Constantes evasões da Colônia Penal Agrícola de Campo Grande, na saída para Aquidauana, colocam em dúvida a eficácia do regime semi-aberto adotado no local. Demonstram ainda a fragilidade da segurança na área de 35 hectares onde estão 269 presos que tiveram progressão no cumprimento da pena.
Aproveitando da facilidade em deixar o local, muitos saem durante a noite para cometer crimes e retornam pela manhã para responder à chamada e não serem considerados foragidos, o que representaria voltar para o regime fechado.
A situação na unidade penal preocupa moradores da região, que tomam algumas precauções para não serem vítimas. “À noite a gente fecha tudo, fica dentro de casa”, disse a dona de casa Edna Gonçalves, 48 anos, que mora no mesmo terreno onde fica a casa da também dona de casa Elaine Benevides, 25 anos, cuja maior preocupação é com a filha de seis anos. “Eu levo e busco minha filha todos os dias no ponto de ônibus que ela pega para ir para escola”.
Segundo elas, que nunca foram assaltadas, homens que não são moradores da região são vistos todos os dias nas redondezas. “Todo dia tem gente diferente, que não é daqui [do bairro] andando. Devem ser eles de lá”, diz apontando em direção a Colônia, que fica a cerca de três quilômetros de sua casa. Muitos comerciantes já foram assaltados, como já denunciou anteriormente o Campo Grande News.
E não é só nas proximidades que os presos costumam “passear”. Foragidos são presos em bairros da área central e muitos após cometerem crimes. Foi exatamente a onda de crimes e prisões de evadidos que colocou a precariedade da unidade em evidência.
Não é difícil sair da unidade. A área onde ficam instalações como cozinha, quadra, administração e as 13 celas, é envolta por uma tela de aproximadamente dois metros, fácil de ser rompida. Já para delimitar a área, apenas quatro arames farpados “amarrados” a tocos de madeira de cerca de um metro.
Entra e sai-A situação favorece a falta de controle por parte dos agentes penitenciários, dois por plantão, sobre a entrada e saída de pessoas. Eles até tentam. Aquelas que são vistas têm que apresentar documentos e explicar o motivo da visita. No entanto, como são poucos, não conseguem controlar, por exemplo, a entrada e saída pelos fundos da unidade.
Local por onde entraram as quatro garotas de programa que passaram a noite de domingo com presos, a “pedido” de um deles, que saiu normalmente e foi buscá-las na região da rodoviária. Três delas, sendo uma adolescente, foram flagradas próximas à unidade. A quarta fugiu.
Elas chegaram na Colônia na noite de domingo, período em que a segurança é ainda mais crítica, já que não há iluminação nas ruas próximas nem envolta ao matagal, somente na área do prédio.
A área é cercada por matagal e fica próxima também a indústrias. Na entrada “oficial” da Colônia, há uma guarita fechada. Nenhum agente fica no local. Ao lado, o portão. Sempre aberto, segundo constatou a reportagem.
Motocicletas e carros que não são dos agentes não entram na área. Ficam do lado de fora. Alguns veículos são de presos, que são autorizados a sair da unidade todos os domingos após 30 dias de adaptação. Neste período, é permitida a visita de familiares, que por diversas vezes levam alimentos e objetos aos internos.
Revistas não são parte da rotina, já que os agentes acreditam que objetos ilícitos não entram “pela porta da frente”. Chegam até a unidade com os internos que entram pelos fundos. São aparelhos de celular (que podem ter sido furtados ou roubados), drogas e bebidas alcoólicas, que na maioria das vezes são compradas em bares da região.
“Eles vêm aqui e compram as bebidas. Nunca tomam aqui nem jogam fliperama. Compram pinga e levam embora”, disse a comerciante Laura Rodrigues da Silva, 34 anos, do Jardim Sarandi.
Na base da psicologia-O risco que os agentes correm é evidente. Além dos dois responsáveis pela segurança da área, há mais seis funcionários da Agepen (Agência Estadual de Administração Penitenciária) todos os dias. Eles, que não trabalham armados, dizem sofrer ameaças constantes e trabalhar apenas com a “psicologia”.
No local há uma pequena área onde foram plantadas hortaliças e milhos, mas poucos internos se disponibilizam a cuidar. Cinco são responsáveis por cuidar de porcos. A cada três dias trabalhados, eles têm um a menos para ficar presos. Mesmo com o benefício, 10 vacas são cuidadas por um vizinho da unidade no pasto do local.
São os próprios presos que fazem a comida, cuidam da manutenção hidráulica, elétrica e limpeza da unidade. Trinta e cinco prestam serviços à Prefeitura, 18 à Embrapa e cerca de 40 a empresas privadas. Esses têm horário para acordar. Os demais não.
Para evitar as evasões e as irregularidades, a Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública) realizou na semana passada uma operação na unidade. Foram encontrados diversos celulares (inclusive alguns em uma sacola plástica em cima de uma árvore), bebidas alcoólicas, capacetes, um revólver calibre 38, eletrônicos, documentos, HD de computador e até uma motocicleta furtada.
Vários presos foram flagrados voltando para a unidade após terem passado a noite fora e constatadas 37 evasões. O secretário de Justiça, Wantuir Jacini, foi pela primeira vez ao local e afirmou que unidade será desativa o mais rápido possível. Enquanto isso, continua a precariedade.
Os foragidos flagrados pela polícia voltam para o regime fechado. Alguns que se apresentam à Justiça até conseguem voltar para o semi-aberto, conforme determinação do juiz da Vara de Execuções Penais. Fugas fazem parte do cotidiano na unidade.
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