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Centrais endurecem discurso e cobram atenção de governo

23 janeiro 2011 - 10h08

Menos de um mês após a posse da presidenta Dilma Rousseff, as centrais sindicais começam a cobrar a fatura pelo apoio dado à candidatura da petista ao Palácio do Planalto. Aliadas durante o governo Lula, as lideranças dos sindicatos já ameaçam retaliar o fato de não terem participado de nenhuma reunião com a presidenta desde a eleição, em novembro.

Rivais no movimento, Força Sindical e Central Única dos Trabalhadores (CUT) uniram os discursos nos últimos dias, num tom de saudosismo em relação ao governo Lula: afirmam que, desde o início da gestão Dilma, ficaram alijadas das principais discussões promovidas pela equipe da petista, entre as quais a definição no novo salário mínimo (as centrais pedem que o valor seja de R$ 580). Cobram também que o governo faça a correção da tabela do Imposto de Renda em 6,46% – algo que, até agora, não foi colocado em discussão.

Quem assumiu a linha de frente das críticas ao novo governo foi o presidente da Força, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP). A aliados, ele tem se queixado por ter elevado o tom das críticas ao presidenciável José Serra (PSDB) durante a campanha e diz que, agora, não recebe nem “obrigado” da presidenta. Manifestações em 20 Estados foram realizadas pelo País no último dia 18. Uma ação civil pública foi protocolada na Justiça Federal para obrigar o governo a reajustar a tabela do IR. Também na última semana, Paulinho assinou nota dizendo “estranhar a posição da presidenta Dilma Rousseff, que até agora não nos chamou para negociar”.

“A intransigência do governo só prejudica o relacionamento entre os representantes dos empregados e a presidenta, o que não ocorreu com o então presidente Lula que, mesmo antes da sua posse, em duas ocasiões convocou as centrais para buscar o entendimento”, escreveu Paulinho, que promete “intensificar o processo de pressão”.

Na mesma semana, após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de aumentar para 11,25% a taxa básica de juros, Paulinho emitiu nota dizendo ser “incrível” que “tecnocratas do governo” queiram “implantar a agenda econômica que foi derrotada nas últimas eleições por privilegiar o capital especulativo”.

“O que nos preocupa é que não estamos conseguindo falar com a presidenta. Parece que a equipe econômica tem influenciado muito no governo, sem discussões. O começo de um governo tem que ter certos cuidados. É quando você mostra a sua marca. O Lula se aproximou, foi muito sensível, e conseguiu fazer um bom governo. A Dilma tem essa sensibilidade, mas a impressão é que ela está cercada. Queremos furar esse bloqueio”, afirma o metalúrgico Miguel Torres, vice-presidente da Força.

O descontentamento tem sido manifestado também por dirigentes da CUT, que mantém uma aliança histhórica aliados do PT. “Com Lula, questões sobre a tabela do Imposto de Renda e aumento do salário mínimo sempre foram tratadas com as centrais. E estamos sabendo pelos jornais o que está acontecendo. Queremos manter a interlocução que tínhamos no governo Lula, e não que esse processo seja interrompido”, diz o presidente nacional da CUT, Artur Henrique.

Oficialmente, dirigentes das centrais desconversam ao dizer se temem que, sob Dilma, sindicalistas possam perder espaço em postos-chave do governo federal, como assentos em conselhos e fundações.

O ex-presidente Lula, durante reunião com as centrais sindicais, em junho do ano passado
Durante o governo Lula, considerado “mais sensível” em relação ao movimento, sindicalistas passaram a ocupar 43% dos cargos da elite da administração pública, como mostra recente estudo da cientista política Maria Celina D’Araújo, professora da PUC-Rio. Entre esses cargos estão assentos em conselhos de empresas estatais, fundos de pensão e nomeações das DAS (Direção e Assessoramento Superiores).

O presidente nacional da CUT afirma, no entanto, que as discussões sobre ocupação de cargos no governo estão restritas apenas ao âmbito partidário, e não explicam à rebelião atual das centrais.

“Não é uma discussão do movimento. Eu, como filiado, faço pressão dentro do governo para que o meu partido tenha cada vez mais espaço. Acontece que muitos integrantes do governo, como o (Antonio) Palocci, tem origem sindical”, diz. Segundo Artur Henrique, “pressão e mobilização” em torno das questões trabalhistas serão realizadas sempre, independentemente de quem está no governo. “Acabou a eleição, e temos autonomia para pressionar.”

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