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RONALDO FERREIRA

“Precisamos rediscutir a política em nosso país”, diz coordenador de movimento social

04 setembro 2014 - 06h34

O entrevistado da semana pelo Dourados News é o coordenador do Comitê de Defesa Popular do município, Ronaldo Ferreira. Durante a conversa, ele fala sobre a movimentação em relação ao plebiscito popular que acontece durante a semana em vários pontos do país e sobre os preparativos para o Grito dos Excluídos, que ocorre após o desfile de 7 de setembro.

Segundo ele, quando o poder vem do povo, o agente político precisa executar. “Se eu fosse deputado, não pensaria duas vezes em atender o clamor do povo. Então o formato que estamos usando de levar a sociedade a entender o sistema e para ela pedir a reforma, o representante que esta lá em cima no Congresso Nacional que seja o presidente da República tem que ouvir o clamor do povo”.

Outros assuntos também foram abordados na entrevista, entre eles a movimentação realizada pelo Comitê durante a Operação Uragano e a votação contra a queima da palha de cana de açúcar no município.

Confira a entrevista na íntegra

Dourados News - Como funciona o Comitê de Defesa Popular?

Ronaldo Ferreira - É o fórum que já existe desde 1989, e nós dialogamos com as entidades a respeito de pautas comuns, como o Dia do Trabalhador, não interessa só a mim, sindicato dos bancários, mas a todos os sindicatos, costumamos fazer pautas unificadas. Outras questões que interfere na sociedade, como saúde e educação, dialogamos com todos os sindicatos, questão ambiental, nós temos bastante inserção nesta questão porque é uma questão de todos, o comitê trabalha com essa dinâmica e vem se formatando, se consolidando cada vez mais como um fórum legítimo.

DN- E o que mudou de 1989 pra cá?

RF - A cidade de Dourados é uma cidade atípica, você pode perceber isso quando se fala em movimentos sociais, costumamos ter alguma ação, podem perceber pelo o Simted, Sindicatos dos Bancários, alguns outros sindicatos, servidores municipais. Enfim, recentemente o movimento da saúde, o comitê seja reflexo desta unificação, que vem acontecendo há muitos anos, então é uma cidade atípica, em questão de movimento de organização, então tem tido isso como reflexo, desde 1989 vem se tornando mais eficaz, bem mais encorpado.

DN - Qual a principal vitória que vocês já alcançaram durante este período?

RF- Tivemos um problema sério que foi o caso de corrupção em Dourados [Operação Uragano, desencadeada pela Polícia Federal em setembro de 2010 e que levou à prisão do prefeito na época, Ari Artuzi, políticos, empresários e secretários do município], envolvendo o prefeito, vereadores. O comitê naquele momento, esteve presente dando respaldo. Nós não aceitamos a corrupção como regra, não só no meio político, tomamos frente e fomos para as ações. Outro problema foi a queima da palha da cana de açúcar em Dourados, um problema sério que os usineiros queriam usar como processo de manejo, mas o comitê foi pra cima e não deixamos acontecer. Logicamente que não foi só o comitê, várias outras frentes, mas estávamos presente neste momento, e também outras lutas.

DN - Você citou aquela situação da manifestação durante a Uragano. Naquele momento diante de toda a situação, houve também um movimento político no meio de tudo. Como o Movimento se portou diante disso?

RF- Então, percebemos que existiu isso também. Mas a nossa concepção é de analisar o contexto e quando se fala em corrupção, para nós, sendo politico ou não, é corrupção e condenamos. E naquele momento existia um foco que era a corrupção, ou seja, eram milhões de recursos públicos sendo desviado. Agora, se teve uma questão politica por de trás do cenário, até lamentamos isso, mas, naquele momento não tinha uma aliança, não estávamos aliados e sim focados na questão da corrupção.

DN- Diante disso existe essa ideia do Plebiscito Popular?

RF- Não é só disso, o plebiscito popular é algo mais amplo. Essa nossa campanha pelo plebiscito popular, por uma reforma politica, ela é nacional. É uma das pautas do governo inclusive pela reforma politica e tributaria, enfim, são varias reformas que estão pendentes. E a reforma política hoje no Brasil é necessária, então nós abraçamos esse plebiscito aqui em Dourados, não só nós, mas outros comitês, pra poder mudar nosso sistema. Esse sistema eleitoral que temos no país é ruim pela questão da desigualdade de representantes lá. Se você pegar o Congresso Nacional hoje, de quinhentos e poucas cadeiras, 8% são de mulheres, o restante são homens, só por ai já da pra se ver a desproporção, em termo de representatividade. Outra questão é a juventude, onde tem poucos representantes. É uma minoria 8% negros. O Brasil é um grande território indígena não tem nenhum representante dentro do Congresso. Precisamos rediscutir, procurar um equilíbrio, uma igualdade. O congresso, que é quem tem que chamar a discussão, por si só não vai fazer isso, por que vai mexer com que já está lá. E para quem está lá hoje, está muito bom. Quem não quer que uma empresa financie sua campanha, gaste dois, três, cinco milhões de reais para financiar a campanha de um deputado, ou seja, lá o que for? Então, precisamos discutir isso. O Brasil precisa discutir financiamento de campanhas, representatividade dentro do Congresso para começar a organizar. Porque todas nossas lutas, todas nossas situações, a vida do brasileiro passa pelo Congresso Nacional, por leis, da forma como está lá. A maioria dos representantes representa os empresários, o agronegócio e os banqueiros, como que eu posso discutir uma pauta nossa no Congresso deste jeito.

DN- E hoje como estaria essa movimentação? Vocês precisam de quantos votos para pode pleitear este plebiscito, como funciona?

RF - O Plebiscito esta sendo uma coisa atípica em nível de Brasil. Não imaginamos chegar a este ponto, hoje está superando até a discussão com a Alca (Área Livre de Comércio das Américas), as ‘Diretas Já’ também. Digamos assim, que este movimento pela reforma política está se tornando um comparativo com as Diretas Já e isso pra nós já é um grande fato. O que nós queríamos mesmo era levar a sociedade a entender como funciona o sistema político brasileiro. E estamos conseguindo através da mídia, através das informações. A ideia é atingir dez milhões de pessoas. Nós queremos coletar dez milhões de votos e mostrar para o Congresso: “olha aqui o clamor do povo! Está solicitando uma reforma política, já!”.*

DN- Diante desse sistema, que existe hoje, até pela disparidade que você falou da situação de negros e mulheres dentro da Câmara dos Deputados, existiria essa possibilidade de conversa diante dessa quantidade de votos para essa discussão?

RF - Sim, com certeza. A partir do momento que o poder vem do povo, se o povo que ditar as regras, discutir, é válido. Se eu fosse deputado, não pensaria duas vezes em atender o clamor do povo. Então o formato que estamos usando de levar a sociedade a entender o sistema e para ela pedir a reforma, o representante que esta lá em cima no Congresso Nacional que seja o presidente da República tem que ouvir o clamor do povo. O que acontece, vamos voltar um pouco no tempo, junho de 2013, como é que foram os movimentos de ruas? A juventude foi pra rua debater, os movimentos sociais foram pra rua querendo o que? Não acreditando no sistema político. Contra a corrupção e outras pautas também, como o transporte, educação, saúde... Mas, uma das vertentes que estava em debate em 2013, era a corrupção, e corrupção dentro do sistema político.

DN- Em relação a esse plebiscito, nós recebemos comentários diversos através da interatividade do site, e boa parte dizendo se tratar como utopia...

RF - Jamais! Utópica em que sentindo? Eu não vejo assim. Quando a sociedade se manifesta não tem utopia, isso é realidade, voltando lá em junho de 2013, aquilo foi utopia? Não, já estava bem visível que o povo queria mudanças no sentindo político, mudança para melhor. Para você ter uma ideia o jovem eleitor, que poderia ser um novo votante, está desmotivado a tirar o titulo. Se acontecer isso é por que tem alguma coisa muito errada, se eu não tenho motivação, para ir ao TRE tirar o primeiro titulo, é que o sistema não está me agradando.

DN- Mas, os menos favorecidos ainda votam em quem tem o maior poder aquisitivo para suprir uma necessidade urgente. E quando o candidato chega ao patamar desejado, o eleitor acaba nulo dentro governo. Então, nós mesmos nos tornamos minoria, através desta situação?

RF - Você concorda comigo pela sua análise que o sistema está errado. O sistema político brasileiro não poderia ser assim, poderia ser melhor, mas infelizmente hoje, os próprios eleitores se corrompem, quando vende seu voto, isso já é um erro, o candidato induz a corrupção. Quando ele compra o voto, quando ele contrata cabos eleitorais, ele já está induzindo este eleitor a votar nele. Mas é uma forma legal e indireta de se comprar o voto. Só por isso já começa a criar uma situação onde a eleição passa ser um balcão de mercadoria, um balcão de troca. E quando chega lá [no cargo], que compromisso este deputado vai ter com esse eleitor, uma vez que ele pagou pelo serviço? Ele vai ter compromisso com quem deu o dinheiro pra ele comprar votos. Nem posso falar em compra de voto, porque agente sabe que efeito inclusive com relatórios através do TRE, prestação de contas... Mas quem está por trás do financiamento destas campanhas, são empresas grandes, que jogam 10, 15 milhões no período. E este dinheiro vai ser investido onde? Justamente nesta canalização aqui em baixo. Então a política acaba sendo essa coisa atrapalhada, e as pessoas acabam não acreditando mais. Chega a época de eleições, as pessoas só pensam em levar vantagem, arrumar um emprego, a trabalhar para um candidato. Ou seja, virou um balcão de negócio. Então temos que entender isso, quando chegar lá em cima, o candidato não vai trabalhar por ele.

DN - Então você acredita que o brasileiro é movido pela corrupção, pelo famoso “jeitinho”?

RF - Eu não digo todo brasileiro, nós temos muitos brasileiros que estão conscientes no que fazem. Eu mesmo estou consciente do meu voto. Fui lá, analisei o projeto e vai me representar, porque o papel do deputado, do congressista é fiscalizar e fazer leis, então tem que analisar por este lado, no só no congresso mais a Assembleia Legislativa a Câmara de Vereadores. Uma coisa que eu acho equivocado e a questão da emenda parlamentar, o deputado diz que trouxe milhões pra fazer ou construir isto ou aquilo, mas o papel principal dele é fazer leis, e o cidadão tem que entender isso.

DN - Nesta discussão de plebiscito, existe alguma forma de avaliar a questão salarial e de verbas indenizatórias que cada parlamentar ou governante recebe?

RF- Sim tem o Portal da Transparência, está ali.

DN- Não, eu digo a situação dentro da analise de vocês como movimento, do papel de apelo popular, de mudar a estrutura de modelo político. Enquadra esta questão financeira, da pessoa receber salários astronômicos, mais a verba indenizatória?

RF- Assim, primeiramente nós estamos chamando o Plebiscito Popular, para instalar uma constituinte exclusiva. Esse é o primeiro passo. A partir do momento que a nossa pressão, que não é só o projeto do plebiscito, há outras frentes também pedindo uma reforma política, e que isso for efetivado, ai vamos discutir o formato, como vai ser? A representação? Qual o salário deste deputado? Quem vai discutir, quem vai fazer, enfim isso tudo, não tem como fazer isso agora, mesmo porque estamos tentando convencer a população a respeito do sistema atual.

DN- Quantos municípios do Mato Grosso do Sul estão participando deste ato?

RF - Fizemos mobilizações em 77 municípios, alguns através de outros sindicatos, como o dos educadores, já que não conseguimos ir. Nos grandes centros como Campo Grande e Dourados, estamos usando todos os movimentos sociais aqui envolvidos nesta questão.

DN - Vocês estão agindo nas escolas também?

RF - Aqui em Dourados estamos dentro de todas as escolas públicas, municipais e estaduais. O próprio Simted puxou isso, dentro das Igrejas nós estamos com bastante acesso, nas paróquias, universidades, nas aldeias indígenas, quilombolas. Nós estamos tentando o máximo de inserção possível. Sabemos que é muito difícil, porque o movimento popular que está organizando o plebiscito trabalha com forças próprias, quem está mantendo esta estrutura toda de material de divulgação e os movimentos, não tem ninguém por detrás, já por si só é difícil.

DN - Para finalizar, tem o Grito dos Excluídos no domingo, como está a movimentação, estão conseguindo mobilizar o pessoal, tem algum ponto específico?

RF - O Grito dos Excluídos deste ano vem com uma dinâmica diferente, já vem puxado pelo movimento de 2013, que é para ruas e praças, por liberdade e direitos este é o tema deste ano e existe uma orientação nesse sentido. O plebiscito acaba sendo uma coisa interessante, o povo tem que ir para as ruas se quer que o Brasil melhore avance, mais ainda tem que buscar participar destes movimentos. A sociedade tem que entender que ela tem que estar presente nestas discussões, dentro conselhos municipais, participar das sessões da câmara do vereador que ela elegeu, que ele cumpra o que prometeu, não ficar esperando as coisas caírem do céu. Tem que ir para as ruas, muitas melhoras há de vir, a saúde e um problema sério em Dourados, a questão da educação que foi discutida recentemente, o pai de aluno tem que abraçar a luta a partir do momento que ele tem um filho na escola. A mesma coisa é a saúde, a partir do momento que temos um sistema como SUS, que é um sistema muito bom, mas temos que cobrar dos governantes de como administrar os recursos que recebem, então a sociedade tem que participar. Quando o Grito dos Excluídos entra com este tema de ocupar as ruas e praças por liberdades de direitos, a sociedade tem que participar. O Brasil tem que acordar e questionar mesmo, só assim poderá visualizar alguma coisa. A reforma política é bem clara. Está ai o recado para a sociedade, se conseguirmos fazer esta reforma no sistema político nos já vamos avançar muito. Precisamos fazer com que isto vire uma pauta no Congresso Nacional. O Grito vai pra ruas no dia 7 de setembro, com faixas, cartazes questionando este modelo que esta ai, municipal, estadual e federal. Vai brigar pelas nossas pautas, sempre brigamos. O Sindicato dos Bancários, por exemplo, esta com uma pauta muito séria dentro do Congresso Nacional que é PL 4330 (lei que defende a terceirização), que é um programa de lei e vem para precarizar a mão de obra no Brasil, que esta sendo discutidas por empresários, que vai atingir diretamente o trabalhador brasileiro e vai precarizar a mão de obra.

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