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ARTIGO

Vida que segue

06 novembro 2020 - 10h29Por Rodolpho Barreto Pereira

No último dia dois de novembro tivemos mais uma vez o famoso "Dia de Finados". Trata-se de feriado religioso em que milhares de brasileiros dedicam-se às orações e homenagens aos que já faleceram. A palavra “finados” significa isso, algo que finou, findou, acabou ou morreu. Esse dia especial consagrado aos mortos originou-se dos antigos povos da Gália, atual França, os quais tinham por costume reverenciar os espíritos dos seus antepassados. No Brasil, faz parte de uma tradição católica o hábito de visitar as sepulturas dos entes queridos que já morreram, acender velas e enfeitar seus túmulos com flores. O fato é que esta prática de visitas fúnebres (como se o cemitério fosse uma espécie de "sala de visitas do Além") é um costume que vem sendo cultivado desde as culturas mais remotas.

Mortos ou finados são entes queridos e amados que não estão mais fisicamente entre nós, mas que ainda vivem em nossos pensamentos e sentimentos. Seria um cemitério o melhor lugar para, por exemplo, recordar os bons momentos vividos com estas pessoas que nos despertaram tanto carinho e alegria enquanto juntas de nós? Não creio. Cemitério me lembra cenário de filme de terror. Em dias normais, tem gente que nem passa perto, por acreditar que seja um local mal assombrado. Mesmo assim, esses grandes depósitos de defuntos costumam ficar lotados todos os anos, no dia dos finados. Mesmo sendo apenas corpos e ossos em decomposição que ali estão. Aliás, é uma contradição: amplos e belos cemitérios em áreas nobres e famílias inteiras morando em barrancos. Ou seja, temos mortos morando melhor que os vivos. Por isso, vejo com bons olhos muitas pessoas aderindo a incineração. É uma forma de amenizar essa cultura, ainda muito materialista, que confunde o indivíduo com o seu corpo. Mostrando também que o nosso apego não é somente em relação a coisas, mas também a pessoas. 

Cada país, povo ou religião costuma "celebrar" os seus mortos de diferentes formas. Católicos, budistas, protestantes, muçulmanos, espíritas etc - todos espiritualistas, todos acreditam de alguma forma na existência e sobrevivência da alma após a morte do corpo, certo? Mas então qual a finalidade de visitar o local do sepultamento dos restos mortais da criatura? As saudades é da pessoa ou do corpo dela? A parte física envelhece, morre e vira "pó". Ou seja, nem o corpo existe mais ali: foi "devolvido para a natureza". É como uma roupa usada que se desgastou. Faz sentido visitar uma roupa velha e sem utilidade? Mesmo para o materialista, o ateu ou alguém que acredite que uma pessoa é somente o seu corpo biológico, porque visitá-lo então, se esse corpo já morreu, acabou, findou? E quanto ao religioso ou espiritualista, aquele que acredita em uma realidade além da matéria, qual seria a razão de ir ao cemitério, quando se sabe que o ser espiritual, a pessoa amada, o ente querido, não está lá? Se o espírito já está liberto do corpo, por que marcar encontro com ele neste lugar triste? Por que visitar um caixão, um esqueleto, um túmulo de concreto, que muito provavelmente nada tem a ver com a vida pulsante, vibrante e colorida da saudosa alma que nos marcou de boas lembranças? 

Há muitos que, em desespero ante a morte do ente querido, visitam as sepulturas frequentemente, durante o ano todo, não só no dia de finados. Alguns deitam-se no túmulo, em prantos. No velório, há os que abraçam e beijam os corpos gelados, sem vida, o que creio que somente faz aumentar o desespero ou a revolta perante a fatalidade do óbito. Quer dizer que aquela pessoa tão cheia de vida agora está gelada e vai morar debaixo da terra? Claro que não! No fundo, nós sabemos disso. É apenas um corpo, a ser agora "comido pelos vermes". Não é mais a nossa amada pessoa, ela não está mais ali, naquele corpo que será enterrado. Alguém pode dizer que, mesmo entendendo tudo isso, continuará as visitas ao cemitério, por uma questão de costume, tradição. Mas será razoável seguir um comportamento cegamente, sem pensar nele, só porque "todo mundo faz" ou porque "sempre foi feito assim"? Se é algo que vai te fazer sentir-se bem, ok. Mas eu duvido que isso realmente faça bem na maioria dos casos. Reviver o cenário da morte, do fim, da tristeza, da perda, como isso pode ser bom? Não seria melhor celebrar a vida, a saudade das boas lembranças, a gratidão pelos bons momentos compartilhados?  

Quando alguém morre, ainda temos por hábito dizer que houve a "perda" daquele familiar, algo que demonstra a nossa falta de fé em Deus, independentemente de religião. É uma falta de coerência com a vontade de Deus e com a realidade espiritual que muitos afirmam acreditar. Quem realmente compreende que a vida continua, além da morte do corpo físico, jamais deveria afirmar que perdeu alguém, pois sabe que houve apenas o retorno à grande pátria celestial, para a qual todos retornaremos um dia. Por exemplo, se o um pai tem o filho amado que viaja para o Japão para lá trabalhar e viver nova vida, sem previsão de retorno, o pai não dirá que "perdeu" o filho, que morreu, que tudo acabou. Lembrará dele com saudades, com amor e com orgulho, aguardando a oportunidade do reencontro.

Além do Finados, em outras datas significativas, envolvendo, por exemplo, aniversários de casamento, de nascimento, de "morte" etc ou no Natal, Ano Novo, dia dos Pais, dia das Mães etc, é muito natural lembrarmos dos nosso entes já falecidos, com saudade intensa. É saudável que seja assim. Saudade é o amor que fica. Significa que aquela pessoa especial, tão querida ao nosso coração, estará conosco, nas nossas caras lembranças, viva dentro de nós, para sempre. O sentimento de luto é absolutamente normal. Mas o que devemos evitar são os sentimentos destrutivos, a revolta, o desespero e a tristeza interminável. 

Nestes momentos, precisamos pensar no lado cheio do copo: agradecer os bons momentos compartilhados com a pessoa querida. Afinal, foram dias de convivência e aprendizado que estarão para sempre gravados na nossa alma. Para quem acredita na vida espiritual, é preciso considerar que a "separação" é apenas física e temporária. Em tempo, estaremos nos reencontrando novamente, pois o que está unido pelos laços sagrados de amor, nem mesmo o que chamamos de morte pode separar. 

Porém, quando visitamos o cemitério, apenas pelo costume da data, mesmo com a boa intenção de relembrar a pessoa amada, a sensação pode ser inversa: focamos no lado vazio do copo, naquele amor que a gente não "tem" mais. O sentimento dominante é de tristeza, de queixa, de falta, e não de gratidão. E também podemos atrair pelo pensamento o espírito do ser querido para presenciar novamente aquele cenário triste, do túmulo, do fim, da perda.  

Portanto, que tal a ideia de pensar neles com carinho, amor e respeito, fazendo uma bela oração, por meio de uma foto? Reunir a família no próprio lar, orar juntos, comentar as boas lembranças. Em vez do cemitério, visitar um local que eles gostavam de estar em vida, como uma praça, um lugar com uma paisagem bonita. Homenageá-los fazendo algo que gostavam de fazer. Escutar uma música preferida. Ajudar alguém que hoje está condições semelhantes (idosos, doentes etc). Fazer algo de bom, em memória deles, isso sim é bela homenagem, não acham? A melhor resposta que podemos dar à morte será sempre com mais vida, mais (boa) ação, mais doação! Pois a morte não existe, os "mortos" estão vivos, pelo amor que existe em nós - e entre nós! Estamos conectados por laços eternos de afeto, em pensamentos e sentimentos. Se ficarmos bem, eles estarão bem também. Se eles nos amavam, seguem nos amando! Se podem nos enxergar, certamente querem nos ver seguindo em frente, felizes! Afinal, de um jeito ou de outro, a vida continua - e continuará, sempre! Vida que segue! Há uma mensagem muito bela, atribuída a Santo Agostinho, que diz: 

“A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me dêem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram. Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim. Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado. Porque eu estaria fora de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas? Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho… Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela
como sempre foi.”

Instagram: rodolphobpereira

Whatsapp: (51) 98616-3132

*O autor é palestrante e escritor nas áreas de desenvolvimento pessoal, espiritualidade e atualidades.

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