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Empresa recolhe remédio contra aids contaminado

23 julho 2007 - 10h35

No mês passado, a Roche Pharmaceuticals anunciou o recolhimento mundial do Viracept, um medicamento contra o HIV/aids, depois da descoberta de que algumas partidas do remédio foram contaminados com um agente carcinogênico devido a falhas no processo de produção em uma fábrica da Suíça.

Os pacientes devem suspender imediatamente o uso do remédio e adotar outros medicamentos, anunciou a Roche, apontando que a ordem afetava "a Europa e algumas outras regiões do mundo". Na Europa, a ordem não causou grande efeito, porque o remédio havia caído em desuso, substituído por alternativas mais novas e dispendiosas. Mas dezenas de milhares de pessoas usam o Viracept em todo o mundo, a maioria delas pacientes de aids pobres em países em desenvolvimento. Nesses luares, de acordo com especialistas em saúde e HIV, substitutos mais novos muitas vezes não estão disponíveis para os pacientes ou custam substancialmente mais caro.

No Panamá, por exemplo, o Kaletra, um dos remédios que substituiu o Viracept, custa 10 vezes mais caro que o produto anterior. Isso força os pacientes a uma escolha dolorosa entre abandonar o uso de um remédio que preserva suas vidas ou empregar um medicamento que contém um poderoso agente contaminante. A Roche, que faturou 42 bilhões de francos suíços (US$ 35 bilhões) ano passado, disse que cobriria os "custos razoáveis" de recolhimento, mas até agora os pacientes de programas de tratamento do HIV tiveram de arcar sozinhos com a diferença no custo dos remédios.

"A Roche forneceu informações, mas não houve muito apoio no que tange à cobertura dos custos adicionais", disse o Dr. César Nuñez, coordenador da Organização de Combate à Aids das Nações Unidas (Unaids) na América Latina. Funcionários da Organização Mundial de Saúde (OMS), em Genebra, e da Agência Européia de Medicamentos, em Londres, disseram que a Roche não havia fornecido informação que consideram essencial para a proteção da saúde pública: os países a que o medicamento contaminado foi exportado e o índice de concentração do agente de contaminação, bem como seu potencial efeito sobre os pacientes. A agência européia suspendeu a licença de comercialização do remédio pela Roche. O Dr. Lembit Rago, funcionário da OMS em Genebra, classificou a ordem de recolhimento como "uma espécie de desastre¿ para os pacientes de países pobres. "Foi uma falha de comunicação", ele disse, sobre a Roche. Caso a empresa tivesse revelado para que países o produto contaminado foi exportado, e que lotes eram suspeitos, a ordem poderia ter sido menos abrangente, disse Rago, coordenador de qualidade e segurança de remédios na OMS.

"Para a Roche, ordenar a retirada e substituição pode ser simples, mas não há muito em mãos para substituir o produto", em diversos países. "Nem tudo gira em torno da Europa", ele disse. Em resposta a perguntas encaminhadas por e-mail, Martina Rupp, porta-voz da Roche, disse que "pelo menos um pacote de Viracept contendo alto teor de impurezas havia sido despachado a 35 países". Mas ela se recusou a revelar os países, alegando que as normas da empresa proíbem a divulgação desse tipo de informação. Contaminação severa foi identificada "em lotes do Viracept distribuídos a outros países desde março de 2007", ela afirmou. A empresa determinou o recolhimento em todo o mundo "para evitar confusão", afirmou.

A Roche estimou que cerca de 45 mil pacientes foram afetados pela ordem. Rupp disse que a substância tóxica presente no remédio, o etilmesilato, deveria ser designada como "impureza", e não como contaminante, porque ela foi criada no processo de produção e esse tipo de produto químico costuma existir em pequena quantidade em outros remédios, ainda não devesse existir no Viracept. "A Roche considera que os riscos para os pacientes sejam baixos", afirmou a porta-voz. A empresa vem executando estudos sobre a questão, mas os resultados só surgirão "dentro de alguns meses", segundo Rupp. O etilmesilato, se presente em dosagem alta, causa câncer, de acordo com testes animais, e em concentração mais baixa causa mutações genéticas, mas os dados são extremamente limitados. O produto é especialmente prejudicial para crianças e mulheres grávidas.

O mercado mundial de remédios contra o HIV é complexo, com diferentes medicamentos disponíveis a diferentes preços em diferentes lugares. Os especialistas em HIV hoje preferem o Kaletra, produzido pela Abbott. Ele é parte da mesma categoria de medicamentos do Viracept, mas gera menos efeitos colaterais. Mas o medicamento ainda não foi licenciado em diversos países pobres e de média renda. Asia Russell, da Health Gap, uma ONG norte-americana que estuda o atendimento médico nos países em desenvolvimento, disse que "ao que parece, a Roche abandonou esses pacientes, já que em muitos lugares não existem alternativas imediatas". Na Venezuela, três mil pessoas estavam sob tratamento com o Viracept quando a ordem de recolhimento foi anunciada, e o efeito foi "severo", porque muitas delas não dispõem de outras opções, de acordo com Edgar Carrasco, um ativista de combate à aids em Caracas. Alberto Nieve, outro ativista, informou que a Roche prometeu doar outro remédio. "A maioria das pessoas continua à espera, e ainda não mudou de terapia, especialmente fora de Caracas".

A empresa vem insistindo em receber uma lista de pacientes que usavam o Viracept em seus tratamentos antes de realizar a doação, afirmou Nieve. Os usuários receberam poucas informações sobre o risco de contaminação, e foram encaminhados a um site de informações em inglês. A OMS e a Agência Européia de Remédios também dizem desejar mais informação.

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