A rotina de quem “corta” as estradas todos os dias a trabalho é sempre cheia de histórias para contar, mas nem sempre muito boas. Difícil mesmo é encontrar caminhoneiro que em sua trajetória não tenha se envolvido ou presenciado acidentes de trânsito com colegas de profissão durante a jornada. Diferente de outros ofícios nos quais a garantia da segurança ao executar as funções depende das precauções que o próprio trabalhador deve adotar para se proteger, os caminhoneiros também dependem da ação de terceiros.
A imprudência, o cansaço devido à jornada exaustiva e o uso de drogas estão entre os principais 'vilões' para quem trabalha nas rodovias do país. A situação coloca o setor de transporte de cargas no topo das mortes por acidente de trabalho em Mato Grosso do Sul.
A imprudência dos outros também afeta o trabalho do caminhoneiro
A postura de quem trafega com carros de passeio ou motocicletas, por exemplo, pode contribuir para que o caminhoneiro execute o seu trajeto com segurança. “O carro faz uma ultrapassagem em local proibido e quando vê está de frente com um caminhão, freia e volta para a pista. O caminhoneiro, até por reflexo, puxa um pouco o caminhão para o acostamento para desviar. O caminhão não tem a estabilidade de um carro, então isso pode fazer com que o motorista perca o controle do veículo e o caminhão tombe. Isso é comum acontecer”, lembra Evandro César Salomão Santana, 38.
Santana é empresário no ramo de transporte de cargas há pelo menos 10 anos e conduz uma empresa que atualmente coordena 150 caminhoneiros. Muitos saem com as cargas em “comboio” com sete ou oito caminhões de uma só vez. Quando isso acontece, a postura dos demais usuários nas vias também faz diferença.
“Os caminhões saem juntos, mas mantém uma distância entre eles por segurança e para dar também o espaço para que os carros menores possam ultrapassar. Mas, o que a gente vê muito é o motorista do carro querer ultrapassar os oito de uma vez só, ignorando a sinalização. Aí quando ele tenta entrar rápido entre os caminhões, acaba provocando acidentes”, relata.
O empresário lembra que na maioria das vezes, estando o motorista do carro ou do caminhão errado, quem está no veículo menor acaba se machucando com mais gravidade do quem está no veículo de carga ou até morrendo. Isso acaba criando um estigma sob o caminhoneiro, mesmo quando ele não tem culpa em relação ao acidente.
O problema maior está nas condições de trabalho e conduta do caminhoneiro
Mas, é preciso lembrar que nem tudo é culpa de outros. O grande problema que leva aos agravos do trabalho está mesmo nas condições em que os caminheiros estão expostos e sua conduta diante disso. Muitos adotam práticas imprudentes nas estradas, não só as relacionadas a ultrapassagens proibidas ou paradas em locais inadequados. A questão é ainda mais grave.
Os trabalhadores da empresa de Santana ainda sentem com pesar a perda de um experiente colega de trabalho ocorrida em março deste ano. As causas do acidente que aconteceu no interior de São Paulo, ainda causa dúvida.
O caminhoneiro estava descansado, tinha percorrido apenas 500 quilômetros e estava retornando para Dourados, quando bateu num caminhão que estava a sua frente na mesma pista, tentando desviar dele acabou atingindo de frente um segundo que vinha na pista contrária. Ele, que já tinha 50 anos de experiência na estrada, morreu na hora.
A suspeita é de que o motorista tenha se distraído ao dirigir enquanto conversava no aplicativo WhatsApp com a namorada. “Não só para a família, mas para a gente aqui também foi um baque muito grande. Quer queira ou não, eu e todos os outros caminhoneiros também sentimos. De certa forma acaba servindo de exemplo. O que a gente pode fazer é seguro de vida para o caminhoneiro e para o veículo, e orientar. Mas, a vida dele não volta”, relata o empresário.
Uso de drogas para conduzir caminhões já virou epidemia
É importante ressaltar que nem todos os caminhoneiros trabalham diretamente para empresas com jornadas controladas e salário fixo. A grande maioria que formam a realidade do setor, é composta por autônomos que prestam serviço comissionado por frete. Em busca de conseguir a maior quantidade possível de serviços para ampliar a renda, muitos acabam arriscando a vida e a própria saúde. Jornada exaustiva, cansaço, embriaguez, sono ao volante e até consumo de drogas para se manter na rodovia estão entre as questões graves pelas quais passam os motoristas de caminhão.
Isaias da Silva Messias, 53, trabalha há 23 anos como caminhoneiro. Ele Já foi até assaltado na estrada, mas nunca chegou a se envolver em acidente. No entanto, como todo profissional da área, já presenciou isso acontecer várias vezes em seus anos de estrada. “Já vi bastante casos de caminhoneiro que não descansou direito, dormiu no volante, saiu da estrada e acabou capotando”, relata.
Ele lembra que a falta de “salário fixo” para a grande maioria dos profissionais é o que mais leva seus colegas a cometer este tipo de imprudência. “Por ser comissionado, muito contratante estabelece o prazo e deixa o caminhoneiro a vontade. Aí ele acaba ficando muito tempo esperando em filas e descarregando, e tenta compensar isso recuperando o horário na estrada, para poder pegar mais carga. Para isso acaba consumindo drogas, como cocaína. Quando o efeito da droga acaba, ele acaba perdendo o controle e se envolve em acidente. Isso sem contar a saúde que fica toda prejudicada”, relata.
Procurador do Trabalho, Paulo de Moraes, alerta para possível retrocesso em direitos trabalhistas dos caminhoneiros (Foto: Divulgação/MPT/MS)Para o procurador do MPT/MS (Ministério Público do Trabalho), Paulo Douglas Almeida de Moraes, o direito fundamental à saúde está relacionado a uma das questões graves que afetam o trabalho do caminhoneiro. “Hoje nós temos uma verdadeira epidemia de dependência química neste segmento. Isso já vem sendo observado há muito tempo e se agravando, principalmente o uso de cocaína e alguns subprodutos mais agressivos como o crack”, relata.
Setor de transporte de cargas é o que mais mata trabalhadores
Diante das mais diversas mazelas, o transporte rodoviário de cargas acaba por engrossar uma estatística preocupante. O setor foi responsável por 711 do total de acidentes de trabalho no período de três anos – de 2011 a 2013 – em Mato Grosso do Sul, conforme os dados mais recentes divulgados pelo Anuário Estatístico da Previdência Social. Neste período, foram 13 mortes.
E o mais alarmante ainda não é isso. Apesar do setor ser o 8º em números absolutos de acidentes, é o que mais mata trabalhadores em decorrência destes. Para se ter uma ideia, em 2013 foram 1.293 acidentes em frigoríficos durante abates de animais (campeão em casos), com duas mortes. No mesmo período foram 258 envolvendo transportes de cargas, porém resultando em cinco mortes. É o setor que mais mata seus trabalhadores.
Acidentes de trabalho preocupam os mais diversos setores. Em 2015, pelo menos 10% dos processos novos que deram entrada no TRT/MS (Tribunal Regional do Trabalho de Mato Grosso do Sul) e 8% dos casos solucionados pelo órgão foram relacionados a acidentes de trabalho – não só do transporte de cargas, mas também envolvendo outros setores.
Para o procurador do Trabalho, a quantidade de casos de acidentes envolvendo caminhoneiros que vão parar na justiça não chegam a ser muitos. Os esforços coletivos dos mais diversos órgãos em prol da prevenção contra os acidentes de trabalho envolvendo caminhoneiros é a quantidade de casos que ocorrem nas estradas, apontados em dados estatísticos das polícias rodoviárias. “De um ponto de vista geral, é a atividade que mais mata, já superou a construção civil”, lembra o procurador.
A jornada do caminhoneiro precisa mudar, mas estamos diante do retrocesso
Conforme o procurador, estudos vem demostrando claramente que o que deve ser feito é a limitação da jornada de trabalho para patamares razoáveis. A Lei nº 12.619 que estabelecia limites dentro de 8h com mais duas extras, foi alterada recentemente pela Lei nº 13.103 para garantir 4h extras. “Essa situação [4h extras] acaba submetendo o motorista à condição subumana, maximiza acidentes e leva o trabalhador ao uso indiscriminado de drogas”, relata.
Acredita o procurador que tudo gira em torno do embarcador que acaba motivando essa situação, estabelecendo pagamento por comissão, com prazos apertados e salário baixo. Para ele, a realidade só será alterada quando houver a percepção dos operadores do direito de que essa extrapolação de jornada é inconstitucional. Mas, sobretudo quando os atores da dinâmica do transporte efetivamente controlarem a jornada, limitarem o trabalho dos motoristas e alterarem a modalidade de pagamento para o fixo, deixando de lado aquele feito apenas por comissão. “Assim teremos uma mudança para este quadro”, disse.
No entanto, ele lembra que o prognóstico pra o setor não é de avanços nesse sentido, mas de um retrocesso com agravamento ainda maior da questão. “O Congresso Nacional constituiu uma comissão para analisar o novo marco normativo do transporte rodoviária de cargas, com um sistema ainda mais “precarizante”. O cenário não é nem um pouco otimista, é de que tenhamos um agravamento ainda maior”, relata.
Apesar de tudo, é o prazer de ‘viver’ na estrada que move o caminhoneiro
O caminhoneiro Messias concorda que o que falta é uma remuneração digna e fixa. “Por experiência, vejo que a maioria gosta da profissão. Não se importam muito e tem esse espírito de levantar cedo e tocar a estrada até anoitecer. O problema está em quem não exagera isso e extrapola os próprios limites”, afirma. Lembra que houve também avanços para os profissionais, como os caminhões que estão a cada ano mais confortáveis para seguir a estrada.
Ele lembra ainda que apesar dos obstáculos, o trabalho do caminhoneiro é gratificante. “Muitos não dão o devido valor ou não respeitam, mas somos nós que carregamos o que garante o sustento da população, a comida, o combustível. Eu tenho orgulho em saber que o meu trabalho é o que garante essa sobrevivência das pessoas e que nós caminhoneiros somos importantes para o desenvolvimento do país”, ressalta Messias.
Caminhoneiros precisam de jornada adequada para poder trabalhar melhor (Foto: Arquivo/Dourados News)Deixe seu Comentário
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Evandro César Salomão Santana, 38, coordena o trabalho de 150 caminhoneiros (Foto: Fabiane Dorta)