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ARTIGO

Está tudo certo

29 janeiro 2016 - 15h50

Não gosto de solenidades. Elas cansam. Causam mau humor. Matam a gente de fome e calor. Principalmente se o evento acontece no Palácio Popular da Cultura. Há vários anos o ar condicionado do auditório principal pifou e ninguém toma providências para mandar consertar. Pega mal para a imagem do Estado, como se diz.

Na última segunda-feira, por conta da posse do advogado Mansour Karmouche no cargo de presidente das OAB/MS, enfrentei mais de três horas de discursos das autoridades presentes. Dever de ofício. Na verdade, não foram os pronunciamentos que me provocaram irritação – muitos deles me encantaram, outros me assombraram – e sim o ambiente sufocante.

Fomos – centenas de pessoas – vítimas da sauna involuntária do PP porque não podíamos nos despir das formalidades das vestes. Noblesse Oblige.

Sei que as autoridades não precisam ter lido a famosa obra clássica “A educação do Orador”, de Quintiliano (35/95 A.C), para saber falar para a platéia. Mas exige-se o uso das normas cultas da língua para que o som das palavras flua de maneira suportável em nossos ouvidos.

Os discursos de improviso, nestas horas, podem liquidar a reputação do orador. As regras de etiqueta exigem que em solenidades de posse, formatura, congressos etc., os pronunciamentos sejam lidos. Demonstra-se respeito para com o público, dando conta de que se conferiu tamanha importância ao ato demonstrando zelo e respeito ao se preparar a fala com um documento a ser deixado para a posteridade.

Aceita-se o improviso quando o orador tem a capacidade de praticamente guardar na memória aquilo que foi preparado anteriormente por escrito, ou quando o sujeito conhece tão profundamente o assunto que o faz capaz de traduzir seu pensamento e sentimento de maneira cristalina e estruturada, dispensando a leitura do texto. Mesmo assim, solenidade, como a própria palavra indica, convém ser um pouco solene.

Por isso, fiquei meio abespinhado com o discurso da vice-governadora em exercício, Rose Modesto – “a morena mais bonita do Brasil” – neste evento repleto de pessoas de nível intelectual acima da média.

Rose é simpática, sorridente, uma ótima peça decorativa, mas quando abre a boca e fala de improviso assusta e constrange. Pergunto: essa mulher não tem um assessor capaz de rabiscar meia dúzia de palavras para que ela não nos envergonhe quando se pronuncia em solenidades como essa? A imagem que fica é a de total improvisação e jequice.

Mesmo sendo professora, ela não conseguiu cometer um – um que fosse – acerto de concordância verbal e nominal durante sua fala. Pior: só falou trivialidades, tratando o público como um bando de infantilóides.
Grande parte dos advogados incomodou-se. Claro, ela foi salva por uma demagogia ou outra, fazendo promessas intangíveis; mesmo assim, ela precisa ler e estudar mais, caso queira pleitear o cargo de candidata a prefeita de Campo Grande, como se especula nos bastidores eleitorais.

Cometer erros gramaticais não é pecado. Todos – até gênios da raça – de vez em quando escorregam aqui e ali. Muitas vezes a língua se enrola e desconecta-se com a rapidez do pensamento ou mesmo da escrita. Mas o caso da professora Rose é mais sério.

Ela tem formação universitária, experiência de palanque e reuniões temáticas, é vice-governadora, secretária de estado, simplesmente não pode cometer erros tão primários. Veja o caso Dilma, motivo de piada nacional e internacional por não conseguir falar lé com cré. Nossa Rose corre o risco de ir pelo mesmo caminho.

A continuar assim, será dado crédito à maldade que vem se espalhando na praça de que ela é a nossa Olarte de saias. Ainda há tempo de se corrigir.

Articulista*

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