G1
A pequena adaptação instalada nos chuveiros de um presídio de Campo Grande, feita por um detento, ajudou o complexo penitenciário da capital a reduzir o consumo de água de 81,2 milhões de litros por mês para 63,4 milhões. Os quase 5 mil presos das cinco unidades consumiam o equivalente a uma cidade de 17 mil habitantes, segundo a Águas Guariroba. Agora o consumo é semelhante ao de 13 mil pessoas e o objetivo é reduzir ainda mais.
A quantidade de água economizada poderia abastecer uma cidade de 4 mil habitantes. Além da questão de uso racional, a redução também refletiu na conta de água do complexo, que girava em torno de R$ 2 milhões e reduziu R$ 267 mil desde maio, segundo a Agepen.
"Nós conseguimos uma economia de R$ 267 mil na primeira etapa da campanha [...] e vamos tentar conseguir a marca de R$ 800 mil até o fim do ano", explicou Ailton Stropa Garcia, diretor-presidente da Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen). Segundo ele, a economia só aconteceu porque os presos se conscientizaram.
Mato Grosso do Sul é o estado brasileiro com maior taxa proporcional de presos, com 597,6 detentos a cada 100 mil habitantes. A massa carcerária é de cerca de 14,5 mil presos, segundo a Agepen.
O presídio de trânsito, onde está o eletricista Carlos Rodrigues de Moraes, de 47 anos, foi a unidade do estado que teve maior economia, graças ao mecanismo criado por ele. A caixa d'água do presídio é muito grande e, por isso, a água tinha forte vazão.
Antes da adaptação e das campanhas de conscientização, os presos da unidade gastavam em média 120 litros de água a cada cinco minutos de banho. Depois da instalação, o consumo médio foi para 50 litros a cada cinco minutos, segundo a Águas Guariroba.
O uso exagerado de água chamou a atenção da Agepen, que fez uma campanha de conscientização em parceria com os servidores e a Águas Guariroba. "Sem a ajuda dos presos isso não teria acontecido, por isso, envolvemos os servidores, os presos e a Águas. A empresa disponibilizou dois servidores para fazer monitorar e identificar vazamentos no presídio e resolver o problema", explicou.
De acordo com Francis Moreira Faustino, engenheira civil da Águas Gariroba e responsável pelo programa de redução de perdas em Campo Grande, uma das medidas de economia implantadas no complexo foi a troca das válvulas de descargas por caixas e a substituição da tubulação antiga, que era subterrânea e ficava escondida.
Agora os canos podem ser vistos pelos presos, assim os vazamentos de água são identificados com mais facilidade. No Presídio de Trânsito, onde está o detento que adaptou uma peça nos chuveiros, a redução na conta de água foi de R$ 30 mil por mês. Francis ressalta que ainda é possível economizar mais água no complexo todo.
Técnica do preso
Carlos Rodrigues de Moraes, de 47 anos, cumpre pena por tráfico de drogas há dois anos. Ele diz que se sente feliz por ajudar na economia do presídio. Eletricista de formação, Carlos foi preso levando cerca de 300 kg de cocaína em rodovia do estado.
O equipamento adaptado por ele é usado durante os banhos dos presidiários. O sistema funciona através de um tampão com um pequeno furo, que, quando ajustado à instalação hidráulica, diminui o fluxo da água e aumenta a pressão.
Sobre a técnica usada, Carlos diz que não tem segredo. Além do baixo custo, em torno de R$ 1 cada tampão, a instalação é simples e sem custo para o presídio, já que é feita por ele.
A adaptação foi instalada em 22 dos 44 chuveiros da unidade e também em torneiras. A meta é implantar em todos os chuveiros. A ideia de reduzir a vazão partiu do agente penitenciário Ricardo Teixeira de Brito, que sabia da necessidade economizar água.
Campanhas
Segundo a Agepen, campanhas de conscientização são desenvolvidas em presídios do estado, explicando a importância de economizar água. Nas cinco unidades envolvidas, a redução foi de 15,8% entre os meses de maio e julho. A economia aconteceu mesmo diante do aumento do número de presos de 4.920 para 5.017 no Complexo Penitenciário.
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