A crise econômica pela qual passa o Brasil não vai acabar este ano. A percepção geral é a tendência de uma recuperação só para 2017, segundo o economista Enrique Duarte Romero. Ele acredita que as linhas de crédito liberadas para vários setores da economia pelo governo são um aspecto positivo, porém uma ação tímida, já que os valores são poucos para enfrentar a crise.
Para ele, uma questão que precisa melhorar para o cenário econômico é o ambiente político. A indefinição, se a presidente Dilma Rousseff (PT) fica ou não no cargo, está muito atrelada à situação econômica do país e isso precisa mudar um pouco. A questão é que os empresários, tanto os grandes quanto os pequenos, precisam vislumbrar um futuro para ter segurança ao investir. “Se eles têm uma confiança, uma definição sobre o futuro, eles fazem os investimentos. Se não, eles vão aguardar, para ver o que acontece”, explica o economista.
Romero acredita que a recuperação de outros países, com exceção da China, pode colaborar para que a situação do Brasil não fique ainda pior este ano. A inflação também deve ser menor este ano. Porém, qualquer das melhoras não deve ser significativa, ou seja, os prejuízos serão menores, mas ainda vão existir.
Para os consumidores endividados, o momento é e renegociação para não “parar” nesse momento de crise. Já para o douradenses que pretendem fazer investimento a longo prazo, a hora de cautela. Ele recomenda que quem possui dinheiro “parado” na poupança, é um bom momento para investir pois os preços estão caindo. Já quem depende do salário e pretende comprar um bem como casa ou carro de forma parcelada, deve aguardar e não comprometer o salário numa época de crise, em que o emprego pode deixar de existir amanhã.
O economista ainda dá orientações sobre como lidar com as finanças nessa época e explica porque a alta do dólar não é nada interessante para os consumidores. Até mesmo o “pãozinho” de cada é afetado pela moeda americana tão alta.
Entrevistado da Semana do Dourados News, Romero, tem 50 de idade e nasceu em San Pedro, no Paraguai. Mudou-se para o Brasil para cursar economia na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande. É mestre em economia política pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e atualmente doutorando em História Econômica na USP (Universidade de São Paulo).
O economista é professor e pesquisador da Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), estando afastando da docência para escrever a tese de doutorado.
Ele ainda é vice coordenador do projeto “Índice de Cesta Básica do Município de Dourados”, foi coordenador técnico da pesquisa “Perfil Socioeconômico de Dourados nos anos de 2012 e 2013” e atualmente está no projeto de pesquisa “Logística do Mato Grosso do Sul e a união de diferentes modais”. Ele também já participou de livro e tem vários artigos publicados.
Confira a entrevista na íntegra:
Dourados News – Como o senhor avalia a situação econômica do país hoje, comparado com 2015? Qual é o momento que o país está passando?
Enrique Duarte Romero - Começamos 2016, eu diria continuidade de 2015. A percepção geral é que essa crise vai levar 2016 ainda, que a tendência de recuperação é só para 2017 e o ano que vem ainda de ajustes. Pelo menos um aspecto positivo vem da semana passada, que foi a atitude do governo diante da crise de liberar R$ 82 bilhões em crédito para vários setores da economia. Mas, eu considero tímida, porque diante da crise é muito pouco para enfrentar. Outra questão que a gente precisa para o cenário econômico é o ambiente político. Nesse mês de fevereiro temos que decidir a situação política: a presidente fica ou não fica? Se existir uma ruptura, essa crise não vejo que vai terminar. E, porventura, se ela permanecer a tranquilidade volta, porque o empresário já sabe a forma de agir dela, a tendência é voltar [a melhorar] ou pelo menos diminuir [a crise], sabe que não vai ter mudança e vai ter a iniciativa de investimento. Agora a questão está muito ligada com a política, está muito atrelada, a gente precisa tirar um pouco isso. Na economia, os investidores, os grandes empresários, que vão investir hoje vislumbram o futuro. Se eles tem uma confiança, uma definição sobre o futuro, eles fazem os investimentos. Se não, eles vão aguardar, para ver o que acontece.
D.N. – Para detalhar um pouco mais como vai ficar este ano, a crise pode se intensificar mais ou a tendência é melhorar?
E.D.R - A questão inflacionária, questão de preços, existe uma projeção de inflação menor comparado ao ano passado, mas ainda não vislumbro uma recuperação. Mas, pior do que está eu não consigo apostar ainda. Mas, tem uma questão. Nós temos um problema, que o nosso principal parceiro, a China, começou muito mal este ano. A china é o principal país que está comprando produtos do Brasil, então nesse aspecto a gente deu esse azar. Os demais estão se recuperando, a Europa está se recuperando, os Estados Unidos estão se recuperando, a vizinha Argentina parece que está se recuperando. A Argentina é uma parceira comercial importantíssima do Brasil, com o novo presidente [Mauricio] Macri as expectativas estão melhorando por lá e isso é fundamental, a expectativa positiva. Um pouco diferente do Brasil, que a expectativa não é das melhores. Tirando China, está tendo um ambiente de recuperação [em outros países] e eu acho que isso colaboraria para que a situação não piore mais do que está, para que se equilibre. Não vejo pior que ano passado.
D.N. - Neste começo de ano, tem se falado menos de desemprego se comparado ao ano passado, quando o assunto fazia parte do dia-a-dia; o dólar já ficou abaixo de R$ 4 esta semana e a tarifa de energia teve uma pequena redução. Como podemos interpretar isso? É sinal de que as coisas vão melhorar?
E.D.R - Energia elétrica é uma sinalização. O clima nesse aspecto está colaborando e eu tenho uma percepção de que melhora. Só que o que é essa melhora? Falando o português mais claro, a perda tende a ser menor este ano, o prejuízo menor, uma crise não do mesmo tamanho do ano passado. Mas se a gente perdeu 100 e este ano vamos perder 90, não tem melhora significativa. O ajuste vai continuar e a partir de 2017 começa a melhorar. Quanto ao desemprego, apesar dos números negativos, o setor agropecuário foi o único em que houve mais contratações do que demissões e isso é o forte da economia daqui, do Estado e da região de Dourados. Acho que isso vai colaborar um pouco.
D.N – Falando em agronegócio, estamos próximos da colheita da soja, que apesar da chuva teve alta produtividade. Até que ponto ainda somos impactados economicamente pela agricultura? Isso vai ser bom nesse cenário para nós?
E.D.R - A questão é os produtores de soja, com muita chuva tem prejuízo e não consegue colher. Então nesse aspecto, portanto, o clima é bom pra encher os reservatórios, mas pra nós que dependemos do clima para colher nossa soja, não é bom nesse aspecto. Então se não tiver uma melhor substancial do clima, acho que tende a impactar negativamente também. A gente sabe que ao sair a soja, coloca o milho e o setor agrícola é muito importante. A grande agricultura gera emprego diretamente no plantio ou na colheita, mas geralmente muito pouco. É a cadeia da soja e do milho que gera outros empregos, o esmagamento da soja, o milho a mesa coisa, a fábrica de ração, aí que fica importante e interessante. Lá diretamente no plantio e na colheita é pouco emprego, mas após sair de lá, chega às empresas, tem grandes empresas esmagadoras, fábrica de ração, frango também, então nesse aspecto gera emprego aqui.
D.N – Apesar da baixa, o dólar continua alto. Quem se beneficia e quem sai perdendo com isso?
E.D.R. - Tem dois lados, então vamos avaliar os dois. No princípio, os grandes beneficiários são os exportadores, porque os produtos nossos lá fora ficam mais baratos, então para o exportador isso é interessante. Para os consumidores, o seu caso, o meu caso, por exemplo, que sou consumidor, não me interessa muito o dólar valorizado. Mas, por quê? Vou te dar dois exemplos. O pãozinho de cada dia é dólar, porque eu compro trigo para fazer o pão e para comprar o trigo eu preciso de dólar. Um dólar mais elevado significa também elevação dos preços dos produtos importados, exatamente o oposto das exportações. O dólar valorizado encarece os produtos que a gente importa, como farinha de trigo. Nós ainda dependemos muito da farinha importada. Apesar da queda dos preços do petróleo fora, o petróleo também é dólar, então o combustível é cotado em dólar e sofre impacto direto também, por isso tem que mensurar bem. É bom ou é ruim? É bom pra os exportadores e é ruim pra os consumidores, por causa dos produtos que a gente consome e que não é tudo nacional, tem componente estrangeiro. Também tem a inflação, porque eleva preço [dos produtos] e a inflação é o índice de preço, por isso é ruim dólar elevado. A esse patamar é prejuízo para consumidor. É bom para um setor específico que é a exportação e a exportação é apenas um setor.
D.N - Muito da nossa soja e milho é exportado, mas tem o que fica aqui dentro do país, esse também fica caro?
E.D.R. - Também é cotado em dólar, porque é cotado na moeda forte. Essa é a questão, mesmo o que fica no mercado interno, fica mais caro.
D.N. - Diante desse cenário em que tudo está mais caro e o poder de compra comprometido, o que deve fazer o douradense que pensa em adquirir este ano um bem significativo que vai gerar um comprometimento longo da renda, como uma casa ou um carro, por exemplo? Qual conselho para ele?
E.D.R. - Também tem dois lados. Se ele está com o dinheiro na poupança, eu falaria para esse cidadão: ‘tire o seu dinheiro da poupança imediatamente e compre agora bens, compre carros, compre casas, porque os preços estão caindo’. Se você tem um dinheiro parado, é o momento para fazer compra. Se o sujeito é como eu, um assalariado e ele quer assumir uma dívida, aí não, aí ele espera. Para comprar parcelado não, o juro está altíssimo, a economia que a gente está falando é [uma economia] instável, em que eu posso ser mandado embora amanhã, como é que eu vou assumir um compromisso futuro numa situação de instabilidade? Assumir uma dívida agora é o pior momento, principalmente se o cara vive do emprego, que depende do salário, é algo muito arriscado.
D.N. – Deixar na poupança então não é um bom negócio?
E.D.R. - Na poupança ele está até perdendo dinheiro, porque a inflação está alta e o rendimento da poupança não recupera isso. Tanto que houve uma retirada da poupança muito grande, não está compensando. Uma coisa que compensa [para manter o dinheiro ‘parado’ atualmente] é comprar títulos públicos do governo, o tesouro direto. Vá ao banco ou pode comprar até pela internet.
D.N. – Uma situação que afeta tanto o bolso dos empresários quanto de seus clientes e que a cidade vem enfrentando, é o problema do aumento na inadimplência. Esses que estão com parcelas significativas a pagar e não conseguem, quais obstáculos vão enfrentar para se reerguer financeiramente este ano? É possível sair dessa situação de nome sujo com a economia como está?
E.D.N. - Vamos encarar essa questão colocando os dois lados na mesa. Para o empresário, se essas pessoas que estão inadimplentes não recuperarem seu crédito, não é interessante. Porque essas pessoas não podem assumir mais dívidas por causa desse problema. Para ele [empresário] seria interessante negociar, é fundamental que o devedor recupere sua capacidade de crédito. Geralmente o devedor quer pagar a dívida, ele não paga porque não tem como. Por isso é importante que eles consigam pagar a conta. A partir de uma renegociação, como prorrogar prazo, abater um pouco do juro que não está muito baixo, dar condições para que ele [cliente] tenha de novo como pagar as dívidas. Porque aí sim ele passa a ter crédito de novo e o empresário vai ser um ganho porque vai continuar vendendo. Se o empresário tomar essa iniciativa e buscar a pessoa para conversar e entrar num acordo, a gente vai rápido. Acho que interesse a quem vai pagar e quem vai receber. Então acho que é interessante para ambos.
D.N – Mas, e se o consumidor tiver dificuldade de renegociar as dívidas?
E.D.N. - Se a iniciativa não partir do comerciante, o consumidor também pode procurar porque a tendência é que ele [cliente] consiga o que deseja, que é recuperar sua capacidade de crédito. Para a empresa não é interessante que ele continue ser um devedor na praça. Então, o consumidor pode chegar e falar “tenho condições de pagar tanto, podemos negociar?”, sentem na mesa e façam o cálculo. Numa crise como essa, na situação atual, se o consumidor não tiver crédito ele para totalmente.
D.N. – Tanto para os que estão endividados como para os que não estão, qual o papel da organização no orçamento familiar para que o douradense consiga enfrentar esse cenário de crise?
E.D.R. - O planejamento financeiro é fundamental, eu tenho que saber o quanto eu vou poder gastar e tratar de atender esse planejamento que eu fiz. Se eu ganho R$ 100, eu posso gastar R$ 110? Não posso, tenho que gastar R$ 100. O melhor dos mundos para o trabalhador é gastar R$ 90 e poupar R$ 10. Mas, para isso é preciso planejar, ter na conta o que vai gastar com médico, remédio, mensalidade escolar, combustível, mercado. Dá para comer uma pizza uma vez ao mês? Tomar uma cerveja fora de casa uma vez ao mês? Dá, então coloquei isso. Mas, pelo amor de Deus, não vá duas ou três vezes tomar cerveja e comer pizza, porque no seu orçamento você previu somente uma vez. É planejamento, do quanto eu vou gastar em determinado intervalo de tempo. O melhor seria fazer um orçamento anual, seria interessante poupar um pouco para pagar a vista o IPVA ou o IPTU que tem abatimento. Pega esses detalhes e é interessante colocar no lápis e papel, e obedecer à risca. Se você não obedecer, você sabe quem é que vai ser o punido: é você que vai pagar essa conta. E a pior coisa é você se endividar para pagar outra divida, só é bom negócio se a dívida que você vai assumir tem o custo mais baixo.
D.N. – O senhor faz parte do projeto de pesquisa que vai mostrar o índice da Cesta Básica de Dourados. Na prática, de que forma os douradenses podem usar desse levantamento para contribuir com suas finanças no dia-a-dia?
E.D.R. - É o levantamento dos 13 produtos que compõe a cesta básica, de acordo com a metodologia do Dieese, que mede nacionalmente a cesta básica. A nossa pesquisa não vai falar que ‘em tal mercado é mais barato tal produto’, quem faz isso é o Procon. A gente vai mostrar a variação de preços dos produtos entre um mercado e outro. Então, qual a conclusão que o consumidor pode chegar? A cebola, o óleo, o leite, a carne, se eu procurar e se eu gatar um pouco a sola de sapato, vai compensar porque vai ter outro estabelecimento em que está mais barato. A pesquisa vai sinalizar ao consumidor esses itens e que se ele pensar e pesquisar, vai ter um ganho maior e, quem sabe, vai sobrar para ir mais de uma vez por mês tomar a cerveja ou comer a pizza. Porque aí está o planejamento para beneficiar a ele. Essa pesquisa vai servir de elemento para o planejamento dele. A gente vai, a partir da média [de preços], mostrar que é preciso trabalhar tanto tempo só para pagar a cesta básica. Mas, se ele pesquisar e comprar produtos mais baratos, ele vai perceber que vai gastar menos tempo. Uma coisa muito interessante e que acho que a maioria faz isso é aproveitar promoções, como de terça-feira da verdura ou quarta-feira da carne. Pesquisar também qual carne é mais barata, é um elemento que pode usar, procurar promoções e substituir produtos.
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Enrique Duarte Romero é economista e comentou sobre a crise econômica (Foto: Fabiane Dorta)