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Venda de antidepressivos no Brasil cresce 44,8% em 4 anos

26 dezembro 2009 - 09h46

A venda de medicamentos antidepressivos e estabilizadores do humor cresceu 44,8% no Brasil em quatro anos, aponta levantamento realizado a pedido do G1 pela IMS Health, instituto de pesquisa que faz auditoria do mercado de medicamentos para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
 
O volume de vendas desses medicamentos cresceu de R$ 674,7 milhões nos 12 meses acumulados até outubro de 2005 para R$ 976,9 milhões no mesmo recorte até outubro de 2009. As valores referentes a 2005 foram atualizados com base nos reajustes máximos permitidos pela Anvisa, que considera também a inflação do período.
 
 


 
Foto: Flávio Moraes/G1
O tatuador Cezar Marchetti cortou o uso de antidepressivos, mas manteve os calmantes. (Foto: Flávio Moraes/G1)


O mercado brasileiro de antidepressivos cresce acima da média mundial há pelo menos cinco anos, segundo Marcello Monteiro, diretor da IMS Health de linhas de negócios para América Latina e responsável pelo levantamento.
 
“O Brasil faz parte de um grupo de países classificados como “farmaemergentes”: Brasil, Rússia, Índia, Coréia, México e Turquia. Juntos, eles respondem por 50% do crescimento mundial do mercado de medicamentos”, afirma o executivo.

Dados da Previdência Social apontam que os transtornos mentais e comportamentais, como a depressão, são a terceira causa de afastamento do trabalho no Brasil. "Há uma série de doenças que a gente acha que são mais incapacitantes, mas o efeito da depressão sobre os brasileiros é muito grande", diz o médico psiquiatra Duílio Antero Camargo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e coordenador da comissão técnica de saúde mental da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anant).
 
 
Estímulo econômico
Segundo o diretor da IMS Health Marcello Monteiro, boas notícias no Brasil como o crescimento da economia, o aumento de renda dos trabalhadores e o envelhecimento da população estão entre os principais fatores que favorecem o aumento das ocorrências de tratamento dos “males urbanos” que, além de transtornos mentais e depressivos, incluem doenças como diabetes, hipertensão e obesidade. 
 


  Foto: Divulgação
A jornalista Cátia Moraes. (Foto: Divulgação)


Medicamentos chamados “crônicos”, específicos para tratar os males característicos do século XXI, subiram no ranking e ocupam sete posições na lista dos dez medicamentos mais vendidos no Brasil até outubro de 2009, dominado antigamente por analgésicos e antibióticos.

“O forte processo de urbanização pelo qual o Brasil ainda passa estimula o consumo desse tipo de medicamento: as taxas de crescimento são menores que na Europa, por exemplo, onde essa urbanização já acabou”, diz Monteiro.

 
Pressão profissional
Para o médico psiquiatra Duílio Antero Camargo, do Hospital das Clínicas, elementos presentes nas relações de trabalho contemporâneas como concorrência, acúmulo de tarefas, falta de apoio social e desemprego aumentam a incidência de transtornos mentais entre os brasileiros.
 
“Com as mudanças hoje em dia da organização do trabalho, muitas das causas da depressão estão ligadas aos relacionamentos diante do trabalho, como o estresse ocupacional ou relacionado ao mercado, desemprego e o mundo organizacional”, diz o psiquiatra.
 
Desde o vestibular
Foi a ansiedade para escolher a profissão na época do vestibular que levou o relações-públicas Pedro Azeredo Boschi, de 31 anos, a iniciar tratamento com medicamentos antidepressivos sob prescrição médica. "Chorava muito e estava desanimado", diz.

Hoje desempregado, ele diz que a pressão e a dificuldade para conseguir trabalho em Belo Horizonte (MG), onde mora, ainda influenciam na continuidade do tratamento. "Estou desempregado faz muito tempo e não estou conseguindo um emprego. É muita cobrança", explica.
 
Preconceito e benefícios
Para a jornalista Cátia Moraes, 49 anos, autora do livro "Eu Tomo Antidepressivo - Graças A Deus!", da editora Best Seller, a ampliação do acesso a esse tipo de medicamento é positiva, desde que haja recomendação e acompanhamento médico. Na opinião dela, o uso de antidepressivos ainda é alvo de resistência e preconceito.
 
Cátia teve a adolescência marcada pela experiência de ver o pai, "alegre e extrovertido", perder o emprego e a vontade de viver por conta de uma depressão severa. Hoje, ela lamenta a escassez e a ineficiência das opções de tratamento disponíveis na época.
 
"Fizemos na época todo tipo de tratamento: choque, psquiatria. Naquele tempo, nos anos 70, não se falava em depressão ou antidepressivo. Ele morreu quando eu tinha uns 15 anos, de um AVC", diz.  
 




Há um preconceito em relação a esses medicamentos como não há em relação a outros. Se alguém faz tratamento para diabetes, problemas no coração, hipertensão, ninguém questiona"




Quando a própria Cátia começou a apresentar crises de ansiedade, angústia e taquicardia, no final dos anos 90, ela resistiu a iniciar o tratamento, mesmo com a recomendação de seu psquiatra.
 
 "Foi se criando um bicho-papão. A gente via meu pai indo a médico e tomando aquele monte de remédio que não adiantava nada. Eu tinha preconceito (em relação a antidepressivos)", diz.
 
O uso dos medicamentos, garante, melhorou radicalmente sua qualidade de vida e lhe deu mais energia e foco. "Eu trabalhei a minha vida inteira abaixo da minha capacidade", avalia.
 
Peso no orçamento 
O tatuador Cezar Augusto Marchetti, de 31 anos, começou em 2003 a fazer uso de antidepressivos e ansiolíticos para tratar sintomas de transtorno de ansiedade quando ainda morava com os pais e havia trancado um curso de Educação Física na faculdade em São Paulo (SP).
 
"Eram medicamentos caros, todos são", diz Cezar que, desde que foi morar sozinho passou a buscar os medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), mediante a apresentação da receita médica.
 
"Gastava uns R$ 80, R$ 100 por mês. Sem condições", conta Marchetti, que desde o ano passado cortou os antidepressivos e manteve apenas o uso de calmantes algumas vezes por semana. "Parei porque os efeitos colaterais, como a tremedeira, me atrapalhavam no trabalho", diz.
 
O preço do Lexapro, que está entre os dez medicamentos mais vendidos no Brasil, segundo a IMS, varia de R$ 52,54 a R$ 69,40 em cinco drogarias de São Paulo consultadas pelo G1.
 




“Tristeza pontual não é doença e no entanto está sendo medicada”, diz o especialista"




"As primeiras vezes em que eu prescrevi antidepressivos, há cerca de 20 anos, alguns pacientes vieram para devolver a receita porque não dava para comprar, eram muito caros. Hoje eles são vendidos a preços acessíveis", conta o psiquiatra Duílio Antero Camargo, do Hospital das Clínicas.
 
Consumo exagerado
Na avaliação do vice-diretor do Hospital Dia do Instituto de Psquiatria do Hospital das Clínicas Elko Perissinotti, é preciso saber diferenciar um quadro de depressão clínica de tristezas pontuais naturais do ser humano antes de buscar apoio nos medicamentos.

“Remédio a gente deve tomar quando a gente está doente, e de preferência bastante doente. Não existe nenhum remédio no mundo para nenhuma doença que só tenha efeitos benéficos”, afirma. 
 
Para Perissinotti, o uso de antidepressivos tem sido sobrevalorizado por pacientes e médicos, o que pode trazer riscos para a saúde e sequelas emocionais. 
 

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