O sociólogo e urbanista Robert Park definiu a cidade como “a tentativa mais bem-sucedida do homem de refazer o mundo em que vive mais de acordo com os desejos do seu coração. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é também o mundo onde ele está condenado a viver daqui por diante. Assim, indiretamente, e sem ter nenhuma noção clara da natureza da sua tarefa, ao fazer a cidade o homem refez a si mesmo”.
Se pensarmos na situação atual de Campo Grande sob a luz desse conceito, a primeira coisa que nos ocorre é de que erramos em alguma coisa. O quadro de insatisfações e de perda de referências sobre o que desejamos para a cidade, e, portanto, para nós mesmos, exige reflexão e esforço para começarmos a mudar os rumos que as coisas tem tomado. Não é uma cidade dividida e sem projetos que vai satisfazer os desejos de nossos corações. Essa é a cidade dos condenados, nas palavras de Park.
Mudar o quadro exige, antes de tudo, a percepção de que estamos todos construindo junto a cidade. Os problemas que enfrentamos são fruto de nossas ações e serão nossas iniciativas que serão capazes de transformá-los. O poder público é reflexo da movimentação dos diferentes atores da cidade. Temos grave crise na administração da cidade e será nossa mobilização que vai apontar os rumos para superá-la.
Todos devemos pensar sobre o que queremos, o que imaginamos sobre nós mesmos e sobre nossa cidade no futuro de curto, médio e longo prazos. Trabalhadores, empresários, acadêmicos têm seus interesses e seus diagnósticos sobre a situação. Se a constatação a que todos chegamos é a de que precisamos mudar, temos então que fazê-lo de forma efetiva. É necessário ouvir os trabalhadores da saúde e educação com suas justas reivindicações, os empresários que precisam de um ambiente que possibilite a segurança para seus negócios, as associações dos bairros pobres que necessitam de serviços públicos eficientes nas comunidades e muitos outros grupos. Precisamos de todos juntos discutindo, propondo e pactuando as ações a serem tomadas de forma democrática e sem traumas.
Discutir nossos diagnósticos e trazer propostas para as mudanças necessárias.
Não é tarefa para um determinado grupo político, para um determinado segmento social ou para alguns iluminados. É tarefa para todos aqueles que têm compromisso com a cidade, com a ética. É um momento para pensarmos num pacto entre os diversos segmentos que atuam nessa cidade, onde construímos as nossas vidas e nossos sonhos. Um pacto por Campo Grande.
*Ricardo Ayache é presidente do Instituto Diálogo
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