####Conheça as histórias de quem conseguiu superar o problema
A estranheza que os gestos e as falas de Paula causavam nas pessoas fez com que a gaúcha de 31 anos vivesse dois anos saindo de casa apenas para o essencial. Os tiques que tanto envergonhavam a mulher, que pediu para ter o nome verdadeiro preservado, apareceram pela primeira vez aos 19 anos, com um piscar de olhos excessivo. A medicação indicada teve efeito inverso. Surgiram espasmos nos braços e nas pernas e alterações vocais. Os trejeitos nem incomodavam tanto a jovem, não fosse os olhares preconceituosos que a cercavam.
— É comum me perguntarem na rua se preciso de ajuda. Aprendi a conviver e nem ligo mais. Meus pais pediam para eu me acalmar, porque achavam que era ansiedade. Meu ex-marido insistia para eu me controlar em locais públicos — desabafa Paula,que se indignava em ter de repetir que não fazia caretas e emitia ruídos por vontade própria ou nervosismo.
Até Paula encontrar um diagnóstico correto, se passaram seis anos. Em 2005, recebeu o diagnóstico de Síndrome de Tourette. Já tomou 30 tipos de remédios, mas não está curada.
O problema de Paula atinge 1% da população e pode ter várias classificações. Mas esse número pode ser maior: só os casos mais graves são contabilizados, quando os pacientes procuram ajuda médica. A coordenadora do Departamento Científico do Transtorno do Movimento da Academia Brasileira de Neurologia, Vanderci Borges, lança um desafio:
— É comum conhecermos alguém que faz gestos repetitivos, que podem ser motores, como um balançar de cabeça ou um piscar de olhos constante, ou vocais, como pigarrear ou repetir palavras — destaca a especialista.
Os tiques tendem a ser mais prejudiciais pelo preconceito que a rodeia do que pelos sintomas em si. A psiquiatra Ana Hounie, autora do livro Tiques, Cacoetes, Síndrome de Tourette, um manual para pacientes, seus familiares, educadores e profissionais de saúde (Artmed, 2005) destaca que, apesar de corriqueira,ainda é pouco entendida pela população:
— A expressão tique nervoso é mentirosa. A ansiedade aumenta os ataques, mas alguém não começa a ter tiques depois de um forte estresse se já não tiver a doença no seu DNA — avalia.
Doença ainda obscura para a ciência, os tiques são desencadeados pela produção excessiva de dopamina, um dos principais neurotransmissores cerebrais. Essa disfunção pode ser desencadeada na infância, por infecções, ou mesmo com o uso de substâncias psicoativas, como a cocaína, mas depende de pré-disposição genética. Ainda não existe um medicamento específico para conter as crises. Drogas para doenças psicológicas e anti-hipertensivos são algumas alternativas.Como quanto maior a potência do medicamento, mais chances de efeitos colaterais, recomenda-se que eles só sejam receitados quando a convivência social do paciente e a autoestima estiverem abaladas.
— O melhor remédio é orientar quem cerca a pessoa, principalmente na fase escolar para evitar que a criança seja vítima de bullying — diz o coordenador do ambulatório de Distúrbios do Movimento do Hospital São Lucas da PUCRS, André Dalbem.
####Afastando o preconceito
Não tem outro jeito de reverter o preconceito senão entender a doença. Até no Aurélio, dicionário da língua portuguesa, o primeiro significado que aparece para tique é “hábito ridículo”. Neurologistas e psiquiatras explicam que não se trata de um costume, mas sim de uma disfunção de uma área cerebral responsável pelos movimentos.
— Ele tem uma lógica funcional. O que o torna anormal é a repetição frequente. A pessoa até consegue se controlar, mas há uma necessidade imensa que faz com que ela se solte e faça os movimentos em maior quantidade — diz Carlos Mello Rieder, coordenador do Ambulatório dos Distúrbios do Movimento do Hospital de Clínicas da Capital.
O analista de sistemas Rafael Ligocki Silva, 31 anos, é portador da Síndrome de Tourette e nem se importa com o que os outros pensam. Sempre que pode esclarece sobre a doença que o acompanha desde os 13 anos. Como os tiques podem ir mudando e amenizando com o tempo, há três anos Rafael apresenta sinais bem leves: torce o pescoço vez ou outra e realiza movimentos com os pés e tosse constantemente.
Rafael é funcionário público e trabalha em um local bastante silencioso. Sabe que sua tosse pode incomodar as pessoas ao redor e já virou alvo de piadinhas. Na última campanha da empresa contra a tuberculose, dezenas de panfletos foram parar na mesa dele. Estão sempre dizendo: “tu tens que ver o que é essa tosse. Não pode ser normal”. Ele agradece, dizendo que é uma alergia.
— Não é que eu tenha vergonha. Só acho chato explicar toda hora o que eu tenho. E quando você fala que tem uma síndrome, as pessoas já te olham atravessado. Eu até me divirto com isso.
Fonte: Bem Estar(Zero Hora)
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Problema atinge 1% da população e pode ter várias classificações
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