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Fidel e a democracia

27 março 2008 - 12h59

Mais uma vez escrevo sobre Fidel Castro. Motivo? A impressionante contradição de alguns intelectuais, dentre eles, cristãos. Tenho a impressão que os cristãos estão com a consciência adormecida.
Admiro algumas pessoas da Igreja que pensam muito no social, assim como outras personalidades, no entanto, questiono certas contradições. Por isso, no presente artigo levanto um questionamento, acredito - muito pertinente.
Muitos expoentes da cultura brasileira, entre eles - clérigos, defendem veementemente o Estado cubano e seu idealizador nos moldes atuais: Fidel. Ora, muito se diz que Cuba teve um sistema de saúde avançado, uma educação muito superior a de todos os países da América Latina. Mas educação não é ensinar a ler e escrever ou aprender técnicas: é promover liberdade. Isto o Estado cubano infelizmente não fez.
O fato inegável é que alguns cristãos católicos não entendem que na sua Igreja existe, o que chamamos fidei depositum (deposito da fé): verdade revelada por Deus. Muitos também se esquecem que apesar dos erros da Igreja, quem derrubou o Império Romano, foi o cristianismo, que nos seus primórdios era constituído de pobres e, sobretudo escravos, que a mulher recebeu uma dignidade como nunca antes tivera, pois na sociedade patriarcal, o homem podia ter (por exemplo) mais de uma mulher, a Igreja definiu, a partir do Evangelho, como norma de fé o matrimônio indissolúvel, fazendo assim que o homem fosse de uma só mulher.
Porém, algo é intrigante: Fidel Castro ficou 49 anos no poder, governando com mão de ferro, dizem que assassinou milhares e milhares de compatriotas que discordavam de seu regime. Nunca permitiu se quer, que um partido de oposição disputasse com ele as eleições, controlou as notícias dentro do País, ninguém podia ouvir algo que não fosse chancelado pelo Partido Comunista Cubano. Para sair ou entrar de Cuba, só era possível aos amigos queridos de Fidel.
Cidadãos católicos e intelectuais admiram este homem e o seu sistema de governo. São estas personalidades que exigem democracia dentro da Igreja à maneira das democracias consensuais e seus governos que oprimem os povos até no pensar diferente. Que contradição! Quem de Fidel discordou está exilado ou morto. Quem não se lembra dos cubanos que não quiseram voltar ao país natal logo após “Pan-americano” do Rio de Janeiro.
A desculpa é sempre a mesma: Fidel liderou uma ditadura, mas melhorou os índices sociais, “não se tem liberdade, mas, ao menos, há saúde e educação para todos", isto é, o fim justifica os meios, mas é bom lembrar: o bem que desejamos praticar, no entanto, tem instrumentos maus, nunca será um bem, continuará sempre sendo um mal. Pergunto: uma ditadura de direita, então, se justificaria segundo esses mesmos termos? Desta forma, os militares e seu milagre econômico brasileiro seriam justificados.
Atenção! Em 1960, pelo menos 50 mil pessoas que tinham apoiado a revolução, deixaram Cuba. Três anos depois, 250 mil. A Confederação dos Trabalhadores Cubanos, peça-chave na derrubada da ditadura anterior a Fidel, foi tomada pelos comunistas. Em 1962, o principal líder operário, “aliado” de Fidel, que ajudou fazer a revolução, David Salvador, foi encarcerado.
O regime de Castrista fuzilou entre 15 e 17 mil pessoas. “Caracterizá-lo como um assassino não é uma questão de gosto, mas de fato”; ali estavam religiosos, prostitutas, homossexuais, opositores do regime, criminosos comuns... Aliás, “os movimentos gays, que costumam ser simpáticos a “esta esquerda”, deveriam saber que a Universidade de Havana passou por uma depuração anti-homossexual. Isso mesmo. Em sessões públicas, os homossexuais eram obrigados a reconhecer seus ‘vícios’ e renunciar a eles”.
Segundo O Livro Negro do Comunismo, desde 1959, estima-se em 100 mil o número de pessoas que passaram pela cadeia ou pelos “campos” de reeducação no país. Nem a Ditadura Brasileira com todas as suas desgraças, que não foram poucas, da qual alguns católicos foram vítimas, fez algo parecido. Algumas vítimas brasileiras, não defendem as vítimas cubanas, mas Fidel Castro. Esqueceram o que é ser perseguido e torturado. Pior ainda, acusam sua Igreja de não ser democrática.
Defender o capitalismo que mata tanto quanto, nunca! Mas aplaudir Fidel e seu regime, “castrista”: nome bem sugestivo, é uma incoerência.
 
Pe. Crispim Guimarães
Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados

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