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O APRISCO SOMBRIO

20 julho 2007 - 10h24


*José Alberto Vasconcellos

Tudo era novidade. Todos trabalhavam com afinco, ciente, cada um, da sua importância naquela empreita – a abertura de uma fazenda. Milhares e milhares de hectares, tudo coberto por floresta virgem, luxuriante, constituída por árvores enormes. Eram perobas, angelins, angicos, ipês, canafístulas, cedros, além de outras de menor expressão na escala conceituada da madeira de lei.
Montada como prioridade, a serraria vinha funcionando a todo vapor, serrando a madeira que era simultaneamente utilizada na construção das benfeitorias necessárias para implantar a infra- estrutura da fazenda, tais como: casas, currais, galpões, pontes, etc. Dez casas para moradia dos peões já estavam prontas e habitadas. O restante do pessoal, peões sem famílias, estavam alojados num galpão na parte leste da clareira, na orla da mata – lado contrário às casas habitadas pelas famílias.



Uma equipe de carpinteiros (carapinas) paraguaios trabalhava animada com seus constantes gritos (“Mburêo”) animando-se para o trabalho imenso, que era o de construir tudo o que era necessário ali. Uns tinham a família no local e outros moravam no galpão dos “solteiros”. O Leopoldo, administrador, regia tudo aquilo como um maestro, andando o tempo todo.
Uma centena de hectares de pastagens já estava implantado e as primeiras vacas tinham chegado, assim como um rebanho de ovelhas, cerca de trinta cabeças, mais alguns borregos. Num dos cantos da clareira e não muito distante do galpão da peonada “solteira”, foi construído um aprisco onde as ovelhas eram recolhidas e passavam a noite.

O trabalho diário era duro e a peonada recolhia-se cedo. A energia elétrica, gerada por um motor a diesel, era interrompida exatamente às 20:30 horas. Silenciado o motor, nada mais se ouvia, silêncio que contrastava com o barulho que se ouvia durante o dia, com o funcionamento da serraria, tratores arrastando toras e os gritos dos peões. O silêncio absoluto chegava com a escuridão. Apenas pássaros noturnos e alguns bichos, além dos grilos, faziam algum rumor acanhado. Vez por outra ouvia-se o esturro de alguma onça lá pelos fundos da mata, era quando o peão, por mais valente que fosse, encolhia-se na cama com receio do bicho.

As madrugadas eram alegres, festivas. Começavam com o canto da passarada, canto de casais de saracuras na canhada e o ronco dos bugios no alto das árvores. Logo se ouvia o apito da serraria e tudo começava de novo, tal e qual o dia anterior e ia durar até o anoitecer, como ontem. Era o “Mburêo” dos paraguaios, o ronco dos tratores e o zunido da serra na serraria. Vez por outra se ouvia alguma mãe gritando pelo o filho.

Os dias sucediam-se e o trabalho duro mostrava os resultados: as benfeitorias iam surgindo em ritmo lento mas contínuo. A casa sede estava sendo erguida; o curral para o gado estava em meio da construção; a destoca e limpeza das coivaras avançava e alguns trechos da estrada de acesso ao local vinham sendo melhoradas com cascalhamento. Já se percebia, com facilidade, os contornos de uma sede de fazenda bem montada.

Distante quase vinte léguas da cidade mais próxima, o caminhão da fazenda que vinha uma vez a cada quinze dias, era esperado com ansiedade por todos. Era um caminhão grande, desses para transportar animais. Trazia como carga, sempre, vinte vacas, mantimentos, remédios, ferramentas, pregos, parafusos, dobradiças, telhas, diesel e alguns utensílios necessários, inclusive munição para o armamento da peonada, porque havia muitas onças e muita caça naquela região. Nos dias em que o caminhão chegava a luz ia até às 22:00 horas, porque no caminhão também vinham alguns litros de cachaça, o que implicava numa confraternização alegre e ruidosa da peonada.

Como se disse, as ovelhas eram recolhidas no aprisco à noite; da mesma forma, o gado também era recolhido num potreiro, por causa das onças que já tinham atacado alguns bezerros.

E foi numa noite sem luar, escura como breu, que o Joaquim, um tratorista alojado no galpão dos “solteiros”, ouviu um barulho estranho vindo lá do aprisco. Desconfiado de que algum bicho estava atacando as ovelhas, chamou o Bartolo, um carpinteiro paraguaio que dormia por perto, que também já estava meio acordado, com o mesmo barulho ouvido pelo Joaquim. Um tropel que parecia indicar que as ovelhas estavam acuadas, assustadas, agitadas. O barulho era acentuado porque o piso do aprisco era de madeira. O Bartolo também pulou da cama!

De posse de uma espingarda cada um: o Bartolo munido de um velho farolete com as pilhas quase descarregadas, foram ver o que acontecia e embrenharam-se na escuridão, demandando o aprisco que não ficava longe.

Do lado de fora do aprisco nada de anormal se via. O Bartolo subiu numa lateral do curral das ovelhas e olhou para dentro utilizando a claridade do seu farolete que era fraca. Os animais estavam amontados num canto visivelmente assustados, todavia não se via nenhum animal ou sinal de qualquer ataque aos carneiros.

Preparava-se para descer quando ouviu o grito desesperado do Joaquim e o subseqüente disparo de um tiro. Bartolo pulou no chão e procurou, com o foco do seu farol, o Joaquim que estava perdido na escuridão. – O que fue hombre de Dios? E o Joaquim: -- Você não vai acreditar, vamos voltar para casa!

No trajeto entre o aprisco e o galpão, soou, na mata, um grito estridente, lancinante; e mais um... o eco dos gritos ecoou pela mata toda ao redor da clareira.

-- É o “Aô-aô”, só pode ser ele! Disse o Bartolo que nesta altura estava tão apavorado quanto o Joaquim. Apressaram o passo e chegaram ao galpão, onde já haviam lamparinas e lampiões acesos e um bom número de pessoas assustadas conversando desconexamente.

-- O que aconteceu lá fora? Foi a pergunta que um fez e que todos fariam, ao mesmo tempo, se pudessem. – Ouvimos tiro, ouvimos gritos assustadores!

Primeiro foi o Joaquim a explicar. Disse que aguardava a inspeção do Bartolo no interior do aprisco, quando sentiu uma mão passando em seu rosto. Instintivamente levou sua mão tentando pegar aquela mão que tocava seu rosto, conseguindo sentir apenas um braço grosso e muito peludo. Assustado caiu sentado sem largar a espingarda, a qual ele disparou por reflexo de auto defesa.
 O Bartolo ajudou-o a levantar-se, foi quando ouviram os gritos do “Aô-aô”, um duende que habita as florestas. Uma entidade muito temida pelos antigos ervateiros paraguaios. E alertou o Bartolo: -- Se alguém gritar respondendo aos gritos do “Aô-aô”, ele vem até onde esse alguém está. Já aconteceu uma vez e dizem que é um homem grande e peludo, com olhos assustadores... é uma criatura medonha, e quem a vê fica “Tarova” “demente”, afiançou o Bartolo.

-Advogado
-Contista dos contos não contados.
-É gaúcho titulado
-josealbertovasco@yahoo.com.br



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