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SAÚDE

Saiba por que o zika vírus pode causar a Síndrome de Guillain-Barré

28 dezembro 2015 - 09h57

O vigilante Gibson Castro, de 34 anos, andava cansado havia alguns dias. Achou que a dormência nos pés e nas mãos era sintoma de estresse. Ganhou do médico, na cidade de Arapiraca, em Alagoas, uma prescrição para tomar um ansiolítico, droga que tem efeito calmante e pode gerar dependência. Os sintomas se agravaram. Os músculos do rosto paralisaram-se. Não conseguia mudar a direção do olhar. As pernas perderam os movimentos. Só se alimentava com comida pastosa porque mal conseguia engolir. Chegou a achar que a fraqueza era efeito do medicamento. Alguns dias depois, foi de ambulância para o hospital. O ar lhe faltava. Encaminhado para um hospital da capital, Maceió, recebeu um diagnóstico que se tornou familiar aos brasileiros nas últimas semanas.

Castro estava com a síndrome de Guillain-Barré. Ela ocorre quando o sistema de defesa começa a atacar o próprio corpo, após enfrentar uma infecção causada por vírus ou bactéria. As células de defesa destroem a camada de gordura que envolve as células nervosas, por onde os estímulos viajam. Em casos extremos, os músculos responsáveis pela respiração, como o diafragma, param de funcionar. Se o paciente não estiver no hospital, para ser prontamente entubado, pode morrer – desfecho de 5% dos casos. Por trás do quadro de Castro, estava outro nome que passou a fazer parte das conversas cotidianas no país nos últimos meses: zika, mais um vírus transmitido pelo Aedes aegytpi.

Quatro dias antes dos primeiros sintomas, Castro tivera manchas avermelhadas pelo corpo, uma espécie de conjuntivite em que há irritação do branco dos olhos, dor de cabeça e nas articulações. Seguindo um roteiro percorrido por outros milhares de brasileiros, foi diagnosticado com dengue. Quando os exames voltaram negativos, o médico falou em zika. “Minha mulher e minha filha, de 5 anos, também tiveram o vírus zika. Ainda bem que só eu tive essa complicação”, diz Castro. Ele ficou nove dias internado – sete na UTI – e saiu andando, sem sequelas. “Graças a Deus não morri. Cheguei a achar que ia.”

###O que é o zika vírus
Em junho, quando Castro teve a síndrome de Guillain-Barré, ainda se falava pouco do novo vírus. Os médicos mal suspeitavam da relação entre o zika e complicações neurológicas, como a de Castro, ou da associação com a microcefalia, deficiência no desenvolvimento do cérebro de bebês que acontece durante a gestação. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam para 2.401 bebês nascidos com microcefalia no país neste ano. Os casos da síndrome de Guillain-Barré não são contados porque a notificação ao ministério não é obrigatória. Estatísticas das secretarias de Saúde de Estados da Região Nordeste, onde a epidemia parece ter começado, sugerem um aumento na ocorrência (leia o quadro na página 82).

###Como se proteger do zika vírus
A neurologista pernambucana Maria Lucia Brito Ferreira, do Hospital da Restauração, no Recife, foi uma das primeiras a relacionar o zika ao aumento de casos de Guillain-Barré e de outras complicações neurológicas. Até junho, 131 pacientes haviam sido atendidos com a síndrome ou com outros quadros graves, como meningite, encefalite e encefalomielite aguda disseminada, doenças que também atacam o sistema nervoso. De 70 pacientes reavaliados, a maioria – 42 – havia tido a síndrome de Guillain-Barré. Maria Lucia encaminhou amostras de sangue de seis deles para a Universidade Federal de Pernambuco. Os resultados ficaram prontos em novembro. Todos haviam sido infectados pelo zika: quatro desenvolveram a síndrome de Guillain-Barré e dois a encefalomielite. Maria Lucia aguarda os resultados dos demais pacientes. “Tudo leva a crer que os outros pacientes, inclusive os que tiveram meningite e encefalite, também tenham tido o vírus zika”, diz. “Eles tiveram manchas vermelhas no corpo e o sangue não tinha as alterações comuns à dengue.”

###Vacina para o zika vírus deve demorar até 10 anos
A síndrome não é causada exclusivamente pelo vírus zika. Descrita em 1916 pelos médicos franceses que a nomeiam, pode ser desencadeada por qualquer infecção, ocasião em que se exige do organismo uma reação para enfrentar um inimigo. Em alguns casos, a resposta é exagerada. Alguns invasores parecem mais associados a essa reação desproporcional, como é o caso da bactéria Campylobacter jejuni, que causa gastroenterite. Ela tem um componente que também é encontrado nas fibras nervosas, o que pode confundir o sistema de defesa e fazê-lo atacar o próprio corpo. Há relatos de casos desencadeados pelo vírus da dengue. Foi isso que fez a neurologista Maria Lucia suspeitar da possível relação com o novo vírus. “Já tínhamos visto um aumento brusco de casos na epidemia de dengue de 2002.”

O aumento de casos da síndrome após o surgimento do zika fez alguns médicos cogitar a hipótese de o vírus ter mais chances de desencadear complicações neurológicas. “Está se falando que o anticorpo produzido em resposta ao zika tem 20 vezes mais chances de atacar o corpo”, afirma o hematologista alagoano Wellington Galvão, que diz já ter atendido cerca de 40 pacientes com a síndrome neste ano. Como há poucos estudos, não é certo que o zika tenha mais chances de causar a síndrome. “O mecanismo de ação do vírus é completamente desconhecido”, diz o neurologista Amilton Antunes Barreira, da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. O aumento de casos pode ser reflexo da epidemia nova. Mais pessoas estão suscetíveis ao vírus porque ainda não têm resistência.

###4 motivos para não acreditar no boato que liga vacinas à microcefalia
A medicina também não sabe por que algumas pessoas desenvolvem a síndrome em resposta a uma infecção, a vacinas e até mesmo à gravidez. Suspeita-se que algumas tenham maior suscetibilidade por causa de fatores genéticos não identificados. Também existe uma relação com o estado de saúde e a idade. Crianças e idosos parecem mais vulneráveis. A velocidade da recuperação e as sequelas, que podem ou não existir, em diferentes graus, também variam. Há apenas dois tratamentos indicados. Doses de imunoglobulina, que ajuda a desarmar o sistema de defesa, e a filtragem da fração do sangue onde estão os anticorpos, chamada plasmaférese. “Ambos podem abreviar o curso da doença e diminuir as chances de sequela”, diz o neurologista Renato Anghinah, da USP. “É mais fácil usar a imunoglobulina, mas isso nem sempre acontece pelo preço, cerca de R$ 3 mil por dose.” São necessárias cinco.

A cientista política e jornalista Lucia Hippolito, de 65 anos, fez o tratamento com imunoglobulina. Os primeiros sintomas apareceram em uma viagem à França, em 2012. Em uma manhã, ela não conseguiu se levantar da cama. Um dia após ser internada em um hospital de Paris, foi entubada. Foram 47 dias no respirador, três meses no hospital em Paris até ser removida para o Brasil. Lucia ficou um ano e cinco meses internada no hospital Sarah Kubitschek de Brasília. Ela não teve o vírus zika, e os motivos que desencadearam a síndrome são até hoje desconhecidos. Alguns meses antes, Lucia teve gastroenterite e tomou vacinas, fatores que guardam relação com a síndrome. Hoje, de volta ao Rio de Janeiro, Lucia ainda não pode andar, mas já se dedica ao trabalho – na Rádio CBN e no Programa do Jô, na TV Globo. Não descuida da reabilitação. “Quando estou desanimada, lembro-me de quanto melhorei. Cheguei a querer morrer porque era uma solução mais rápida”, diz Lucia.

A empresária paulistana Valéria Babrikowski, de 58 anos, também teve pensamentos desesperados durante a síndrome, em 2013. Ficou 15 dias em coma. Voltou para casa paralisada. Graças à fisioterapia e, diz ela, à vontade de pegar nos braços o primeito neto, prestes a nascer, recuperou-se em três meses. Carregou Lucca assim que ele nasceu. Hoje, ainda tem alguma dificuldade para fazer movimentos precisos com as mãos. Pinta caixas como terapia e pratica seu hobby favorito, padel, um mistura de tênis e squash. “Tem de ter garra e determinação para vencer a síndrome”, diz Valéria. No caso dela, o quadro pode ter sido desencadeado por gripe ou uma bactéria que causou indisposição intestinal. Na loteria maligna da síndrome de Guillain-Barré, parece que o vírus zika aumentou a chance de cada brasileiro ser sorteado.

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