Celso Moretti, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), Engenheiro-agrônomo com mestrado e doutorado em produção vegetal, está decidido a restabelecer A VERDADE SOBRE A AGRICULTURA E PECUÁRIA BRASILEIRAS. "Fornecemos comida para mais de 800 milhões de pessoas, usando menos de 30% do território. A verdade é que o Brasil vai alimentar o mundo.” Há menos de um mês, durante a Expo Dubai, 114 empresas brasileiras negociaram mais de US$ 1 bilhão em proteína animal. Segue, abaixo, alguns trechos da entrevista concedida à jornalista Branca Nunes. (Fonte: revistaoeste.com)
Quais são os principais mitos que envolvem o Agronegócio brasileiro? Assuntos ligados à preservação ambiental. O desmatamento ilegal é caso de polícia. Posso garantir que 99% dos PRODUTORES RURAIS BRASILEIROS RESPEITAM A LEGISLAÇÃO. Gosto de três frases do William Edwards Deming, cientista de dados mundialmente famoso. Primeira: “Quem não mede não gerencia”. Ou seja, quem não tem indicadores para medir desempenho, não consegue gerenciar nada. As outras duas frases são: “Em Deus nós acreditamos. Todos os outros têm que trazer dados”; e “Sem dados, você só é mais uma pessoa com opinião”. O que eu falo é baseado em dados, não achismo.
O Brasil realmente consegue conciliar produção com preservação ambiental? Segundo dados tanto da Nasa quanto da Embrapa, o Brasil utiliza menos de 8% do seu território para a produção de grãos e outros cerca de 20% são pastagens, sejam nativas sejam plantadas. Somando tudo, usamos algo em torno de 30% do território para alimentar 800 milhões de pessoas por ano no mundo. Ao mesmo tempo, protegemos dois terços do país: mais de 65%. E essas não são só informações nossas. Recentemente, o Mapbiomas, que tem a Google por trás, confirmou esse número. Portanto, quem critica o Brasil são três grandes grupos:
Os desinformados, que simplesmente não têm acesso à informação; os bobos úteis, que recebem a informação errada e a multiplicam; e existem também os que participam de um JOGO COMERCIAL PESADO. Por exemplo: há três anos, a rede de supermercados Tesco, uma das maiores da Europa, interrompeu a compra de carne brasileira, sob o argumento de que ela, além de não ser rastreada, era produto do desmatamento. Ao almoçar com um diretor deles, mostrei que conseguíamos rastrear do rebanho ao bife que está na gôndola do supermercado.
Mas não adianta. É uma propagação de mentiras. Nós perdemos a batalha da narrativa. Não fomos capazes de deixar claro que podemos PRODUZIR SEM DESMATAR. Faltou organização do agronegócio. Em vez de reagir, de ter uma postura proativa, ainda estamos no corner, tomando direto no fígado, no queixo. Só nos defendendo. Poderíamos estar no meio do ringue distribuindo pancada. Nós alimentamos 800 milhões de pessoas usando menos de 30% do território. Enquanto o mundo está falando em descarbonizar, a agricultura brasileira já é descarbonizada há mais de duas décadas. Faltou às diferentes empresas se juntarem para fazer um branding Brasil.
Por que o Agro brasileiro não consegue se impor? Parece algo antropológico, essa síndrome vira-lata. No agro, somos líderes globais. SOMOS UMA POTÊNCIA AGROAMBIENTAL. O Brasil passou muitos anos olhando só para o seu umbigo. Aqui na Embrapa, tenho falado para o meu time que a arena agora é global - e é lá que vamos jogar. Nenhum país é mais competente que nós. Temos de mostrar isso. Sentar com representantes dos jornais, fazer um seminário para eles. Mais do que a qualidade da alimentação, o problema do planeta ainda é a alimentação em si. Somos bilhões. É preciso ofertar comida para essa gente.
Os países europeus sentem medo da potência do nosso Agro? A verdade é que O BRASIL VAI ALIMENTAR O MUNDO. Hoje, usamos pouco mais de 70 milhões de hectares para a produção de grãos. Mas temos a capacidade de no mínimo dobrar essa área. E não estou falando da Amazônia, mas de terras localizadas principalmente no Nordeste e Centro-Sul do país. Imagina como isso não incomoda um produtor de leite da França, por exemplo. Ele nunca vai conseguir competir com o produtor brasileiro. É um grande jogo comercial. E só conseguiremos vencê-lo com muita comunicação. Falo que precisamos fazer três coisas: comunicar, comunicar - e comunicar.
Como o Agronegócio brasileiro será afetado pela invasão da Ucrânia pela Rússia? Depende muito da duração do conflito. Uma das grandes preocupações diz respeito à dependência que temos dos fertilizantes. Estamos alertando para isso há pelo menos duas décadas. No ano passado, importamos 85% dos fertilizantes para soja, milho e algodão. Não é possível depender totalmente de um insumo tão importante.
O Brasil sempre dependeu tanto da importação de fertilizantes? No início dos anos 2000, o governo Fernando Henrique Cardoso tirou todos os impostos para a importação de fertilizantes. Assim, ficou mais barato importar do que produzir. Para mim, isso é falta de visão de futuro. Os Emirados Árabes, por exemplo, pensam o país para os próximos 30, 40 anos, não a curto prazo. Se tivéssemos a mesma capacidade de planejamento, não teríamos deixado isso acontecer. Em Altazes, no Pará, temos uma reserva de potássio gigantesca, mas para explorá-la é preciso destravar as questões ambientais.
A Embrapa começará agora a caravana FertiBrasil. Vamos percorrer 30 polos agrícolas do país para ensinar ao produtor eficiência no uso de fertilizantes. Até setembro, nosso objetivo é aumentar essa eficiência de 60% para 70%. Isso pode significar uma economia na próxima safra de US$ 1 bilhão (um bilhão de DÓLARES) em custo de produção. Muitos produtores utilizam receitas prontas para aplicar adubos no solo. Mas, em vez de fazer isso, é muito melhor analisar o solo e ver exatamente do que ele precisa, dependendo da cultura plantada ali. Dando esse tipo de informação, o produtor brasileiro pode ser muito mais eficiente.
O PROBLEMA JÁ VEM DE ANTES DA GUERRA. Segundo o jornalista Artur Piva, o setor privado deseja começar a produzir esses fertilizantes no país desde 2010. Mas a burocracia emperra a operação há mais de uma década. O local a ser explorado não está dentro de reservas indígenas, então qual o impedimento? A operação ainda traria ganhos ao meio ambiente, uma vez que muito menos cargas viriam do extremo norte do planeta. Atualmente, a maior parte do potássio aplicado nas lavouras brasileiras vem dessa faixa do globo. O Brasil importa o produto principalmente do CANADÁ, de BELARUS e da RÚSSIA.
Nos últimos anos, essa dependência deixou o Brasil refém das mudanças de preço do dólar. Agora, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o problema se tornou ainda mais sensível. Tereza Cristina, ministra da Agricultura, trabalha para evitar que a guerra vire uma tragédia também para a agropecuária, setor vital para a economia brasileira. Segundo a ministra, “o Brasil tomou um caminho equivocado de importar, e não produzir fertilizantes”. “Nós ficamos cada vez mais dependentes”, lamentou. Tereza Cristina comentou os casos de Estados Unidos e China, outros grandes players do agronegócio mundial, que optaram pelo caminho oposto e hoje produzem 80% da necessidade local de fertilizantes. (Fonte: revistaoeste.com)
Analisou também a questão o jornalista J.R. Guzzo, de Gazeta do Povo: "Existem as minas, com 800 milhões de toneladas, os investidores, o projeto industrial, o cumprimento de todas as regras ambientais, mas o Ministério Público bloqueia qualquer atividade na área desde 2016. Sua alegação: a mina está próxima a uma reserva indígena, e essa proximidade pode perturbar a tribo ali residente. O aproveitamento desse potássio, que hoje o Brasil tem de importar para sua produção de fertilizantes, é essencial para o agronegócio brasileiro – e o agronegócio é essencial para a economia do país. Mas o MP, com o amparo da Justiça, passa por cima disso tudo em busca de um suposto benefício a uma minoria."
A “mina em Autazes”, de acordo com a ministra, é uma solução de longo prazo. “É tão grande que temos nela o suficiente para abastecer o país por 200 anos”, disse, lembrando do entrave burocrático que impede a exploração. Antônio Cabrera, ministro da agricultura do governo Collor, resume o problema: falta de liberdade. “Todo potencial que existe aqui não pode ser utilizado em razão da nossa burocracia, da nossa capacidade de não aproveitar os recursos naturais”, disse. Segundo Cabrera, falta aos governantes brasileiros uma percepção básica: “Mais liberdade significa MENOS POBREZA E MAIS ALIMENTOS”. O fato é que (no agronegócio e no geral) os piores inimigos do crescimento e desenvolvimento do Brasil estão dentro do próprio Brasil.
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