Na noite de sábado, à véspera da eleição que pode acabar com a hegemonia de 64 anos do centro-direitista Partido Colorado na presidência do Paraguai, o clima predominante na fronteira com o Brasil é de inquietação. No comitê eleitoral em Pedro Juan Caballero (cidade de 77 mil habitantes), após às 22 horas os partidários da colorada Blanca Ovelar ainda faziam os últimos preparativos para a disputa.
A reportagem do Campo Grande News foi recepcionada com desconfiança pelos partidários. Em uma sala pouco iluminada e acompanhado de dois partidários que se colocaram de pé, ao lado da mesa dele, o presidente da Juventude Colorada, Carlo Machaca, afirmou que espera uma eleição “tranqüila” neste domingo e disse que o Paraguai está diante de uma oportunidade única. “O Paraguai tem uma história de 800 anos e nunca teve a oportunidade de ter uma mulher como presidente”, afirmou.
Conforme os colorados, a boca-de-urna será permitida, mas restrita a três horários. Nestes momentos, os cabos eleitorais poderão abordar os eleitores e mostrar cópias dos boletins de voto, as cédulas eleitorais. Os paraguaios irão escolher além do futuro presidente, seus representantes no Congresso, governos departamentais e deputados. “Ou você é Cerro Portenho ou Olímpia. Na eleição é mesma coisa, ou você é Colorado ou é oposição”, diz o chapeiro Antonio Vitorino da Silva, de 40 anos, que é brasileiro de nascença, mas naturalizado paraguaio, onde reside há 20 anos.
Se desejar, ele pode participar da eleição neste domingo, mas não se sente muito animado com os candidatos que estão na disputa. “Eu tenho até as 16 horas para decidir. O meu local de votação fica a duas quadras da minha casa, mas acho que eu não vou não. Minha esposa e minha avó de 86 anos vão votar”, afirma. A esposa dele é colorada; ele não.
O frentista Francisco Cardoso, de 21 anos, votará no ex-golpista Lino Oviedo, da Unace (Partido da União Nacional dos Cidadãos Éticos). “É hora de mudar, Blanca é cunhada do presidente (Nicanor Duarte)”, afirma. Do outro lado da fronteira seca, em Ponta Porã, o clima é visivelmente mais descontraído. Mas os brasileiros também têm as suas opiniões e estão divididos com relação à eleição. O agricultor Valmir Cerut diz que a eleição “promete uma mudança radical”, mas que gostaria que o Partido Colorado continuasse no poder para evitar um desentendimento com o Brasil.
Outro agricultor, Julio Silva Prado, de 45 anos, diz que está na hora dos colorados deixarem o poder. “Temos que mudar, já que é democracia. Em outros países onde o mesmo grupo se perpetua no poder vemos que não é bom”, afirma Ao tomar conhecimento que os paraguaios irão deixar as urnas eletrônicas de lado nas eleições de domingo para fazer uso das cédulas de papel, Prado demonstra desconfiança. “Tenho minhas dúvidas sobre as eleições sem as urnas (eletrônicas brasileiras), elas dariam transparência ao processo”, afirmou.
O Paraguai possui 5,6 milhões de habitantes; 2,8 milhões podem participar da eleição. O candidato da oposição e ex-bispo Fernando Lugo (APC) lidera as pesquisas de intenção de voto.
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