O ingresso de mais estudantes de escola pública pelo sistema de cotas exigirá das universidades federais uma "real democratização de seu ensino", avalia Delcele Queiroz, professora do Departamento de Educação da Uneb (Universidade do Estado da Bahia) e pesquisadora do assunto.
"Há cursos com livros e material muito caros, como medicina e odontologia. A assistência estudantil tem que ser mais do que uma bolsa de iniciação científica [para garantir a permanência dos alunos de classes baixas]". Para Delcele, é preciso, por exemplo, o aumento de capacidade dos restaurantes universitários, das políticas de moradia estudantil, ampliação das bibliotecas, entre outras coisas.
"A universidade vai ter que se preparar para atender efetivamente essa parcela da população que não chegava à universidade", afirma.
Sobre o receio de que as instituições recebam alunos ruins, a pesquisadora afirma que, mesmo com a reserva de vagas, o sistema ainda escolhe os melhores alunos. "O vestibular seleciona muito. Mesmo com as cotas, a nota de corte não costuma ser muito diferente do que a que já existia. Na verdade, a cota apenas tenta equilibrar um pouco essa concorrência."
Desempenho
Estudos feitos pela pesquisadora e pelo professor Jocélio Teles, na UFBA (Universidade Federal da Bahia) mostram que tanto o desempenho como a evasão de alunos cotistas são semelhantes aos de alunos que ingressam pela seleção convencional. O mesmo resultado foi obtido em pesquisas realizadas na UnB (Universidade de Brasília), na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e na Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo).
No entanto, a pesquisa aponta para a necessidade de programas de acompanhamento para esses alunos. "Os alunos superam as diferenças, mas para isso fazem um esforço muito grande. Isso pode ser melhorado com programas de acompanhamento", diz.
Lei de cotas
Em 2012, a presidente Dilma Roussef assinou o decreto que criou a reserva de 50% das vagas em universidades federais para estudantes de escola pública. A regra, que será aplicada progressivamente, começa a valer já para o vestibular de 2013.
Segundo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, alunos que entrarem pelo sistema e tiverem renda familar inferior a 1,5 salário mínimo per capita receberão bolsas do governo para garantir a continuidade dos estudantes no curso. No entanto, ainda não foi definido oficialmente o sistema de bolsa, suas regras e valores.
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