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ARTIGO

Professores X Geração Nutella

16 outubro 2020 - 08h36Por Rodolpho Barreto Pereira

Certa vez, durante uma palestra, me chamou a atenção o depoimento de um professor. Relatando sobre as suas experiências em sala de aula, revelou que é normal alguns alunos questionarem os professores sobre a possibilidade de reprovação por falta. Segundo o palestrante, os pais dos alunos também com frequência fazem a mesma pergunta: - "O senhor reprova por falta?" Ao que o professor sempre respondeu: - "Não, porque eu não falto!" Achei ótima essa resposta. Claro, não é o professor que reprova por falta, mas o próprio aluno que se reprova ao faltar as aulas. Deveria ser óbvio. Uma reprovação por falta só pode ocorrer como consequência para aquele que comete as faltas. A questão é que muitos querem cometer as faltas sem ter nenhuma consequência. Aí é malandragem. Fazendo uma comparação com o nosso futebol: o juiz apita e mostra o cartão, mas quem faz a falta é o jogador. Mesmo assim, jogadores (e torcedores) querem botar a culpa no juiz . O mesmo ocorre quando os alunos - e os respectivos papais e mamães - acusam o professor de dar uma nota baixa na prova. Como assim? A nota mais baixa ou mais alta é o professor que "dá"? Ou é o próprio aluno que a faz por merecer?

Mais uma vez, deveria ser óbvio. O estudante tem que "tirar" a nota e não ficar esperando que o professor "dê" a nota. O educador Mário Sérgio Cortella nos diz que este é o "segredo da vida", que todos os pais deveriam ensinar aos seus filhos: "Vaca não dá leite. Vaca não dá leite? Não. Você tem de tirar. Você precisa acordar 4h da manhã, ir ao pasto, entrar no curral cheio de fezes, amarrar rabo e pernas da vaca, sentar no banquinho e fazer o movimento certo! Esse é o segredo da vida. Vaca, búfala, cabra, não dão leite. Ou você tira ou não tem leite. Existe uma geração que acha que vaca dá leite, ela acha que as coisas são automáticas. Eu quero, eu peço, eu ganho. A felicidade resulta do esforço. A ausência de esforço gera frustração." Está aí uma lição que não deveria ser novidade. Antes do resultado, deve vir o trabalho, o merecimento. Simples assim. Infelizmente, muitos estão querendo inverter esta lógica.

Nas famílias e nas escolas, estamos vivendo uma inversão muito perigosa com as nossas crianças. Filhos mandando nos pais. Alunos mandando nos professores. É tudo muito preocupante. O que aconteceu com os pais de hoje? Por que tamanha omissão no comportamento e aprendizado escolar dos filhos? E o que aconteceu com o nosso sistema educacional? Sim, é claro que existem os bons pais e alguns ótimos modelos de escolas, que são referência de ensino de qualidade, desempenho, eficiência, estrutura e organização, como por exemplo, os colégios militares. Mas, no geral, sabemos que a escola está decadente. Não dá para entender. Apesar dos investimentos crescentes dos últimos anos, o sistema escolar está sucateado. Grande parte das escolas públicas atuais não são mais os espaços de aprendizado e cidadania que deveriam ser, com o mínimo de cultivo da 'ordem e progresso' estampadas na nossa bandeira. Ao contrário, parecem depósitos de crianças. Paredes descascando, cadeiras quebradas e pichações por todos os lados. Materiais básicos em falta. Mas o pior não é o ambiente físico. O pior, na minha opinião, é ver que a sua grande estrela - o(a) professor(a) - virou a sua maior vítima! Não somente pelos baixos salários e as condições péssimas de serviço. Mas a autoridade natural do professor que se perdeu. O respeito ao mestre, que deveria ser básico, virou "coisa de antigamente", do tempo da "moral e cívica".

Não tem como negar, as escolas brasileiras estão muito mal e não é de hoje. É triste, é lamentável. Só que a família está pior ainda. "Para que a escola seja a segunda casa, é preciso que a casa seja a primeira escola", disse um sábio. Mas parece que os pais modernos estão fazendo questão de dificultar a vida (já difícil) da escola. E quem está pressionado de todos os lados? O professor. O engraçado é que todos reconhecem a sua importância. É curioso, para não dizer hipócrita. Chovem homenagens ao dia do professor em todas as redes sociais! De que adianta? Não bastassem as dificuldades da profissão, os professores ainda precisam enfrentar o desrespeito, o mau comportamento, o descaso e até ameaças e agressões (a escola virou local de crimes, violência, drogas e afins) dos filhos mal-educados que os pais entregam. Fora a má educação dos próprios pais. Aí,  esses mesmos alunos e seus pais postam "homenagens" no dia do professor? Homenageados no discurso e desvalorizados na prática? Contraditório, não acham? Infelizmente, a realidade dos fatos é bem outra, e o professor está longe de ter a valorização que merece. Se o filho vai mal de comportamento na escola, por não fazer silêncio na hora da aula, por exemplo, tem pai que diz: "É o professor que não tem paciência!" Se recebe um bilhete da diretoria: "É o professor que está perseguindo!" Se está indo mal nas provas por não estudar? "É o professor que não sabe dar aula direito". Professor agora tem que ser mágico, malabarista, ator de teatro e outras coisas mais, porque não é o aluno que não presta atenção - "é a aula dele que é chata." E a reunião escolar? "Não tenho tempo. Vou lá para o professor criticar o meu filho? Nada disso, quem ele pensa que é?" Parece exagero, mas é assim que muitos pais pensam... Senhores pais e senhoras mães, vamos refletir?

Todo pai quer ver o filho feliz. Tivemos o dia das crianças! Sabemos que a data é muito explorada comercialmente, ou seja, o objetivo maior é vender e comprar presentes. Mas tudo bem, pois assim podemos ver as nossas crianças mais felizes, certo? E desde quando é possível comprar felicidade? Muito pelo contrário, é justamente o estímulo ao consumismo, à "vida fácil", que tem deixado muitas crianças infelizes, cheias de inseguranças e carências. É a grande ilusão de muitos dos chamados "pais modernos":  achar que podem comprar a felicidade dos filhos. Não podem. Se assim fosse, todo filho de rico seria feliz. Mas vida fácil não garante felicidade. Apesar de serem palavras parecidas, "felicidade" não tem nada a ver com "facilidade". Muitas vezes elas vão em direções opostas. Conscientemente ou não, as pessoas pareciam ter uma noção disso, em outros tempos... Curiosamente, parece que tudo ficou mais difícil exatamente porque quiseram deixar tudo fácil demais... 

Houve uma época diferente, não há muito tempo atrás, em que as crianças e adolescentes comiam a comida que era colocada na mesa, pois não havia outra. Havia hierarquia bem definida entre filhos, pais e avós (e um respeito natural dos mais jovens aos mais velhos, no geral). A residência só tinha uma única televisão, que ficava na sala, e só tinha uns três canais. Quem escolhia a programação eram os pais. Todos os filhos ajudavam em casa de alguma forma e todos tinham horário para dormir. Arrumar a cama antes de ir à escola era algo básico e indiscutível. Nesta época, professores eram autoridades máximas em sala de aula. Os alunos faziam juramento à bandeira  e cantavam o hino (do país, não o do time de futebol). Bebiam água de torneira. A maioria andava de tênis barato e roupas sem marca. Celular e computador eram luxo e coisas de adulto. Boas notas não eram motivos de presentes, pois a resposta única na boca de todos os pais era: - "Não fez mais que a obrigação". Já as notas baixas sempre geravam alguma punição, o chamado "castigo", tanto da escola, quanto dos pais.

Há quem chame essa geração do passado de "Geração raiz".  Eu gosto desse nome, pois simboliza uma base. Para haver sombra e frutos, é preciso haver antes uma raiz. E antes da raiz, vem o semear e cultivar da semente. Os pais semeiam e cultivam nos filhos os valores que formarão o futuro adulto. No entanto, a geração de hoje é chamada de "Geração nutella" (em referência a famosa marca de um creme de chocolate). Quem são eles? Um pequeno texto que circula na internet nos responde assim:

"Dormem na cama dos pais até quando querem. Largam mamadeira e chupeta quando querem. Só comem o que querem. E daí? Que mal faz? Melhor celular a cada Natal. Surdos com seus fones de ouvido. Centenas de amigos virtuais. Conseguem tudo o que querem. E daí? Que mal faz? Criar filhos está mais fácil, mais cômodo, afinal, a criança resolve tudo com cliques na tela. E daí? Que mal faz? Ler para o filho? Brincar com o filho? Cantar música e fazer cafuné? Neste aspecto os pais estão desconectados. Pais e filhos sob o mesmo teto, mas diálogo zero. Mas sempre conseguem aquela selfie de família perfeita. Afinal, o que importa é mostrar que é feliz. Ter mil curtidas. Mal sabem o que é um jogo de tabuleiro. Pensar? Virou uma coisa que dói. Fazer a criança pensar parece que é fazê-la sofrer. E o que você quer ser quando crescer? Youtuber, Digital influencer, quero ser famoso! Estudar, entrar na faculdade, se especializar... imagina! Não sei esperar. Não sei ouvir não. Não sei o que é frustração e rejeição. Já sou genial sem esforço. Sou da Geração Nutella."

"E daí? Que mal faz?" A pergunta é irônica, pois o que os pais deveriam se perguntar na verdade é "que bem faz"? Drogas, criminalidade, depressão e suicídio entre jovens, tudo em linha crescente. Os "Pais Nutella" se defendem e dizem que foram criados de forma muito rígida pelos "Pais Raíz". Afirmam que estão apenas tentando de um outro jeito. Que outro jeito é esse? Tentando substituir a presença com presentes? Tentando satisfazer todas as vontades das crianças para compensar a falta de tempo e de comprometimento com elas? Tentando justificar as falhas dos filhos para não assumir a responsabilidade de serem pais de verdade? Será que é muito difícil de entendermos que esse "outro jeito" não está dando certo? "Meu filho não é mal educado não, só tem personalidade forte" - dizem os modernos pais. Quem nunca ouviu também: "Criança é assim mesmo, não tem o que fazer!" Realmente, sem o mínimo de comprometimento com a tarefa (árdua) de educar, "não tem o que fazer" ... Então, papai ou mamãe, fica o convite à reflexão, neste mês de dia das crianças, dia dos professores, sobre o pequeno aprendiz, a pequena criança que agora está em seus braços, sob os seus cuidados. Que tipo de adulto você quer que ela seja? As suas atitudes para com a criança de hoje estão adequadas para formar o adulto esperado de amanhã? Ainda nas palavras de Cortella, temos mais um complemento de toda essa grande reflexão que estamos aqui fazendo, tão importante e necessária nos tempos atuais. Vamos ler e aprender um pouco mais com este professor, filósofo e escritor: 

"Um pai e uma mãe não pode jamais dizer ao filho ‘porque eu te amo, então tudo aceito’. É exatamente o inverso: porque eu te amo é que eu não quero que você use drogas; é porque eu te amo que eu quero que você seja decente; é porque te amo que eu não quero que você banalize a sua sexualidade livre e bonita; é porque eu te amo que eu quero que você tenha esforço na sua produção e é porque você me ama que eu quero que também você, meu filho, minha filha, me corrija naquilo que eu estiver equivocado. Essa relação de cuidado mútuo só nos faz crescer. Por isso o exemplo do cotidiano tem que aparecer como sendo a recusa com qualquer situação que esteja errada. A ética do amor não é a ética da conivência, mas uma ética que é capaz de dizer ’não’ ao que tem que ser recusado.”

E diante de tudo que foi aqui escrito e refletido, encerro o artigo firmando um compromisso de pai com a função nobre e heróica de professor, em homenagem ao dia dos professores: Querido Mestre! Estarei sempre ao seu lado e vou fazer de tudo para educar meus filhos para que o respeitem e aprendam o máximo possível com o teu trabalho! Tens total liberdade para chamá-los à atenção e para falar-me sobre comportamento e rendimento escolar. Não só pode, como deves fazer isso! E se sofrerem qualquer penalidade na escola, sofrerão outra em casa. Espero colaborar ao máximo com a nossa responsabilidade conjunta na educação de nossos filhos, os nossos futuros cidadãos! Essa será a minha homenagem de sempre para vocês! Gratidão aos professores, nossos grandes heróis! 

Instagram: rodolphobpereira

Whatsapp: (51) 98616-3132

*O autor é palestrante, colunista e articulista nas áreas de desenvolvimento pessoal, espiritualidade e atualidades.

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