O sofrimento psíquico em uma sociedade marcada pela aceleração, pelo excesso de estímulos e pela fragilização dos vínculos esteve no centro da palestra de abertura da XXIII Jornada Acadêmica e XIII Mostra Científica de Psicologia da Unigran. Com o tema ‘O Sofrimento Psíquico na Contemporaneidade’, o professor Dionatans Godoy Quinhones, propôs aos acadêmicos uma reflexão sobre as novas configurações da dor humana e sobre o papel da Psicologia diante de demandas que ultrapassam a dimensão individual.
A discussão dialogou diretamente com o tema geral da Jornada, ‘Psicologia em Diálogo: Tecendo Redes Frente às Rupturas do Contemporâneo’, ao questionar como as transformações sociais, tecnológicas e nas relações de trabalho repercutem sobre a subjetividade. Para Quinhones, uma das características mais marcantes do sofrimento atual é a combinação entre exaustão e solidão.
“Vivemos uma epidemia silenciosa, não de vírus, mas de sentido, de vínculo e de falta de descanso”, afirmou o palestrante. Segundo ele, a sociedade contemporânea impõe uma cobrança permanente por produtividade, desempenho e felicidade, reduzindo os espaços destinados à pausa, à presença e à convivência.
O cenário apresentado encontra respaldo em dados internacionais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 1 bilhão de pessoas, ou quase uma em cada oito no mundo, viviam com algum transtorno mental em 2025. Ansiedade e depressão estão entre as condições mais frequentes.
Para o palestrante, entretanto, compreender o sofrimento exclusivamente como doença pode limitar a escuta psicológica. “O sofrimento psíquico não é, em primeiro lugar, uma doença — é um acontecimento existencial que pede escuta, presença, mas sobretudo, comunidade”, destacou.
Entre conexão e solidão
As novas tecnologias e as mídias sociais foram apontadas como parte de um paradoxo contemporâneo: embora ampliem as possibilidades de conexão, também podem favorecer comparação, ansiedade e relações mais frágeis. Na avaliação de Quinhones, o excesso de informação mantém as pessoas em estado permanente de alerta, acompanhando, respondendo e comparando suas vidas às representações construídas por outras pessoas.
A cultura da exposição também altera a maneira como as emoções são vivenciadas. “A cultura da exposição transformou a emoção em espetáculo. Hoje a gente não sente apenas, a gente performa o que sente para uma plateia”, afirmou.
Nesse contexto, o palestrante chamou atenção para a tendência de transformar o sofrimento em algo que precisa ser rapidamente superado. Para ele, a Psicologia deve resistir à necessidade de nomear ou classificar imediatamente experiências que ainda não foram compreendidas pelo próprio sujeito.
“Tem dores que ainda não têm nome, e o psicólogo precisa ter coragem de acolhê-las mesmo assim, sem pressa de rotular”, explicou. A proposta, segundo Quinhones, é colocar a escuta e a presença antes da classificação, permitindo que a própria pessoa encontre formas de elaborar aquilo que vivencia.
Formação para além da técnica
A discussão também trouxe uma reflexão sobre as competências necessárias aos futuros profissionais. Entre elas, o palestrante destacou a escuta profunda, a presença, o pensamento crítico, a humildade e a capacidade de trabalhar em rede. A ideia é que o psicólogo não atue de forma isolada, mas dialogue com família, escola, saúde, cultura e comunidade.
Essa perspectiva está alinhada ao propósito da Jornada, segundo o coordenador do curso de Psicologia da Unigran, Carlos Valiente. Para ele, as transformações contemporâneas têm produzido novas demandas para a área, entre elas a precarização do trabalho, a fragilização dos laços sociais, a diversidade humana e o uso excessivo de tecnologias.
“Essas ‘rupturas’ geram novas demandas para a Psicologia, pois se expressam por diferentes formas de sofrimento. Um exemplo é a fragilização dos laços sociais, muito por conta dos avanços tecnológicos e domínio das redes sociais”, afirmou.
Valiente ressalta que, diante desse cenário, o profissional precisa ampliar sua perspectiva e considerar não apenas o indivíduo, mas também os grupos, os espaços sociais e as políticas públicas. “Tecer redes é construir diálogos que ampliem o conhecimento e fortaleçam a práxis profissional, com o intuito de desenvolver novas possibilidades frente às demandas emergentes”, explicou.
A universidade como espaço de diálogo
A programação da Jornada reuniu palestras, minicursos e a XIII Mostra Científica, contemplando temas como relações abusivas, saúde mental do trabalhador, autismo em adultos, avaliação psicológica e diferentes abordagens clínicas. Para o coordenador, a diversidade reflete a própria amplitude da Psicologia e a necessidade de atualização permanente dos profissionais.
A Mostra Científica, por sua vez, reforçou a aproximação entre formação acadêmica e produção de conhecimento. “A pesquisa científica é um pilar fundamental para o desenvolvimento da ciência psicológica”, destacou Valiente, ao defender que as práticas profissionais sejam fundamentadas no conhecimento científico.
A experiência também foi percebida pelos estudantes como uma oportunidade de ampliar a compreensão sobre a profissão. Para Henrique Kenji Ruiz Sato, acadêmico do 6º semestre, a palestra de abertura esteve entre os conteúdos mais relevantes justamente por abordar uma realidade diretamente relacionada à futura atuação profissional.
“Compreender as diferentes formas pelas quais esse sofrimento se apresenta na contemporaneidade e estar preparado para acolhê-lo e escutá-lo será um desafio constante na atuação profissional”, avaliou.
Para o estudante, a Jornada também possibilitou enxergar a Psicologia a partir de diferentes perspectivas e áreas de atuação. “Participar de uma Jornada como esta nos permite conhecer diferentes áreas, experiências e formas de atuação que, muitas vezes, não conseguimos compreender apenas dentro da sala de aula”, afirmou.
Ao encerrar sua reflexão, o professor Dionatans Quinhones deixou aos futuros psicólogos uma concepção que sintetiza a proposta de sua palestra: a Psicologia não deve assumir como missão simplesmente eliminar a dor, mas acompanhar o sujeito em sua experiência de sofrimento. “A Psicologia não nasceu como ciência da felicidade, do ajustamento ou do desempenho, nasceu do encontro com a dor do outro e da decisão de não desviar o olhar”, afirmou.
A discussão reforçou, assim, a proposta central da Jornada: diante das rupturas do contemporâneo, compreender o sofrimento humano exige mais do que respostas individuais. Exige escuta, conhecimento científico, pensamento crítico e capacidade de construir redes de cuidado, competências que começam a ser desenvolvidas ainda na formação universitária.
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