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O ANIVERSÁRIO DA NONA (VOV

25 julho 2007 - 15h31

* José Alberto Vasconcellos
           
                        Consultei o relógio da cabeceira: 5:30 horas da manhã. Eu tinha que me levantar mais cedo, para tratar de vários assuntos, dentre eles um relacionado com o bufê (buffet) que organizará  a festa de aniversário da Nona, pela passagem do seus noventa anos.

                        A Noninha morava noutra cidade, mas tinha vindo para a minha casa, onde seria celebrado o seu aniversário, tudo conforme previamente combinado, por ocasião da Páscoa, quando estive na casa dela.

                        Havia a promessa de toda a família fazer-se presente  na festa em minha casa. A reunião prometia e tinha que ser memorável, porque não é sempre que alguém completa noventa anos, absolutamente lúcido, e a Noninha estava zerada, como se diz, embora com alta quilometragem.

                        Como neto da aniversariante e mentor da festa, caprichei na escolha do bufê, e  os demais detalhes, inclusive o menu, seriam tratados e resolvidos naquele dia; e o dia da festa estava próximo. Muito próximo!

                        O relógio marcava 5:40  e eu já ensaiava levantar-me, quando ouvi um estouro na cozinha acompanhado de um grito: --Porca la miseria!

 

                        O grito era da Noninha! Era a Nona! Pulei da cama de cueca e corri desesperado para a cozinha. No trajeto encontrei-me com o Rodrigo, meu gato, que vinha de lá todo arrepiado e com o rabo “emperobado” com umas três polegadas de grossura, numa velocidade vertiginosa. Trombei, a seguir, com o Flávio, meu primo, que, como eu, buscava acudir a Nona. O Flávio caiu sentado e eu continuei embalado rumo à cozinha.

                        --Noninha, o que aconteceu? Perguntei desesperado, quando vi a velhinha amontoada num canto, parecendo, pelo volume do seu corpinho, ser muito menor do que era. A cozinha parecia ser a sala de espera do inferno: cinza por todo lado, paus de lenha, chaleira e até parte da chapa do fogão tinha sumido. Chegou o Flávio e atrás dele os demais, todos abobalhados com o estrondo e a sujeira.

                        A Noninha, perdida na fumaça e na poeira, continuava encolhida no canto. Avancei para socorre-la; os  outros tentaram fazer o mesmo e a confusão no meio da fumaça cresceu. No cantinho, encolhida, a Noninha apenas mastigava palavras como: --Maledetto! –Porco fiori de una vacca troia! (filho da mãe!)  E outras imprecações num dialeto ininteligível.

                        Alguém abriu a porta para o quintal e outro a janela, para que a fumaça e a poeira se dissipassem. O ar estava pesado e a confusão grande. A Noninha foi levada para o quarto e lhe deram água. Estava preta de fuligem e dela só se destacavam os olhinhos azuis, assustados, e o branco da dentadura.

                        Mas, afinal, o que tinha acontecido naquela cozinha? A cozinha era ampla, com instalações modernas, fogão a gás com acendedor automático, mas, no meio dela havia um velho fogão de lenha, ali mantido para agradar o meu pai, e que era utilizado só nos invernos, para funcionar como lareira. Era quando o velho sentava-se no “rabo” dele para esquentar fogo, como se diz, e tomar uns goles de cachaça.

                        A  Noninha, apuramos, levantou-se cedo e se dispôs em fazer o café e, ao invés de utilizar-se do fogão a gás com acendedor automático, que não sabia pilotar, vendo o antigo fogão suprido de lenha, resolveu reviver os velhos tempos e acendê-lo. Não encontrando os fósforos, mexeu e remexeu nas gavetas da cozinha e encontrou uma caixa de bombinhas que ali estava desde a última festa de São João.

                        Com a visão embaçada pela idade e pelo uso de óculos vencidos, não distinguiu as bombinhas dos fósforos e depois de ajeitar os gravetos, riscou a bomba. O estouro  que quase matou todos de susto e a jogou num canto, também esparramou a lenha, jogou cinza para todos os lados e provocou um fumaceiro danado . O gato que tinha o costume  de dormir no borralho, embora frio, quase morreu de susto e fugiu espavorido, com o rabo “emperobado”. O susto da Noninha não foi menor que o do gato!

                        Todos estavam de pé, assustados, desorientados, falando ao mesmo tempo. Eram perguntas e mais perguntas. Todos queriam saber o que tinha acontecido. Era uma confusão total, até que alguém interpelou-me: --E aí, meu príncipe, vai ficar o dia todo de cueca?

                        Foi aí que a Noninha ressuscitou: --O Bepe de cueca, eu quero ver! E lascou uma gargalhada daquelas de perder a dentadura. O bom humor da Noninha foi contagiante: daí em diante foi só alegria e risos.

                        Aí eu gritei: --Adesso tutti insieme! (Agora todos juntos!)—Viva la Nona!  Mama mia! Porca la miseria! Porca la pipa!

                        Esses gringos...
 
                        Arre égua!
Advogado.
É gaúcho titulado.
Neto da Noninha e festeiro.

josealbertovasco@yahoo.com.br

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