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MEMÓRIA VIVA

Em 1988, eleição teve acusação de fraude e até “dedo” de Sarney

17 dezembro 2015 - 07h48

Num tempo conhecido como aquele em que o eleitor tinha “lado”, as disputas eram calorosas e as brigas pela defesa dos candidatos mais ferrenhas, Dourados teve a “briga” para o cargo de prefeito mais polêmica da história: a eleição de 1.988 entre Braz Melo e José Elias Moreira, o Zé Elias. De um lado aqueles que defendem que o pleito foi roubado e do outro, os que acham que isso é desculpa de quem perdeu. Nesta reportagem da série “Memória Viva” em comemoração aos 80 anos da cidade, o Dourados News vai contar os bastidores dessa disputa que com apenas 40 votos de diferença deu o cargo a Braz e foi até parar nos ouvidos de José Sarney, então presidente da República.

Em 1.988, Zé Elias já era um expoente político de Mato Grosso do Sul. Tinha sido prefeito de Dourados com boa popularidade, candidato a governador e exercia naquele período o cargo de deputado federal. Era um dos 10 coordenadores do Centrão, grupo de 280 parlamentares que votavam juntos no trabalho em prol da elaboração da Constituição Brasileira.

“O Centrão nasceu no meu apartamento. Eu não podia me ausentar”, conta Zé.Ele recebeu a visita do Walter Carneiro e Luiz Antônio, que foram em seu apartamento pedir para que fosse candidato a prefeito de Dourados alegando que o grupo político não tinha outro nome. Zé diz que alertou os colegas dizendo “não posso ser candidato, porque eu não posso arredar o pé daqui. É a final da constituinte e tenho compromisso”, relatou. Mas, os colegas insistiram, disseram que não precisava ir a Dourados que eles cuidavam de tudo. “Eu cai na bobagem de enfrentar, se eu tivesse tempo para fazer campanha seria diferente”, relata. Ele acabou fazendo apenas em torno de dois meses de campanha.

Mas, não era a toa que a equipe de Zé estava confiante. Segundo Braz Melo, quando a eleição começou – naquela época tudo acontecia mais cedo -, uma pesquisa de opinião feita em março de 88 colocava Zé com 62% das intenções de voto e ele com apenas 4%. “Ele se preocupou muito com a constituinte, já tinha sido candidato a governador, foi um bom prefeito para Dourados. E eu assim que saiu essa pesquisa comecei a trabalhar [na campanha]”, relatou.

Apesar de estar num grupo político de representatividade grande e apoiado por “figurões” da política sul-mato-grossense, Braz era um jovem e novato nessa área. Ele participava internamente de ações partidárias, mas nunca era o “cabeça” e também nunca tinha tido um cargo político. Porém, seu nome era conhecido, pois trabalhou na Sanemat (que era a empresa equivalente à Sanesul da época) no período de implantação do esgoto na cidade e atuou como engenheiro fazendo planta de bairros. Ele ainda foi candidato em eleição anterior, mas não se elegeu.

A POLÊMICA URNA 185

Os tempos eram outros. Naquela época, a urna eletrônica ainda não era usada. As cédulas eram de papel, o eleitor marcava um “x” no nome do prefeito que gostaria de eleger, e escrevia o nome ou número do vereador para o qual queria destinar seu voto. Incluía o papel na urna. A quantidade de votos era conferida pelos integrantes da mesa e fiscais, e a urna lacrada para ser levada à apuração e assinada pelos presentes.

Segundo a versão de Zé Elias, a lei diz que a urna sem lacre será nula e estabelece a dinâmica da apuração dos votos. O juiz deve pegar a urna, mostrar aos escrutinadores o lacre, a urna é aberta, os votos contados e o resultado proclamado, repetindo essa ordem sucessivamente.

Durante a apuração dos votos da polêmica eleição, eis que chega a hora da apuração da famosa urna 185 do bairro Parque das Nações. Conforme a versão de Zé Elias e seus aliados, essa urna estava sem lacre. Um delegado então que estava lá teria visto isso e pediu a impugnação da urna.

O juiz eleitoral teria dito que iria guardar a urna e ir para a contagem da próxima. O delegado teria o advertido e dito que não poderia fazer isso dessa forma. O juiz teria prendido o delegado, “ele saiu de lá no camburão da polícia”, conta Zé. Ele relata ainda que o juiz teria escrito “curuca” (termo usado como sinônimo de gírias como “rolo”, por exemplo) num papel, pegado a urna e colocado debaixo de uma mesa, passando para a apuração da outra. Quando terminou a apuração dessa forma, Zé Elias estava vencendo com apenas em torno de 50 votos a mais do que Braz.

Zé conta então, que o juiz mandou abrir a urna que estava com “curuca”. Na ata que vem acompanhada da urna relatando quantas pessoas foram votar, segundo Zé Elias, estava escrito que compareceram 217 eleitores e embaixo com letra diferente um “obs.: foram encontrados 316 sufrágios”. Conforme ele, a rasura da ata impugna a urna pela segunda vez. “Se compareceram 217, são mais de 90 votos a mais que apareceram”, relata. Com a contagem, desses, ele perdia a eleição por 41 votos.

Moreira recorreu ao TRE-MS (Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul). Conforme o político, o desembargador que ficou com o caso “sumiu” por pelo menos 15 dias para estudá-lo. Pediu então para falar com os escrutinadores, presidente de mesa e mesário. Moreira relata que consta no processo – que ele leu todinho - , que eles confirmaram que foram conferidos 217 votos, colocados em ata e entregues para apuração com lacre.

Preocupado, procurou Pedro Pedrossian, seu aliado, que conversou com um colega que era desembargador para pedir pelo caso de Zé. Ele teria dito assim: “esfria a cuca e pode deixar, que até engraxate em Campo Grande sabe que a eleição em Dourados foi roubada”, relatou. No dia da votação, Zé conta que um dos desembargadores pediu vista e depois “sumiu” em Campo Grande. Quando voltou votou contra. Ele perdeu por quatro a três no Tribunal.

O DEDO DO SARNEY

Para tentar derrubar a decisão no Estado, Zé teria que recorrer ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Procurou um famoso advogado à época chamado Célio Silva, que o disse se tratar de uma vergonha nacional, mas que a decisão sobre o caso seria política. Então, questionou sobre seu relacionamento com o então presidente Sarney, como Zé respondeu que era bom, orientou que ligasse para ele.

Quando Zé falou com Sarney em horário agendado, ele conta que o presidente teria logo dito “ô Zé Elias, te roubaram lá em Dourados?!”, o então parlamentar teria dito que sim e quando ia fazer um pedido ao presidente, ele logo teria dito “eu não posso te ajudar”, relatou. Zé insistiu dizendo que precisava apenas que o processo subisse para o tribunal e fosse julgado nessa instância superior.

Mas, Sarney logo o alertou que não podia fazê-lo, citando nomes de políticos influentes ligados ao Braz, que haviam falado com ele no dia anterior e pedindo para “não mexer com nada de Dourados, nem que sim, nem que não”, teria relatado. Como esses eram na época integrantes do partido do presidente, ele disse que não poderia fazer nada por Zé.

Moreira então pediu para suspender o andamento processual. “Nós perdemos no tapetão, essa é a verdade mais pura. Se você vier daqui 10 anos, vou contar a mesma história porque quando a gente fala a verdade, ela nunca escapa da memória”, relata.

BRAZ E SEUS ALIADOS NEGAM TUDO

Braz Melo e seus fervorosos defensores dizem que a eleição não foi roubada ou que não teve qualquer tipo de fraude que impugnasse a urna 185. Ele conta que fez muita campanha no Parque das Nações, já que ele assinou a planta de criação do bairro quando engenheiro e levou água através da Sanemat. Ele sabia que sua popularidade era alta naquele bairro. “Eles [equipe do Zé] deixaram para trabalhar o Parque por último”, relata Braz.

Conta que “o Parque das Nações era como se fosse o Cachoeirinha da época. Era terra de bandido, entendeu? Porque a discriminação é sempre feita pela periferia, sempre o pessoal da periferia é o mais fraco e eu trabalhei muito no Parque das Nações”, relata Braz.

Relata que quando os adversários viram que eleição estava apertada, pediram a anulação da urna 185 que era de um “reduto” do Braz. “A urna estava lá, foi feita a contagem e como eles [equipe do Zé] viram que realmente estava sujeito a perder por causa do Parque das Nações, pediram o cancelamento da urna. É chiadeira”, relata. Reforçou que não havia qualquer anulação ou fraude e justifica isso dizendo que ganhou os processos na justiça em todas as instâncias.

“Eu já fiz muita coisa errada, mas isso eu não fiz. Disso eu estou perdoado. A eleição foi difícil, ele [Zé] foi um grande prefeito, depois um grande governador e de repente perde para um rapaz novo. Mas, é isso aí”, relata Braz.

VITÓRIA SEM ALEGRIA

Apesar de sair vitorioso, Braz conta que não teve alegria naquela eleição apesar de ganhar por 41 votos. “Sabe aquela alegria do time campeão? Eu não tive essa alegria”, relata. Diz que o pleito foi muito apertado e que Dourados tinha problemas seriíssimos como o da educação, já que 10 mil crianças estavam fora da escola, e uma constituinte nova que não se sabia ainda o que poderia vir de recurso.

Com eleição, veio também o peso da responsabilidade ao jovem que ainda não tinha exercido um cargo eletivo. “Tudo me deixou muito ansioso. Além da eleição em si, depois da eleição o planejamento de Dourados. Ele se trancou três dias na prefeitura para planejar o que faria.

AGORA ALIADOS

Adversários em mais de uma campanha e protagonistas dessa polêmica, Braz e Zé Elias estão agora juntos num novo projeto político. “Deixamos as picuinhas do passado. Braz foi um bom prefeito”, relata Zé, lembrando que se uniram com o objetivo de oferecer um projeto para Dourados.

A primeira conversa surgiu num velório, segundo Braz. Ele questionou ao Zé se não estava na hora de “mexerem um pouco o doce”, pois Dourados estava sem representatividade política forte. Os dois relataram que foram procurados por pessoas que pediam para que voltassem. Decididos foram “procurando os velhos” da política, como disse o Braz, e será pesquisado qual o melhor nome para oferecer como candidato.

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