Uma idosa de 74 anos e o filho dela, viveram cerca de três horas de terror durante um assalto dentro da casa onde ela mora sozinha desde os anos 1990, no Bairro Universitário, em Campo Grande. Durante a ação, criminosos armados amarraram as vítimas, fizeram transferências bancárias, realizaram empréstimos que somaram cerca de R$ 84 mil e ainda ameaçaram matar o cachorro da família.
A aposentada vive apenas com o cachorro Scoob. Ela e o filho conversaram com o site Campo Grande News na manhã desta quinta-feira, dia 12 de março. A idosa contou que no fim da manhã desta quarta-feira (11), a casa estava sem energia elétrica e o filho foi até o local, como faz constantemente. Ao sair para verificar o quadro de luz, percebeu dois homens parados na esquina observando a rua. Naquele momento, pensou que não fosse nada.
O filho relata que quando terminou de verificar o problema e se virou para entrar na casa, foi surpreendido. “Eu me virei e eles apontaram o revólver na minha cabeça e me mandaram entrar". Assim que entrou na residência, os criminosos também renderam a idosa. “Eles deram um mata-leão na minha mãe e jogaram ela no sofá, depois nos amarraram”.
Mãe e filho foram imobilizados com o que os assaltantes encontraram dentro da própria casa. Lençóis, roupas de cama, toalhas e até o fio de um ventilador foram cortados e usados para amarrar mãos e pés das vítimas. Os dois também foram amordaçados.
No início, apenas dois homens estavam dentro da residência. Eles falavam baixo e agiam de forma silenciosa, o que fez com que os vizinhos não percebessem o crime acontecendo. “Eles eram silenciosos. Ficavam xingando e pedindo dinheiro”, disse o filho da idosa.
Durante a ação, os criminosos pegaram a carteira dele e encontraram um documento relacionado ao registro de arma de fogo. A partir disso, as ameaças ficaram ainda mais intensas. “Eles começaram a perguntar onde estava a arma, onde estava o dinheiro". Do dinheiro que ele tinha na carteira, os assaltantes levaram R$ 1,8 mil.
Durante cerca de duas horas, os criminosos permaneceram com o celular da vítima realizando operações bancárias. Sempre que era necessário fazer reconhecimento facial, eles retiravam a mordaça. Nesse período foram realizados empréstimos e transferências que somaram aproximadamente R$ 84 mil.
Enquanto mexiam no celular, os criminosos também acessaram redes sociais e passaram a perguntar onde estavam outros bens. Como ele mora em uma chácara, temeu que os bandidos o obrigassem a levá-los até o local. “Eu pensei: não posso levar eles porque vão me matar lá". Com medo, começou a pensar em algum lugar para onde poderia levá-los caso fosse obrigado. “Eu fiquei pensando qual lugar levar eles, qual o mais próximo e que tivesse câmeras". Ele chegou a pensar na casa da ex-esposa, na Avenida Guaicurus. Antes que isso acontecesse, porém, mais pessoas chegaram ao imóvel.
Segundo o relato, um casal e uma travesti entraram na casa, todos encapuzados, aumentando para cinco o número de envolvidos no assalto. Antes disso, os criminosos haviam ido até uma conveniência na esquina comprar cigarros. Dentro da casa, o grupo caminhava pela sala, conversava entre si, bebia água e chegou a comer alimentos que estavam na cozinha.
Em determinado momento, um deles sugeriu ligar a televisão para disfarçar o barulho da movimentação dentro da residência. A ideia acabou descartada porque a casa continuava sem energia elétrica. O cachorro Scoob, assustado com a presença dos estranhos, começou a latir. Foi nesse momento que surgiu a ameaça que deixou a idosa ainda mais desesperada. “Eu vou cortar o pescoço desse cachorro”, disse um dos criminosos.
A aposentada implorou para que não machucassem o animal. “É meu filho, ele dorme comigo no mesmo quarto, por favor não mata meu cachorro". Para tentar acalmar a situação, o filho sugeriu aos criminosos que soltassem uma das mãos da mãe para que ela pudesse pegar o cachorro. “Solta uma mão dela e deixa ela pegar o cachorro". Depois que a idosa segurou o animal, Scoob se acalmou e parou de latir.
Enquanto as vítimas continuavam amarradas, os criminosos permaneceram dentro da casa por horas, andando pelos cômodos e exigindo dinheiro e informações. Depois de cerca de três horas, o grupo decidiu ir embora levando dois veículos da família: o GM Celta vermelho e o VW New Beetle amarelo.
Um dos carros tinha câmbio manual e, ao sair com o veículo, a mulher que dirigia deu uma arrancada brusca. O barulho chamou a atenção de um vizinho, que naquele momento abria uma barbearia ao lado da casa. Mesmo ouvindo o carro sair, o filho da idosa preferiu esperar antes de tentar se soltar. “Meu maior medo era eles voltarem".
Com uma das mãos presa de forma mais frouxa, ele conseguiu começar a se livrar da amarração. “Eu esperei até não ouvir mais movimentações, consegui me soltar e alcançar a tesoura que eles usaram para cortar os panos que nos amarraram e soltei os meus pés". Depois de se libertar, saiu da casa e encontrou o vizinho que estava abrindo a barbearia. “Eu falei: alguém solta minha mãe". Em seguida, ligou para um conhecido da polícia e relatou o que havia acontecido.
A esposa do barbeiro entrou na casa e ajudou a libertar a idosa. A vizinha, de 30 anos, contou que nunca tinha presenciado algo parecido. “Eu entrei e vi a senhora amarrada na cama, desesperada, então eu e meu marido ajudamos eles". Para ela, a forma como o crime aconteceu indica que tudo pode ter sido planejado.
Ainda muito abalada, a aposentada contou que agora tem medo de continuar morando na casa onde vive há décadas. “Estou com medo de ficar aqui agora. Eles me amarraram, me machucaram e quiseram matar meu cachorrinho". Segundo ela, em todos os anos que mora no local, nunca tinha passado por algo parecido. ““Eles pediam senha e eu falava ‘não sei, não sei’. Ele falou: ‘nem que você digite com a língua’.”
Ao lembrar do momento em que ficou rendido dentro da própria casa sem poder reagir, o filho da idosa se emocionou. “Eu já tinha sofrido assalto antes, mas dessa vez eu não podia fazer nada. Eles te xingando de vagabundo, de filho da puta, pedindo dinheiro e você só pode ficar quieto, sem ter o que fazer”, disse, chorando. Ele contou que costuma visitar a mãe várias vezes por dia. “Eu vou na minha mãe duas ou três vezes por dia, pelo menos".
Após o crime, equipes da Polícia Militar foram informadas de que os veículos roubados seguiam pela BR-163 em direção ao distrito de Anhanduí. Durante diligências, os policiais visualizaram os carros retornando para Campo Grande e tentaram realizar abordagem, mas os motoristas fugiram.
Depois de alguns quilômetros de acompanhamento, o Celta foi interceptado. No veículo estavam Lucélia Gonçalves Honório, de 39 anos, que conduzia o carro, e Felipe da Rocha Pinho, de 18, que estava como passageiro. Dentro do automóvel, os policiais encontraram um aparelho de ar-condicionado, duas mochilas, uma antena Starlink e uma carteira pertencente à vítima. Durante a revista, também foram localizadas uma corrente de ouro com pingente e uma pulseira dourada.
O New Beetle foi encontrado posteriormente em uma estrada vicinal, abandonado após colidir contra uma cerca. Os ocupantes não foram localizados.
Segundo a polícia, Lucélia afirmou que mora em Goiânia e veio a Campo Grande no dia 3 de março após ser contratada para participar do crime e levar um dos veículos roubados até a fronteira pelo valor de R$ 3,5 mil. Já Felipe relatou que mora em Várzea Grande, em Mato Grosso, e teria recebido a promessa de R$ 1,5 mil para participar do roubo.
Conforme o registro policial, os dois estavam hospedados em uma pousada na cidade enquanto aguardavam a chegada de outros comparsas. O rapaz também afirmou que ele e outro suspeito seriam responsáveis por render as vítimas para permitir a entrada do restante do grupo. Os outros criminosos são procurados.
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