Em Dourados, a segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, existe uma parte da população que vive “às margens”, não da rodovia ou dos bairros centrais, mas da própria visibilidade social. São pessoas em situação de miséria, que sobrevivem fora do radar das políticas públicas e do olhar do Estado. Vivem em silêncio, na escuridão estatística de um país que ainda se orgulha de números de crescimento, enquanto deixa parte de seu povo para trás.
Essas pessoas formam o que se pode chamar de “pobreza invisível” (e você pode encher a sua boca cheia de dentes e dizer que isso não acontece), famílias que enfrentam fome, falta de água potável, doenças e violência, mas que raramente aparecem em relatórios oficiais, mas com grande frequência aparecem em manchetes.
A ausência de registro é, muitas vezes, o primeiro sinal do abandono. Quando o Estado não vê, não existe planejamento e quando não planejamento, não há política pública que alcance quem mais precisa.
Em Dourados, essa realidade ganha contornos étnicos com a Reserva Indígena de Dourados. As comunidades Guarani e Kaiowá (aldeias Bororó e Jaguapiru) convivem com níveis alarmantes de pobreza. Confinados em pequenas áreas e esquecidos por gestões sucessivas, muitos vivem sem acesso contínuo à água limpa. Mas relaxa, ano que vem é ano de eleição e tudo fica mais acessível, aparece vários defensores da causa indígena (contém ironia).
Mas o problema não se restringe apenas às aldeias. No centro da cidade, nos bairros afastados, cresce o número de pessoas em situação de miséria. São homens, mulheres e crianças que perderam não apenas a moradia, mas também o direito de serem vistos. A sensação é de que há, em Dourados e no Brasil, uma multidão que deixou de existir no “radar social”, invisível para o governo, esquecida pela sociedade.
A miséria invisível não é apenas um drama humanitário, é também uma bomba social. Onde o Estado não chega, a violência se instala. A falta de oportunidades, a insegurança alimentar e o desespero formam o terreno fértil para o aumento da criminalidade. Em Dourados, a violência urbana e as tensões nas comunidades indígenas não são coincidência, são consequência direta da desigualdade que se aprofunda.
Enquanto isso, em Brasília, as prioridades parecem seguir outro rumo. A Comissão Mista de Orçamento negocia com o governo Lula (PT) uma verba extra de fim de ano para cada parlamentar, apelidada de “emenda panetone”. Em um país onde milhões ainda lutam por um copo d’água limpa, a cena vibra como uma ironia amarga.
Às margens da cidade, da renda, das políticas continuam as pessoas que o país não vê. Não é preciso que estejam na beira da estrada para serem esquecidas, e isso é bem claro, basta que estejam fora das planilhas e dos discursos. A miséria invisível não mora longe. Ela está logo ali, nas portas de Dourados, esperando ser reconhecida antes que o silêncio se torne permanente.
*Professora, jornalista, acadêmica de Psicologia e observadora da realidade social
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