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O bicho grilo e o Agrobusiness, por Ana Cavalheiro

17 abril 2008 - 13h48

Teve um tempo, e nem faz tanto tempo assim, que falar em agricultura orgânica, proteger o meio-ambiente, falar com animais ou com pedras eram coisas de bicho grilo ou loucos.
 

Aos 26 anos em Sao Paulo, tive um namorado fazendeiro da região de Ribeirão Preto. Familia Brant Carvalhosa, nome imponente e tradicional que meu namorado gostava de citar para dar colorido e prestígio à alguma conversa que direcionava, sempre num tom semi-alto, mas audível na mesa ao lado. Desde o início do namoro, manifestou intenção de formar familia e eu, a escolhida para essa sua empreitada. Aparentando segurança em tudo que dizia justificava sua falta de estudos se gabando de cortar matas e pagar multas altas para ter maior produtividade. O assunto de nossos encontros era constantemente as vacas leiteiras, o governo e as tias ricas. Gostava muito de dados estatísticos para impressionar o ouvinte. Estatísticas estas, sabe se lá Deus como calculadas, mas sempre citadas. Com o passar de algum tempo, essas conversas foram me trazendo uma certa melancolia e pela primeira vez, refleti de como a felicidade do casamento deveria ser algo pálido. Dinâmico, ele já providenciara como e onde eu trabalharia em Ribeirão Preto. Logo depois, fui sentindo nas entrelinhas de suas conversas, que temia pelo seu próprio destino como ilustre fazendeiro e uma vêz chegou a dizer ser tratorista a unica função que saberia desempenhar, caso a fazenda quebrasse. Era o verdadeiro herdeiro, aquele que fica em casa esperando. No silêncio de uma visita e outra, eu refletia escondida de mim mesma: Como eu iria acompanhar pela vida afora um cidadão tao nobre, com aquele converseiro enjoado? Logo naquele momento da minha vida que eu houvia falar sobre Frank Loyd Wright e o poder da natureza na nossa vida, no nosso amor e o processo de criação na arquitetura das cidades orgânicas? Além do mais eu precisava primeiro conhecer o mundo, pois sem isso eu não poderia viver. E as matas? Se tinha algo que realmente me incomodava era essa indiferença dos homens ditos bem-sucedidos frente à destruição da natureza e à dor dos animais na carnificina dos frigoríficos. E a conversa do tratorista? Essa hestória havia me deixado com um elefante atráz da orelha. Eu, criança humilde da Vila Sao Pedro, sem a retórica do bem-nascido, tinha porém miolos suficiente para definir meu caminho: Um milionário tratorista estava totalmente fora de cogitação!
 

Assim, tive que deixar o bom partido de familia muito boa, mas nao melhor que a minha. Para alivio de meu pai, que nunca interessou-se por sobrenomes, mas pelo diploma que o sujeito consegue assegurar. Meu cunhado, levemente disiludido por eu ter abandonado o bom partido, já que conhecia muito bem a tal familia, perguntou-me se eu estava esperando o príncipe encantado.
 

Eu estava.
 

Os homens que não amei sempre quizeram casar-se comigo, mas por uma grande proteção divina meu caminho não é traçado pela vontade do outro, mas pela minha vontade. Para a felicidade de ambos.
 

Ele, o herdeiro que nao foi em busca de seu tesouro, me faz lembrar que finalmente a ecologia toma espaço pela primeria vez nos debates da classe produtora.
 

Tem que se repensar o método de produção, tem que se proteger os rios, tem que se ter conhecimento.
 

Tem se que tomar banho sem sabonete para proteger as aguas, andar a pé ou de bicicleta para não poluir o ar, não comer carne para se criar menos animais para matança e produzir menos metano danoso para a natureza.
 

Ai ! Sempre houve reação raivosa por parte daqueles que não sabem que a natureza é um ser vivo e qual é a nossa responsabilidade perante ela. Preocupar-se com o sofrimento dos animais, aguas limpas? E, o que é isso bicicleta? O que continua é a luta para eleger o próximo intelectual que continuará não limpando os rios.
 

Mesmo porque política tem a ver com poder e meio-ambiente tem a ver com amor, conhecimento, respeito ao próximo, de preferência ao animal mais próximo, único caminho para que o homen respeite o homem.
 

Eu bicho grilo, quero ver nascer um Grilo-businnes transformando a modernidade no sinônimo de responsabilidade pelas pedras que relatam o feito da humanidade.
 

Além do mais, quão bela é a vida quando podemos sequir o caminho com nossos próprios passos, sem a ilusão do casamento feliz, sem estatísticas decoradas, sem sobrenomes na sociedade, sem matar animais, nem sujar rios, nem cortar matas, mas construindo um mundo interior pela vida afora, onde só há espaço para as criaturas divinas e seus segredos.
 


 

Ana Cavalheiro.
 

Artista Multi-mídia, Arquiteta e especialista em meio ambiente.
 

Ano de 2008/ abril
 

Hamburgo-Alemanha
 

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