, em silêncio, alisando o lombo de um cachorro. Pensava na família distante, nos amigos, nas coisas engraçadas da vida, em tudo, até na minha felicidade de possuir aquele sertão inteiro só para mim.
E a chuva “lá vinha” roncando e agitando, com os seu vento companheiro, as árvores, as moitas de tabocas e os coqueiros com suas longas cabeleiras; encrespava as águas do riacho onde eu pescava. A chuva, sempre entendi, era a renovação do mundo.
A cachorrada acomodava-se debaixo de um coberto num canto do terreiro, e esperava, tão ansiosa como eu, a chuva que se aproximava. Nos dias de sol, ela ficava indócil, agitada na porta do rancho, esperando para me acompanhar na ida para o trabalho e, de passagem, explorar o cheiro das trilhas onde cruzavam os bichos, do mato, do orvalho. A multiplicidade de cheiros era incontável, além da conta para inebriar, embriagar, qualquer cachorro que se preze como caçador.
Os trovões avisam e a chuva não pega ninguém desprevenido. As formigas, premonitivas por natureza, já levantaram o dique ao redor do seu buraco; as aranhas recolheram suas teias ao primeiro ribombar do trovão. O lagarto não sai da toca, mas os sapos aparecem de todos os lados olhando para o céu e coaxando de alegria.
Finalmente ela chegava molhando tudo, e irrigando a roça, então eu deixava o meu banco de tôco e entrava para o rancho. A minha casa de pau-a-pique, edificada com moirões de aroeira era coberta de sapé. As paredes fechadas com varas de espeteiro, as mais linheiras. O interior ficava até no escuro, um luxo! Não havia janelas porque construí-las era muito complicado e enfraquecia a “segurança” do rancho contra onças, apesar do exército de cachorros.
Era ainda o mês de junho, eu me lembro, poucos dias depois do dia de São João, apareceu por lá o meu compadre Izidório. Caboclo alegre e conversador, pai de oito filhos. Morava num rancho lá pelos lados do compadre Bento Sabino, a mais de légua de distância do meu. Compadre Izidório tocava uns roçados e pegava umas “changas” nas redondezas, junto com os filhos mais velhos, para ajudar no sustento da “fiarada” e da comadre.
A visita do Izidório foi uma festa. Tomamos uns goles de cachaça e “prozeamos” até tarde da noite com a luz da lamparina. Na manhã seguinte ele foi embora e deixou um vazio, uma saudade de tudo com mistura de solidão. Essas visitas alteravam o ritmo da vida naquele sertão. Passado pouco tempo, apenas uns dias, já me tinha esquecido do compadre e sua visita. Tudo voltava ao que era, sem novidades.
A comida era farta. No riacho era só ir buscar umas piabas, tabaranas ou lobos, quando quisesse e na quantidade que se desejasse. Os cachorros pegavam e traziam para o rancho tatus e outros animais que, conforme a cara, eu preparava e comia. Outros eu recusava, preferindo o feijão com abóbora, mais seguro e saudável.
Dias depois da visita do compadre Izidório, ainda no mês de junho, numa noite escura, sem luar, infestada de pirilampos, quando só o curiango (também chamado de sacuréu ou bacuráu) canta triste no meio da trilha, no chão, dando pinotes, encantando a noite, foi que a “coisa” aconteceu.
Não posso dizer a hora, mas, certamente, já era depois da meia noite.Eu ouvi um estrondo do lado de fora do rancho. A minha cachorrada – Piloro, Donzela e Graciosa – enlouquecida latia, investia, chorava de dor por algum machucado e continuava a avançar valentemente contra uma “coisa” que eu não conseguia identificar embora já adivinhasse que era coisa grande. O tropel, no meio da escuridão era medonho. Seria uma anta? Não, era coisa maior! Teria vindo pegar-me? Aí a cisma, o medo!
Pulei do jirau, no escuro procurei os fósforos para acender a lamparina, não encontrei. A escuridão era total, minhas mãos tremiam e eu não enxergava a ponta do nariz. Orientei-me pela parede, tentando chegar até a espingarda carregada que estava dependurada na parede, perto da porta --- não consegui encontra-la ---; enrosquei um pé num cabo de cabresto que estava também dependurado próximo de onde estaria a espingarda, quase cai e soltei um palavrão; desvencilhei-me e, finalmente, pude pegar a arma. Lá fora o tropel parecia ter aumentado, tamanha era a fúria da cachorrada e as pancadas no chão que a “coisa” dava, afora uns guinchos aterradores.
Com a espingarda nas mãos, no escuro, faltou-me coragem para abrir a porta. Bem ali, perto da porta, permaneci petrificado e com os cabelos arrepiados, trêmulo. Depois de algum tempo, eu não sei dizer quanto, tudo pareceu durar uma eternidade, o barulho distanciou-se, foi lá para as bandas da canhada. Eu sentia vergonha da minha covardia por ter deixado os cães sozinhos no embate com a “coisa”. Ouvi um dos cães chorar por alguma coisa que lhe acontecera, os outros continuavam latindo, avançando, pegando p’ra valer e eu ali, encolhido, acovardado. Aterrorizado mesmo!
O tempo finalmente passou. Não se ouvia mais nada. No lusco-fusco do interior do rancho já nos prefácios da madrugada, vi a gatinha toda arrepiada em cima do fogão e lá fora um silêncio mortal. Nem o galo cantou e a passarada estava muda. Dos cachorros nem sinal. Abri, finalmente, a porta e sai para o quintal, ali estavam as duas cadelas: a Donzela e a Graciosa, encolhidas, choramingando, com os rabos entre as pernas e olhar baixo, envergonhadas talvez por não conseguirem pegar o bicho ou decepcionadas porque não lhes prestei ajuda na maior peleia das suas vidas. Estavam, como se diz, arrasadas. Do Piloro nenhum sinal.
O sol trouxe mais claridade e eu andei pelo quintal procurando rastros para ver se identificava aquela “coisa” que atacou o rancho. Não encontrei nenhuma marca no chão úmido, além dos rastros dos cachorros.
Olhei novamente, com atenção redobrada. Nada!
O sol levantou-se, todos os bichos do terreiro estavam em silêncio. Fui ver o porco, estava morto e sua carcaça parecia que tinha sido incinerada. As cadelas continuavam encolhidas e alheias a tudo perto da porta do rancho. E o Pirolo? O que aconteceu ao Piloro? Comecei a procurar pelas redondezas. Havia, mais embaixo, na orla da mata, uma cerca de arame farpado, ali havia muito sangue e marcas das patas dos cachorros. O mato estava amassado e no arame encontrei alguns pêlos longos, parecidos com fios do rabo de cavalo. Pêlos muito esquisitos, porque tinham metade de cada cor: preto e branco. E o Piloro nada!
Três dias depois, exatamente três dias depois daquela noite, o Piloro apareceu. Magro, sem nenhuma personalidade, apagado, com o rabo entre as pernas e olhar mortiço. Procurei alimenta-lo e curar suas feridas. Não comeu, apenas gemia e passados dois dias morreu, foi aí que pude perceber que ele não tinha mais nenhum dente na boca.
Agora que estou morando na cidade, já passados muitos anos, fico às vezes pensando o que teria sido aquela “coisa”, naquela noite distante. Contei o caso mais de mil vezes e ninguém apresentou uma resposta que pudesse explicar o que aconteceu ou o que era aquilo. Bicho que não deixa rastro ninguém sabe o que é.
CRUZ CREDO! Aquilo não era coisa deste mundo, tenho certeza!
-Advogado
-Cidadão douradense
-Gaúcho titulado
-Contador de estórias
-josealbertovasco@yahoo.com.br
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