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ARTIGO

Seja como um bom soldado!

26 maio 2020 - 14h35Por Wilson Aquino

Nesse período difícil pelo qual todos estão passando no Brasil e no mundo, crianças, jovens e adultos precisam aprender a ser fortes e resistentes a todas consequências negativas que o cotidiano atípico lhes impõe. A ameaça do vírus Covid-19 elevou a níveis insuportáveis a impaciência, a desobediência, a revolta, atritos e confusões inclusive dentro do próprio lar, que deveria ser um santuário de convivência em amor e harmonia.

As famílias estão enfrentando grandes desafios por conta da drástica redução de renda, do desemprego, do desabastecimento doméstico, inclusive do essencial: alimentos, e da brusca retirada de todos de uma rotina “normal”.

Para enfrentar esse lamentável e duradouro quadro, é preciso que os membros da família sejam fortes e determinados como um bom soldado, que aprende a aceitar a batalha e lutar em qualquer terreno, mesmo nas piores condições e não apenas para sobreviver, mas para vencer a guerra.

Falta especialmente aos pais se conscientizarem de seu grande papel e importância nessa luta. Precisam detectar seus pontos falhos, corrigi-los e se fortalecerem para então sentar e orientar seus filhos.

O profundo significado da palavra resiliência deveria ser entesourado no peito de todos os membros da família para que tenham facilidade de vencer as adversidades sem partir para a desistência que tem resultado no aumento de brigas, divórcios e separações.

A família que cultiva o diálogo; que busca com sabedoria e paciência o entendimento das coisas, sempre visando o bem-estar de todos, em toda e qualquer situação, certamente se dará melhor nesse processo que exige força, garra e determinação.

Nunca me esqueci de um grande exemplo de dor, sofrimento, choro e desespero contidos por uma família de passagem por Campo Grande. Ocorreu há alguns anos, enquanto caminhava pela Rua 26 de Agosto quando deparei com essa família, na esquina com a Rua 13 de Maio. Era um casal e cinco filhos pequenos (entre 1 e 10 anos). Todos, eles, à exceção do bebê que estava no colo do pai, aparentemente muito doente, carregavam pesados fardos. Eram malas e sacolas com roupas e, certamente cobertores e agasalhos. Era visível no rosto de todos um profundo sentimento de tristeza e sofrimento. Mesmo assim pareciam firmes e conscientes da necessidade e obrigatoriedade de suportar os pesados fartos e seguir o caminho.

O homem, que carregava a maior das bagagens, trazia também o bebê doente no outro braço. Eu os abordei sem titubear, perguntando para onde iam daquela forma. Me contou que havia sido despedido do trabalho em uma fazenda, onde trabalhou por muitos anos e que haviam sido abandonados ali, no centro da cidade, pelo ex-patrão. Disse também que haviam recebido apenas pouco dinheiro que não seria suficiente para seguirem viagem ao seu Estado natal.

Enquanto conversava, o homem recebeu no rosto e no peito, um jato de vômito da criança que estava mal. Contou que ela estava com febre desde a noite anterior. O quadro todo era desesperador e vi que aquele homem procurava manter seus filhos e a esposa em tranquilidade, mesmo que nos olhos de cada um havia um desespero, um grande medo, que estavam contidos. Retesados.

A mãe expressava palavras de conforto e esperança aos pequeninos, que pareciam com fome e cansados, mas não se entregavam.

No final, depois de esvaziar meus bolsos com uma boa parcela que recebera horas antes, lhes conduzi a um abrigo familiar, porém ainda hoje lamento não ter feito mais. Nesse dia aprendi uma grande lição: Que devo ser forte como um bom soldado, como eram aqueles pequeninos, com seus pesados fardos, para enfrentar os obstáculos da vida.

*Jornalista e Professor

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