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Fiocruz: dengue pode durar todo o ano

25 março 2008 - 17h40

A epidemia de dengue no Rio de Janeiro, que já matou 49 pessoas em 2008, pode se prolongar por todo o ano se a população não for ensinada a combater a mosquito transmissor da doença, disse o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz Anthony Guimarães, especialista em entomologia. Segundo ele, as medidas emergenciais anunciadas esta semana pelo Ministério da Saúde e pelos governos municipal e estadual não são efetivas para combater a doença, uma vez que os mosquitos já estão espalhados. O problema foi a "negligência" na prevenção.
"Se nada for feito para educar a população a respeito do criadouro do mosquito, podemos ficar o ano todo com esse problema", acrescentou. Na segunda-feira, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, anunciou um pacote de medidas para conter a doença, incluindo o envio ao Rio de Janeiro de centenas de funcionários de saúde de outros Estados. Nesta terça, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, confirmou a ajuda das Forças Armadas, que vão contribuir em duas frentes: combate ao vetor e instalação de barracas de campanha para atendimento primário.

Os pacientes, nas filas ou já internados, são, em sua maioria, crianças que ficam mais expostas às picadas do mosquito Aedes aegypti, segundo os médicos. A dona-de-casa Naira Magalhães está com os dois filhos, de 8 e 9 anos, internados desde a semana passada com dengue no hospital estadual Albert Schweitzer. Antes dos filhos, o marido já havia sido infectado.

Segundo ela, o caso é o mesmo em toda a vizinhança em Realengo (zona oeste), onde ainda não houve nenhuma inspeção dos agentes antidengue. "Perto da minha casa passa um rio e fica cheio de lixo fazendo poça. Os moradores não têm condição de limpar o rio. Nunca houve uma visita de ninguém para fazer uma limpeza", disse ela, dentro da enfermaria criada no hospital especialmente para crianças após o aumento da demanda.

Nas tendas de hidratação, inauguradas de emergência pelo governo estadual na segunda-feira, os doentes formavam filas nesta terça. Nos hospitais da cidade, em especial na zona oeste - região de maior incidência da doença - o panorama se repetia.

As 49 mortes por dengue confirmadas no Rio de Janeiro, até agora, em 2008 já superam os 31 óbitos ocorridos no Estado em todo o ano passado. Desde o início do ano, já foram mais de 32 mil casos de dengue registrados no Estado. A capital é o local com o maior número de óbitos, com 31.

"Depois que você passa por uma grande epidemia, fica a sensação de que passou o problema. Na verdade, não foi feito coisa alguma. Agora estamos vivendo uma nova epidemia", disse o pesquisador. No hospital estadual Albert Schweitzer, onde duas pessoas morreram de dengue este ano e um bebê de 7 meses morreu com suspeita da doença, o número registrado de casos da doença por dia chegou a 50 na última semana.

A baixa incidência da doença nos anos posteriores à epidemia de 2002 também foi um dos motivos considerados para o novo surto, uma vez que as medidas de prevenção foram fragilizadas pela população, de acordo com o diretor do hospital, Cesar Fontes.

"Se não houver mosquito, não tem doença. Se deixarmos condições favoráveis para o mosquito, a doença aparece. A doença não é atacada em sua origem, que é o mosquito", disse o diretor do hospital.

"Não há outra forma de combater a dengue que não seja controlando o vetor. Aqui no hospital nós já estamos na ponta, controlando o surto", disse o médico. "Se a gente deixa condições ideais para o mosquito, o criadouro pode durar até dois anos."

Segundo o pesquisador, o atual surto da doença é o pior no Estado desde 2002, quando 91 mortes aconteceram em decorrência da doença, em mais de 280 mil casos. Aquela epidemia, de acordo com Guimarães, é um dos motivos para o alto número de mortes neste ano.

"A epidemia na cidade desta vez é do tipo 2. Essas pessoas que morrem de dengue hoje já estiveram expostas a outro tipo do vírus antes, provavelmente nas grandes epidemias de 2001 e 2002", afirmou Guimarães.

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