O Dourados News inicia a semana com mais uma série de matérias especiais, desta vez o tema é a prostituição. São três histórias e dois personagens que relataram suas vidas à nossa reportagem. A primeira matéria é sobre Larissa*, uma jovem que após não ter o que comer, viu no sexo pago, a maneira de sustentar o filho, hoje com 10 anos.
Confira a primeira reportagem da série:
Aos 27 anos de idade, Larissa* é uma bela morena, corpo cheio de curvas tipo “violão”, simpática, inteligente e batalha muito para garantir um futuro melhor para ela e o filho de 10 anos de idade. Ela pode muito bem estar sentada ao seu lado numa sala de aula da faculdade que frequenta em Dourados, já que se dedica a cursar direito. Mas, por viver numa sociedade ainda muito preconceituosa, você não sabe que essa mulher ganha a vida como garota de programa.
Hoje, Larissa mais dança do que 'vende o corpo' nas famosas boates em que trabalha e pode escolher com quantos e quais clientes vai para a cama. Cobra R$ 400 pelo programa, praticamente o dobro da média. O que deixa seu serviço mais caro? Um conjunto que inclui experiência, beleza e sua performance no palco que acaba atraindo admiradores.
“Quando o cara olha a mulher dançando, ele diz ‘eu quero aquela’ e isso tem um preço”, conta. Como prefere dançar e beber ao invés de ir para a cama com desconhecidos, Larissa se especializou nisso. Fez cursos de vários tipos de dança para se apresentar.
Pelo espetáculo, ganha um valor fixo da casa. Pode ainda fazer mais de uma apresentação custeada pelos clientes. “Eu chego neles e pergunto se pagariam para que eu fizesse mais um show, e eles pagam”, conta.
Ela ainda recebe para levar o cliente a beber. De tudo o que ele consome, cerca de 20% fica com a garota e a outra parte do valor para a casa. É com isso que a boate lucra, já que não recebe porcentagem pelos programas ou pelos shows. “Teve uma época em que bebia muito, porque bebendo eu também ganhava sem precisar fazer o programa”, relatou.
Foi o tempo e o amadurecimento que fizeram ela lidar com o dinheiro que chega diariamente em suas mãos. Hoje, trabalha de três a quatro vezes na semana, faz o próprio salário e tira em média R$ 5 mil por mês.
A maioria dos clientes que atende são homens acima de 45 anos de idade e casados. “Os ‘peleguinhos’ só vão à boate para ver e beber mesmo”, conta ela. São homens que tem recursos para pagar o preço que ela cobra, empresários e médicos, por exemplo, estão entre eles.
“Hoje eu posso dizer que sou fria com relação a isso. Anoto os nomes de quem eu saí para ter um controle, mas não tenho sentimento algum”, conta, lembrando que nem sempre foi assim. Larissa já chorou muito, presenciou violência contra colegas de profissão, garotas trocando programa por droga e muito mais. Ela ainda é constante vítima de preconceito e luta se organizando para deixar essa vida na qual um dia entrou por necessidade.
Mas, o que leva uma jovem a se tornar uma garota de programa? No caso de Larissa a reviravolta em sua história que culminou nessa realidade começou quando tinha apenas 15 anos de idade e morava numa cidade do interior do Mato Grosso que na época não chegava a 50 mil habitantes.
“CRENTE”
Ela participava bastante das atividades de uma igreja evangélica, era inclusive de um dos ministérios e tocava órgão eletrônico nos cultos. “Minha mãe jogou minhas roupas fora e queria que eu usasse aquelas roupas de ‘crente’, saia até debaixo do joelho, não cortasse os cabelos, nem depilasse as pernas. Imagine eu adolescente chegando desse jeito na escola? Eu gostava de usar shortinho, como as outras meninas usavam. Eu não queria ser ‘crente’, me vestir de ‘crente’. Ela era muito rígida e queria me obrigar a isso”, relatou.
Se sentindo oprimida, decidiu aceitar a oferta e se casar com o namorado. Com ele, teve um filho e tudo corria bem, até o marido se tornar um alcoólatra. Ela ainda tentou ajudá-lo a sair dessa, mas enfrentava uma sogra que ‘passava a mão na cabeça dele’ e queria fingir que estava tudo bem. O estopim para ‘fugir’ da relação foi quando ele a agrediu. “Meu pai nunca ia à minha casa porque não se dava bem com meu marido. Bem nessa hora ele apareceu e foi a sorte”, disse.
FOME
Após a agressão, Larissa decidiu arrumar um emprego. Ganhava R$ 130 por mês numa farmácia para trabalhar todos os dias – de domingo a domingo –, das 7h às 12h limpando o chão. Quando recebeu o primeiro salário, deixou a casa em que morava com o marido numa chácara.
Após cinco meses trabalhando foi promovida a caixa, ganhava R$ 465 (salário mínimo na época) e trabalhava das 7h às 19h, com uma hora de almoço. Mas, o dinheiro mal dava para pagar a babá com a qual deixava o filho e comer. Além disso, não podia dar um passo sequer, que o ex-marido não a deixava em paz. Até batia nos namorados que ela arrumava.
Diante disso, foi embora da cidade com o filho. Mudou-se para Sinop (MT), que na época tinha pelo menos 75 mil habitantes. Conseguiu emprego numa conveniência e ganhava R$ 578. Com o salário, ela pagava R$ 200 para a babá do filho, R$ 220 de aluguel. Sobrava muito pouco para pagar as outras despesas básicas e alimentação. “Eu comprava para ele [filho] comer e se sobrasse dele, eu comia”, conta. “Na conveniência eu comia resto dos lanches que o pessoal deixava. Cortava a parte mordida e comia o resto escondido, para não passar fome”, disse.
AS BELAS GAROTAS
Foi nessa etapa da vida que conheceu o universo da prostituição. Clientes da conveniência, garotas de programa sempre apareciam por lá bonitas, sorridentes e muito bem vestidas. Fizeram amizade com Larissa e sempre a convidavam para ir à boate no período da tarde - fora do horário de expediente – para conversar e tomar banho de piscina. “Elas não me chamavam para programa, era para papear mesmo. Eu sempre falava ‘pode deixar que eu apareço por lá’, mas nunca aparecida”, conta ela.
Certo dia, Larissa chegou em casa depois do trabalho. A casa que ela alugava havia sido furtada. “Eu digo que levaram tudo, mas o nosso tudo era pouco. Um fogão, uma cama e até as bolachas que tinha lá para a gente comer eles levaram”, relatou. Ela ficou sem chão, desesperada.
Poucos dias depois, saiu a pé para ir à casa de uma tia do ex-marido que a ajudava bastante em Sinop. Quando voltou, sua moto havia sido furtada. Era com o veículo que ela conseguia levar o filho à babá e seguir para a conveniência. “O chefe da conveniência ‘mandou’ eu me virar e disse que não ajudaria nem com o passe e lá é tudo muito longe”, disse ela. Larissa procurou outros empregos, mas quando encontrava eram inviáveis.
A PROSTITUIÇÃO
Se sentindo ‘no fundo do poço’ e desempregada, lembrou das clientes da conveniência e decidiu ir até elas. Chegou à boate com uma roupa simples e mal sabia se maquiar. “Elas me levaram para um quarto, foram muito gente boa comigo, me arrumaram e me maquiaram. Eu nunca tinha ficado tão maquiada, porque não passava nada. Foi muito estranho, eu nem sei explicar como me senti”, disse. Naquele dia, ela só observou como tudo funcionava.
“No dia seguinte eu decidi: ‘hoje eu vou, mas hoje eu vou para trabalhar’”. Se vestiu de coragem e seguiu novamente para a boate. Logo no primeiro dia, saiu do local com R$ 300. “Era quase o que eu demorava um mês para ganhar. Na situação em que eu estava, decidi que iria fazer aquilo”, relatou.
Em pouco tempo começou a ver na boate os amigos que fez quando trabalhava na conveniência, que era anexa a um posto de gasolina. Colegas de trabalho, o ex-patrão e os clientes do empreendimento apareceram. Nem sempre dava tempo de se esconder. Por isso, não ia todos os dias à boate, apenas quando precisava de dinheiro. “Muitos chegavam em mim e perguntavam: ‘porque você está aqui? Porque você fez isso?’”.
A MUDANÇA
Foi neste período que uma das colegas que comprava produtos em Pedro Juan Caballero (PY) para revender em Sinop, a convidou para vir junto à fronteira entre Brasil e Paraguai em Mato Grosso do Sul, assim podiam conseguir mais itens e dividir os lucros. Larissa demorou dias para chegar vindo de carona em caminhão. No caminho de volta, deixou a amiga seguir viagem sozinha e decidiu ficar em Dourados para fazer algum dinheiro.
Na cidade, entrou num taxi que pegou logo na rodoviária e deu a seguinte indicação: “me leve até a melhor boate aqui de Dourados” e ele a levou. Ela só tinha a roupa do corpo e mais algumas peças que estavam numa sacolinha de plástico. No bolso R$ 23, menos que o valor da corrida de taxi que deu R$ 25. O dono da boate que a recebeu bem, pagou o taxista.
Na primeira vez em Dourados ficou 15 dias, só neste período ganhou R$ 3 mil. “Eu nunca tinha visto tanto dinheiro assim”, disse. A partir daí, ficava temporadas em casa com o filho e outras em MS trabalhando. Optou então pela mudança definitiva, vendeu o pouco que tinha e trouxe consigo o filho e um saco de panelas.
“Contei para a minha mãe exatamente o que eu ia fazer quando me mudei. Ela já não era mais tão rígida como antes e me pediu uma única coisa: para eu mesma criar o meu filho. Ela tinha medo que eu o desse, algo assim. Mas, eu sempre o criei, nunca o abandonei”, disse.
ILUSÃO
No começo, Larissa se deslumbrou. Morava na boate, pagava escola particular e uma babá para ficar com o filho. Em quatro meses comprou a vista uma moto que tem até hoje. “Eu saia e me sentia ‘a rica’, todo mundo era amigo, bebia, saia para a balada. Tinham homens que passavam e buscavam as meninas para festas na fazenda. Eu me iludi”, disse.
Larissa ‘ostentava’. Almoçava todos os dias no shopping, estava sempre no cinema, jantava fora. “Coisa simples, eu sei, mas para mim era muito porque eu nunca cheguei nem perto de ter isso”, contou. Ela conta que tinha dinheiro todos os dias e picado, então não dava valor.
Foi quando percebeu que pouco via o filho e não estava construindo nada. Colocou os pés no chão e decidiu dar um rumo a sua vida. Hoje mora de aluguel em Dourados porque não pretende ficar aqui, quer voltar à sua cidade natal onde tem uma casa própria. Também está terminando de pagar o consórcio de um carro e mais uma moto.
Depois que pegar o registro da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) nas mãos quer advogar e prestar concurso público. “Para eu ter uma vida social normal, não dá para ficar aqui”, disse ela, que é comum ver em restaurantes mesas com rodas de homens que já a viram na boate ou até saíram com ela, cochichando e contando para os colegas da mesa.
O preconceito ainda é grande e desde que chegou a Dourados, há cinco anos, ela não tem relacionamento sério com ninguém. “Se fico e depois conto, sei que vai dar m...”, disse. É ainda de poucos amigos e nem todos sabem de sua profissão. O filho apenas uma meia verdade: que a mãe é dançarina. Para o pai, ela nunca contou, mas acha que ele sabe.
“Eu entrei nessa vida por necessidade, que por um tempo se aliou à ilusão de que tudo era fácil. Hoje me acostumei, mas conto os dias para sair e ter uma vida social normal”.
O nome é fictício para preservar a identidade da fonte*
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