Em uma atmosfera serena, de oração e de profunda comoção, Chiara Lubich concluiu a sua viagem terrena na noite de sexta-feira, dia 14 março, aos 88 anos, em sua residência de Rocca di Papa, nos arredores de Roma. A sua última palavra foi um “sim” dirigido a quem lhe comunicava: «Você está para entrar no seio do Pai e nele permanecer para sempre!» Foi assim que ela se encontrou com o grande amor de sua vida, Jesus abandonado, crucificado e ressuscitado.
Ao tomar conhecimento de sua morte, o Papa Bento XVI redigiu uma mensagem que, em poucas palavras, traduziu feliz e fielmente a atuação de Chiara na Igreja e na humanidade: «Recebi com emoção a notícia da morte de Chiara Lubich, ao final de uma vida longa e fecunda, caracterizada incansavelmente por seu amor a Jesus abandonado. Nesta hora de separação dolorosa, estou próximo espiritual e afetivamente aos familiares e a toda a Obra de Maria – Movimento dos Focolares, que ela fundou, como a todos os que apreciaram o seu constante empenho pela comunhão na Igreja, pelo diálogo ecumênico e pela fraternidade entre todos os povos. Dou graças a Deus pelo testemunho de sua existência dedicada à escuta das necessidades do ser humano contemporâneo, em plena fidelidade à Igreja e ao papa. Enquanto confio sua alma à Bondade Divina para que a acolha no seio do Pai, desejo que os que a conheceram e admiram as maravilhas que Deus realizou por meio de sua entrega missionária, sigam seus caminhos, mantendo vivo seu carisma».
Os funerais, realizados na terça-feira, 18 de março, na Basílica de São Paulo fora dos Muros, foram presididos pelo Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcísio Bertone, e assistidos por milhões de pessoas de vários países do mundo, através da internet e de inúmeros canais de televisão. Seu corpo repousa na capela do Centro Internacional do Movimento dos Focolares, em Rocca di Papa.
Quem foi Chiara Lubich, e por que sua morte ocupou as manchetes dos principais meios de comunicação do planeta? Nascida em Trento, no norte da Itália, a 22 de janeiro de 1920, é considerada uma das figuras femininas mais importantes do cristianismo das últimas décadas. Durante a segunda guerra mundial (1939/1945), em meio às bombas que tudo destruíam, uma luz intensa brilhou em sua alma, fazendo-a entender que o único ideal que não passa é Deus – um Deus que é sempre e somente Amor, até mesmo entre os horrores da guerra. No dia 7 de dezembro de 1943 – data que passou a ser considerada o início do Movimento dos Focolares –, ao se consagrar a Deus, iniciou a sua “divina aventura” na Igreja e na humanidade.
Depois de alguns meses, já eram mais de quinhentas as pessoas que se agrupavam ao seu redor, irmanadas pela convicção de que a única e verdadeira revolução que renova a face da terra – eram os anos em que a revolução comunista avançava em vários países europeus – é a vivência concreta, dia a dia, em cada ambiente e com cada pessoa, do mandamento que Jesus definira “seu” e “novo”: «Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo» (Jo 15, 12).
Em poucos anos, a “novidade” trazida por Chiara vence as barreiras mais inesperadas e passa a transformar as pessoas que a acolhem e as instituições aonde chega. São mais de vinte as ramificações surgidas dentro do Movimento dos Focolares, constituídas por pessoas que, de todas as idades, raças, culturas e religiões, se comprometem, nos mais diversos campos sociais e culturais, a trabalhar pela unidade da Igreja e dos povos, fazendo seu o projeto de Jesus: «Que todos sejam um!» (Jo 17, 21). Em 1948, Igino Giordani, renomado deputado, escritor e jornalista italiano, leva o ideal de Chiara ao mundo da política e da família. Em 1949, um jovem seminarista, Pasquale Foresi, fulgurado pela luz e abrasado pelo fogo que lhe vinha do Focolare, difunde a nova vida entre sacerdotes, religiosos e seminaristas.
Em 1977, Chiara recebe, em Londres, o prêmio “Templeton pelo Progresso da Religião”, em reconhecimento pelo avanço do diálogo inter-religioso e do ecumenismo promovido por seu Movimento. Desde então, foram dezenas as condecorações recebidas de entidades culturais, políticas e eclesiais, nos mais diferentes e distantes países.
Em 1991, ao visitar o Brasil, ela fica impressionada com o contraste social e a miséria das favelas, e inicia a “Economia de Comunhão”, um projeto destinado a fazer com que a globalização em andamento no mundo, ao invés do mercado e do lucro, priorize a solidariedade e a justiça social.
Hoje, o Movimento dos Focolares está difundido em 182 países, e conta com aproximadamente cinco milhões de adeptos e aderentes. Um dos mais entusiastas foi o Papa João Paulo II. Num de seus inúmeros encontros com os membros do Movimento, não hesitou em afirmar: «Eu peço a Deus que vocês sejam sempre mais Igreja e que a Igreja seja sempre mais como vocês!». Em outra ocasião, abriu seu coração e lhes confidenciou: «Quando me encontro triste e acabrunhado, penso em vocês, e logo me sinto reanimado». E já quase no final de sua vida, numa saudação dominical ante um grande grupo de seminaristas, foi mais longe ainda: «Entre vocês, vejo seminaristas e focolarinos: que feliz combinação!».
Provavelmente tenha sido por isso que, no dia 6 de janeiro de 2001, ao entregar ao público a Carta Apostólica “No Início do Novo Milênio”, ele apresentou o itinerário percorrido por Chiara como a espiritualidade do novo milênio: «Antes de programar iniciativas concretas, é preciso promover uma espiritualidade da comunhão, elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se plasmam o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes de pastoral, onde se constroem as famílias e as comunidades».
Dom Redovino Rizzardo, cs
domredovino@terra.com.br
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