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ARTIGO

Pérolas e pedregulhos do Carnaval

23 fevereiro 2016 - 10h48

Feliz ano novo! Como toda dúzia de meses, agora 2016 vai pra frente em maior impulso! A Quarta-Feira de Cinzas mais uma vaz é circundada por elementos anteriores e posteriores a ela que retratam os impactos desse fogo divisor de águas para isso, o Carnaval, filme que já vimos por tantos anos.

Um dos importantes quesitos para medir o significado da folia a longo prazo é seu preparo. Aí surge o dilema: que recursos injetar nos orçamentos abre-alas? Nesta época sempre há listas de cidades pelo território nacional cujos líderes abriram mão de pôr na avenida os recursos que recebem da comunidade em benefício da mesma. Na edição 2016 houve até potências urbanas regionais paulistas, como Sorocaba e Campinas. Aqui em Mato Grosso do Sul os danos oriundos de chuvas e a crise econômica nacional em diversos municípios não permitiram a festa, com o erário estatal. Fátima do Sul e Rio Brilhante festejaram graças ao empenho de parte da sociedade em correr atrás de sustento para a diversão.

É relativo o efeito poupança a que desejam se expor as prefeituras que dizem não ao apoio ao Carnaval. Depende do que é feito o ano todo em relação à saúde financeira, sem demagogia para agradar aos odiadores incondicionais da agitação. Por outro lado os governantes fizeram segundo o que estava a seu alcance um esforço para distanciar os munícipes de consolidados vícios culturais inerentes a esta época, mais uma valiosa questão avaliativa das consequências do evento.

É vista na maior parte do Brasil uma forte homogeneidade nas manifestações culturais carnavalescas, com exceção dos blocos que aproveitam muito da criatividade país afora. Pouco considerando-se Pernambuco e Amazonas, onde as festas não se distanciam de suas, no verdadeiro sentido, identidades culturais (boi-bumbá e frevo, respectivamente), assistimos um milagre: é chegar fevereiro e "todo mundo" passa a gostar de sambas-enredo (no modelo das escolas de samba do eixo Rio-São Paulo), axé ou swingueira (na moda de Salvador), voltando a seus gostos típicos depois que o fogo é apagado na Quarta-Feira de Cinzas. O Poder Público relaxou na condução do rebanho sob sua guarda na educação cultural da personalidade, e o que aconteceu? Os pastores com maior poder sobre as passivas ovelhas são as mídias de massa (destacando-se o trabalho das Organizações Globo) que alimentam as mentes espectadoras com modinhas em vez de fertilizá-las adequadamente.

No tocante às agremiações sambistas pode-se dar um desconto, posto que tanto nas paulistano-cariocas quanto em suas cópias por todo canto espalhadas (MS não fica de fora) vivem em cena no ano inteiro a ousadia e o esmero indispensáveis para retratar assuntos e personalidades históricos e contemporâneos de influência em nosso cotidiano em dimensões que ampliem o imaginário e a inteligência do público. A existência nacionalmente pulverizada de descrito modelo artístico tem como defeito, entretanto, ser marca histórica da incompleta imagem que os veículos comunicadores hegemônicos criaram sobretudo para exportação de um Brasil movido exclusivamente a samba, tapando os ouvidos para as vozes culturais interioranas (forró nordestino, música sertaneja e gaúcha e carimbó amazônico, por exemplo). As injúrias a esses gêneros musicais incluem ainda, como visto há tempos, a inserção de características modernas a princípio incompatíveis cujo potencial inovador se desgastou com o intenso uso.

A atual música nordestina que o diga quanto a tal fenômeno! É sempre assim: o aproximar de fevereiro é chamariz para o esforço no trabalho de artistas de forró eletrônico e swingueira baiana dispostos a conquistar os quatro dias de fama nacional na base especialmente de canções portadoras de letras e danças abusivamente sexuais, violentas e materialistas. A drástica mudança no padrão dos representantes artísticos do Nordeste indica ser interno o começo de um pavio com término em cabeças rasas residentes em outros lugares que vez ou outra detonam ignorância.

Aceitemos que não existe um padrão de música universalmente agradável. Cada tipo, seja na letra ou batida, tem os perfis de personalidade individual ou coletiva com que se casa, lembrando-se que as artes servem para o homem expressar quaisquer sentimentos e ideias. Muitos valores, porém, nossa sociedade condena ou a eles determina cauteloso tratamento, ficando susceptível a perigos com membros a céu aberto e em bombástico volume executando músicas difusoras de alguns dos princípios imorais. Ainda mais com a endêmica corrupção, a prioridade concebida pelos governos à arrecadação de divisas por estas "formas de expressão" dá pueril força aos trabalhos para compensar os estragos do desacato a bem escritas leis dos ditos cujos que abrangem o controle do uso de álcool, o cerco total a outras drogas e a segurança. A Polícia Militar de Três Lagoas, aqui no estado, logrou êxito em tirar de circulação no dia 8 um motociclista embriagado com a ajuda de um buraco de rua que o derrubou enquanto fugia dos agentes. À sorte de a princípio não haver buracos ou homens da lei em sua trilha, quem teve sucesso em Maranguape, no Ceará, foi outra bomba-relógio ao volante no mesmo status orgânico que há dois dias antes detonou atropelando e matando três pessoas, além de outras duas que sobreviveram. É desejável que o Carnaval brasileiro não chegue ao nível de Köln (aportuguesada para Colônia), na Alemanha, onde já na abertura a folia foi palco de muitas agressões, roubos e violências sexuais, mas a eficiência de sua polícia é um desaforo didático para a nossa com 181 detenções naquele momento, indicativo de presumível fechamento hermético pelos agentes (com massiva e volante presença) do espaço urbano quanto a facilidades para as atividades e fugas daqueles que extrapolaram o limite entre o seu e alheios aos direitos ao lazer.

Retomando reflexões acerca das escolas de samba, do fechamento de mais um ciclo laboral voluntário corrente desde o ano passado ficam vergonhosas lembranças a algumas paulistanas.

É melhor deixar como está se Dilma for deposta em favor de gente como a modelo Juliana Isen, Musa do Impeachment, que no desfile da Unidos do Peruche tentou expressar insatisfação com o governo com apelação que de tão grotesca desvia o sentido do protesto rumo a autêntico ensaio pornô. Mas, sendo verdade o exagero no quesito da força física para remover a ousada manifestante, nota muito abaixo de 10 terá compatibilidade com os representantes da escola envolvidos na repressão desproporcional ao perigo de se aparecer.

E por falar em notas, novamente em quatro anos foram elas ponto de discórdia, mais uma vez envolvendo a Império da Casa Verde. Ela foi campeã mediante notas 10 ganhas para compensar o esquecimento na avaliação por um jurado, o mesmo que ocorreu à Dragões da Real, exaltando ânimos e levando até a injúrias físicas que resultaram na prisão de um dos autores.

Em paralelo ao futebol, paixão importada, o samba, cultura nacional nascida principalmente dos africanos e seus herdeiros, é novo alvo da devoção fanática. O interesse por mísera atividade ligada aos prazeres cuja satisfação a certo nível é sadia se mistura a frustrações inerentes ao cumprimento dos deveres cidadãos, destes ofícios expandindo os valores racionais a eles valiosos para os primeiros onde o caráter frio, impessoal, concreto, se opõe a suas exigências, lhes havendo só danos.

A provavelmente inédita falha no julgamento das notas alimenta observações negativas à ordem no processo, conduta servível também a seu duvidosamente justo conjunto de normas regentes. As circunstâncias do tumultuado episódio compreendem um clamor por averiguação e muito imaginavelmente necessária mudança nos meios e aparatos com destino à captura das notas e sua gerência, vislumbrando suprimir a necessidade de apelo à norma compensadora da falta de sentenças por meio do oferecimento dos valores máximos às escolas que não as receberam, numa tomada de espaço da qualidade das performances desvantajosa às outras agremiações.

A moralidade cultural e financeira vem tendo direito a notas em queda livre em distâncias cada vez maiores do chão. Podem gastar o quanto for para dar forma à mais famosa festa popular brasileira, que não dará conta do rombo social mitigável com o sensato banimento ou restrição a espaços cobertos e fechados de costumes imundos demais para a logo principal vitrine na qual a grande mídia expõe o Brasil para o exterior em grande parte conformado com essas superficiais imagens de nossa realidade. Se através de nossa imprensa durante o ano todo se informassem acerca de como as coisas andam nesta pátria, nos estrangeiros teríamos aliados para a cobrança de progressos neste torrão.

Estudante e articulista*

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