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ARTIGO

Precisamos questionar

14 agosto 2020 - 09h09Por Rodolpho Barreto Pereira

Cada vez mais eu me convenço de que devemos olhar para tudo que nos cerca da forma mais serena e cuidadosa possível, com muito filtro, equilíbrio, ponderação e análise. Fazer o exercício de tentar observar uma mesma questão por todos os seus ângulos. Tudo tem dois (ou mais) lados. Especialmente, quando há muitos sentimentos e interesses envolvidos, precisamos ter cautela. Muita calma nessa hora. Temos uma tendência de nos deixar levar por extremos. O caminho do meio é o mais recomendável e sensato, mas exige equilíbrio e concentração, como andar numa corda bamba. Pendemos para um lado ou para o outro. Às vezes, a emoção desequilibra, nos deixando indiferentes à razão. É preciso questionar. Entre o preto e o branco, há diversos tons de cinza. Muitos julgam a polarização de ideias como algo ruim. Ao contrário. Desconfie da unanimidade. É saudável haver uma pluralidade de argumentos, pensamentos e interpretações, para que possamos chegar ao melhor denominador comum (ou não, qual o problema em discordar?). Acho que alguém já disse que o mais importante não são as respostas corretas e perfeitas, mas as perguntas feitas e refeitas, que nos levam a buscar respostas cada vez melhores. Se ninguém disse, eu estou dizendo agora. Antes de qualquer conclusão, sobre qualquer coisa, seja questionador. Investigue. Pesquise. Questione ideias prontas. Duvide dos próprios pensamentos. 

A liberdade de opinião é a essência da democracia. Acredito que nós, como seres humanos e como cidadãos que somos, detentores de direitos e deveres, células deste grande organismo chamado sociedade, precisamos (e devemos) duvidar e questionar, sempre! Raciocinar, avaliar, analisar, enfim, pensar! E não aceitar as coisas só porque todos estão dizendo que assim é, ponto final. Por que não um ponto de interrogação? Ainda que seja uma opinião majoritária. Maioria nunca foi sinal de sabedoria, muito pelo contrário. Como diria Raul: "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Pensando bem, essa frase me soa um pouco extremista. Creio que nem precisa chegar a tanto. Não é necessário ser uma "metamorfose ambulante", basta pensar só um pouquinho fora da caixa. Um tantinho de bom senso e um mínimo de pensamento crítico. Vamos refletir? Façamos alguns questionamentos.

Estamos no chamado "pico" da pandemia de COVID-19 no Brasil (já estabilizando e saindo da fase crescente, graças a Deus). Isso significa que devemos continuar com todas as medidas preventivas, claro, é o que manda o bom senso, mas significa também que muitos estão pegando e ainda vão pegar a doença. Assim sendo, não seria igualmente de bom senso que todos os infectados pudessem ter o devido tratamento da doença, logo no início da manifestação dos seus mais leves sintomas, com medicamentos seguros, já conhecidos e administrados por médicos há muitos anos, ou seja, fazer o chamado tratamento precoce antes que o quadro do doente fique grave e sejam necessárias medidas mais drásticas? Que eu saiba, toda doença, quanto mais cedo detectada e tratada, maior a chance de recuperação. No entanto, qual recomendação nós tínhamos em relação ao coronavírus, até pouco tempo atrás? Se pegar a doença, fique em casa (sem qualquer tratamento específico?) e só busque o atendimento médico e hospitalar em caso grave, quando estiver com falta de ar!? Será que, ao contrário, se tivéssemos todos os doentes devidamente tratados desde o início, não teríamos reduzido o número de mortes?

É preciso falar com base na ciência, muitas autoridades públicas têm afirmado. Mas os médicos que estão tratando e curando milhares de casos não falam em nome da ciência? Existem estudos médicos e fatos que estão comprovando a eficácia de certos remédios no combate ao coronavírus, especialmente na sua fase inicial. Essas provas não servem? E qual a outra alternativa para quem pegou a doença? Não é melhor haver algum tratamento do que tratamento nenhum? 

Então por que, ainda, a resistência por parte do sistema público de saúde de muitas localidades em adotar o protocolo de tratar precocemente? Até mesmo antes do resultado do teste, o devido tratamento já seria recomendável, pois normalmente há uma demora de alguns dias, tempo em que a doença pode se agravar, sendo os testes mais rápidos os menos confiáveis. Se o caso é de vida ou morte, por que não fazer a tentativa de tratamento que muitos médicos da linha de frente estão endossando? Dizem haver possíveis "efeitos colaterais", como se isso não fosse a realidade de todos os remédios farmacêuticos (basta ler a bula), lembrando que, até pouco tempo atrás, os mesmos remédios, hoje tão polêmicos, eram vendidos sem receita, o que prova que não é verdade que seus efeitos colaterais sejam, de fato, um problema, desde que usados sob avaliação médica, é claro (a automedicação sempre foi desaconselhável, com ou sem pandemia). Mas suponhamos que realmente não houvesse nenhuma eficácia comprovada, como muitos dizem, e o que tenha ocorrido nos milhares de casos recuperados seja talvez uma espécie de efeito placebo em massa (convenhamos, algo extremamente improvável), ainda assim, me parece óbvia a decisão por fazer a tentativa do tratamento. Perceba a questão. Mesmo na dúvida, não é melhor tentar uma medicação que pode salvar a sua vida do que não utilizar nenhum tratamento e ter maior risco de morte? É melhor a tentativa de tratar no início, ou é melhor esperar por um risco de internação hospitalar em quadro grave (sabendo que os hospitais estão sempre com falta de leitos)? Precisamos questionar.

No começo da pandemia, em muitos estados ou cidades, mesmo onde não havia grande número de contágios, houve decisão estadual ou municipal pelo fechamento do comércio. Hoje, havendo alto número de infectados e tendo a doença chegado ao seu pico, a decisão de fechar tornou-se dramática e difícil, para não agravar o desemprego, que já é alto, por conta de fechamentos anteriores!? Governos e prefeituras não sabiam disso? Será que as restrições às aglomerações e demais protocolos sanitários rígidos de funcionamento das empresas não teriam sido, desde o começo, medidas mais equilibradas e suficientes? Outro detalhe que muitos esquecem: a justificativa para o fechamento geral nunca foi dada como uma forma de combater o vírus, mas sim uma alternativa (radical) para frear a contaminação temporariamente e assim dar tempo às autoridades estaduais e municipais de organizarem seus sistemas de saúde para receberem os futuros infectados. Ou seja, uma infecção em massa, "o pico" de contágio, sempre foi algo previsível, já que se trata de uma gripe nova e sem vacina. No entanto, apesar das altas verbas disponibilizadas aos governos e prefeituras, o atendimento de saúde à população foi ampliado? Os chamados hospitais de campanha, que despenderam vultosos recursos públicos, foram largamente utilizados? Pessoas infectadas, especialmente aquelas que tinham outras comorbidades, tiveram todo o atendimento médico e hospitalar necessários, mas mesmo assim foram a óbito? Segundo afirmaram autoridades públicas de São Paulo, o maior foco da doença no Brasil, ninguém morreu por falta de leitos. As verbas públicas emergenciais de saúde foram, então, devidamente utilizadas? Investigações neste sentido apontam que houve desvios. O governo federal enviou recursos, mas não pôde interferir em políticas públicas de saúde, pois seu poder de decisão foi retirado pelo STF, ficando a responsabilidade para estados e municípios. E há quem diga que o Brasil está indo mal no enfrentamento da pandemia, ao mesmo tempo que elogia medidas tomadas por governadores e prefeitos. Faz sentido? Cada qual com sua opinião. Mas precisamos questionar.

Quando ouvimos o número absoluto de mais de cem mil mortes por uma única doença, ficamos chocados, naturalmente. Mas, se olharmos o número total de registros de óbitos do país, no mesmo período do ano passado, vamos notar que manteve-se semelhante (consulte: https://transparencia.registrocivil.org.br/). Ou seja, em julho de 2020, com a pandemia, tivemos um número total de mortes parecido com julho de 2019, momento em que a vida estava "normal", sem a pandemia. Não há cem mil mortes a mais que o mesmo período do ano passado, nem perto disso. Não é curioso? Precisamos questionar. As outras causas de óbito foram solucionadas? As pessoas estão morrendo menos de outras causas (outras doenças, acidentes, violência etc)? Em caso afirmativo, isso não seria uma boa notícia, merecedora de destaque na mídia? Ou será que grande parte das pessoas que são atestadas como óbito por COVID-19 não teriam outras enfermidades que, fatalmente, também as levariam à morte, o que justificaria o número de óbitos semelhante a 2019? Será que as pessoas que morrem única e exclusivamente por coronavírus (pessoas saudáveis que contraem a doença) não são um número muito menor que cem mil? Esta informação não deveria ser também considerada no estudo, análise, divulgação e enfrentamento da pandemia? 

Para que não fiquem mal interpretadas as minhas indagações, enfatizo que não estou aqui minimizando os efeitos nocivos desta nova doença, que não deve ser subestimada. A pandemia deve ser combatida, com toda a gravidade que merece, de todas as formas possíveis. Mas também não me parece razoável maximizar uma doença, como tantas outras que existem, transformando-a numa monstruosidade única na história mundial, provocando o pânico generalizado e a adoção de medidas (individuais e coletivas) extremadas. Lamentável toda e qualquer morte. Os meus sentimentos a todos os enlutados. No entanto, o luto não é fator exclusivo de um vírus. Há muita gente chorando as suas perdas, há muito tempo. A diferença é que hoje temos os holofotes (e a exploração midiática) mais intensamente em apenas uma, das diversas causas de luto. Qualquer morte sempre será um pesar, especialmente para familiares e pessoas próximas. Aos que ficam, é preciso tocar em frente, fazendo o melhor que puder, em memória aos que já não mais podem estar fisicamente do nosso lado. Da minha parte, continuarei questionando, analisando, refletindo e buscando fazer as escolhas mais equilibradas e sensatas possíveis, evitando qualquer tipo de desespero, revolta ou pessimismo. Vida que segue. Sigamos, portanto, com esperança!

Instagram: @rodolphobpereira

Whatsapp: (51) 986163132

*O autor é analista judiciário, pós-graduado em direito público, colunista e articulista

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