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Eleição: a “unanimidade” colocada a nu

09 fevereiro 2011 - 08h33

O local escolhido por “DEM-PT” para a comemoração da eleição (publicada neste jornal, em 06/02/2011, 20:23h) é significativo: um dos principais restaurantes da classe média e alta de Dourados. Depois de uma campanha em meio a gentes e lugares de todo o tipo, é certamente merecido um chopp gelado e um frango a passarinho, afinal, a eleição foi “de matar”!
 
Mas os números da eleição são emblemáticos e por isso talvez nos caiba pensar sobre eles.
A abstenção de 27,39% é expressiva. 39.146 pessoas não votaram, e certamente nem todas elas estavam fora da cidade (em 2008 a abstenção foi de 15,16%, ou 20.182 votos – um aumento, portanto, de 93,96%). Se forem somados os votos brancos e nulos da eleição 2011, este número chega a 50.720 votos! Aliás, se comparados os números de votos brancos e nulos da eleição de 2008 para esta, constatamos um aumento de 98,7% (de 6.328 para 12.574)!
Os 70,11% de votos válidos para a coligação “DEM-PT” são expressivos, sem dúvida. No entanto, devemos atentar para as votações dos outros três candidatos, que juntos somaram 17,46% dos votos válidos (17.655 votos). Se os números podem ser poucos em relação à votação do candidato vitorioso, eles devem ser analisados no interior das relações de poder político, eleitoral, econômico e midiático. Mesmo com todo o poder concentrado em “DEM-PT”, os candidatos Geraldo Sales (PSDC), com 12,25%, Genival Antonio Valeretto (PMN), com 3,16% e José de Araujo Oliveira (PSOL), com 2,05%, dão indicativos claros de uma contestação em uma eleição que pleiteava a unanimidade.
Em 2008, os candidatos Murilo e Biasotto somaram juntos 61.435 votos; agora, a coligação que uniu “DEM-PT” somou 70.906 votos, ou seja, um aumento de 15,4%. É evidente que não podemos concluir que houve uma transferência simples de votos de 2008 para 2011, pois a conjuntura é outra, mas é expressiva a diferença dos percentuais entre os dois pleitos: se “DEM/PT” subiram apenas 15,4%, a abstenção subiu 93,96%, enquanto votos brancos e nulos aumentaram 98,7%.
É claro que os números não falam por si mesmos... Mas, se em 2008 a eleição foi marcada por uma tripla polarização (Artuzi, Murilo e Biasotto), e se a de agora teve como centralidade certa concepção de “candidatura única”, a grande abstenção, o aumento inequívoco dos votos brancos e nulos e a votação dos outros candidatos, neste último pleito, atentam para reflexões importantes.
Do total de eleitores em Dourados, “DEM-PT” tiveram os votos de exatamente 50,9%. A metade da população, portanto. Mas quem é essa metade? E, da mesma forma, quem é a outra metade? Quem “DEM-PT” agregaram de 2008 para 2011? E os eleitores de Artuzi, como se comportaram? Aliás, isso é importante para quem assumir a Prefeitura em março?
O buraco é ainda mais embaixo, obviamente. No “mesmo do mesmo” de 2008 para 2011, a metade do eleitorado douradense disse “não” a “DEM-PT”. É certamente impróprio afirmar que isso significa a expressão de uma oposição importante, ao mesmo tempo crítica e propositiva sobre as principais questões que Dourados deve enfrentar nestes dois próximos anos. Mas a metade da população não deve ser desprezada.
Como “DEM-PT” lidarão com o “espólio” de Artuzi, fundado em práticas clientelistas, assistencialistas e corruptas? O argumento de que Murilo tem experiência empresarial é cômico, para não dizer ridículo, pois “experiência empresarial” até Fernando Collor de Melo tinha! Como será a relação com a vereança, a maior parte dela marcada pelas relações “estranhas” com Artuzi? Se “DEM-PT” terão maioria esmagadora na Câmara, como construir canais para a efetiva fiscalização dos recursos e investimentos que serão realizados pelo Paço Municipal? Estão dispostos “DEM-PT” a construir uma Política para além do “mesmo no mesmo”? Como construir uma comunicação direta com a população, em especial com os 50% que não se curvaram à “unanimidade” DEM/PT? Aliás, estão “DEM-PT” dispostos a pelo menos ouvir o não-“DEM-PT”?
Sobretudo, mais que a espera do que “DEM-PT” fará ou não fará, como que a metade da população douradense construirá os meios e instrumentos para se fazer ouvir, se fazer ver e se fazer agir frente à “unanimidade” não-unânime? Pois, se as urnas foram “dádivas” para “DEM-PT”, elas foram ainda mais fundamentais para os setores que entendem que outro modo de política é possível, ao indicarem que a metade não-unânime ainda vive, como “uma fisgada no membro que já perdi” (como canta Chico Buarque em “Pedaço de Mim”).
A grande tragédia não é, certamente, o vizinho dizer, na noite do dia da eleição, que esqueceu de votar! Tragédia maior é quando uma eleição é marcada não necessariamente pela desesperança ou pelo medo, mas pelo esquecimento de que um dia fomos capazes de sonhar que Dourados poderia ser melhor... Enquanto em nossa cabeça o “rosto” da política embaralha os dentes do DEM, as mãos do PMDB, a gargalhada do Artuzi e as olheiras do PT.


 
Jones Dari Goettert
Morador de Dourados. Membro da Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB Seção Dourados. Professor de Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados.

Marcelo Batarce
Morador de Dourados. Professor de Matemática da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (Campus de Dourados).

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