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'Culpado até que se prove o contrário?', por Wilson Rodrigues

09 abril 2008 - 15h55

Nunca escrevo sobre assuntos recentes, ou que ainda estão se desdobrando. Já vi jornalistas experientes deixando-se levar pelo "calor" ou pelas subjetividades da interpretação, baseada nos próprios valores e princípios, e escrevendo grosserias estapafúrdias e tolices ingênuas - sorte deles que seus nomes são grifes jornalísticas. Com o advento dos blogs, esse jornalismo fast food tem sido cada vez mais comum. O reinado do achismo.
Nessa semana, vou abdicar do meu hábito, e escrever sobre o caso Isabella Nardoni.
Há uma premissa jurídica fundamental que diz o seguinte: TODOS SOMOS INOCENTES ATÉ QUE SE PROVE O CONTRÁRIO. E esta premissa está sendo deturpada, violada brutalmente. Isso é tenebroso. Alexandre Nardoni, o pai da menina Isabella, assassinada cruelmente e jogada do sexto andar do prédio onde seu pai morava, está sendo culpado até que se prove o contrário. Isso é, sim, julgamento sumário, precipitado, que poderá trazer conseqüências irreversíveis para a vida de toda uma família que já sofre com a morte da criança.
Que os indícios são, ao mesmo tempo, misteriosos e significativos, não há dúvida; de fato depõem contra o pai e a madrasta. Como não há dúvida de que as contradições e desencontros de versões dos acontecimentos da noite do crime são igualmente desfavoráveis ao casal.
Uma coisa é certa: quem quer que tenha cometido o crime, não cometeu o crime perfeito. Pelo contrário, cometeu um crime absolutamente imperfeito, e mesmo que as nossas perícias não sejam nada comparadas às perícias do seriado CSI, as pistas, falhas e rastros deixados no local falarão por si só.
Porém, sob outro prisma, vamos fazer um exercício mental: e se fosse com você? Se, de repente, você descobrisse o seu filho morto, e, em seguida, se tornasse o principal suspeito de tê-lo matado? Veja bem: você se conhece, sabe quem é, um cidadão de bem, honesto, zela pelo bem-estar da sua família, mas, mesmo assim, vê todos os dedos acusatórios sobre você. A sociedade, culpada pela violência e, ao mesmo tempo, vítima dela, quer um show de vingança, quer a aplicação imediata do código de Hamurabi. A sociedade quer sangue na arena. E quer o seu sangue. Você é culpado até que se prove o contrário. Inverte-se o ônus da prova. Agora, caso seja muito peso para a sua consciência, então imagine o seu pai, sua mãe, seu filho, seu irmão sendo acusados de cometer um crime brutal. Acusados não, culpados antecipadamente.
Da mesma forma que é fácil se colocar na pele da vítima, é quase impossível se colocar na pele do culpado. É uma tendência natural do ser humano. Quase instinto. Algo como nossa tendência a se identificar com os vencedores, e nos afastar dos derrotados. Mas se você tem fé em algo, reze para que esse algo lhe proteja da situação de ser acusado de um crime que você tem certeza de que não cometeu.
Nenhuma artimanha salvará o culpado por esse crime nojento. Tudo será esclarecido, provavelmente até fim da semana que corre. A mentira é infinitamente menor do que todos as evidências deixadas na cena do crime. Não haverá justificativas. Seja de que parte for que tenha sido cometido o crime. Não existe justificativa para nenhum assassinato; muito menos de uma criança de cinco anos, ingênua e indefesa. Mas, no momento, não há culpado. Há inocentes, até que se prove o contrário.
Wilson Rodrigues Carvalho, 34, é escritor. escribaoculto@yahoo.com.br
 

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